Além de explicar como fazer um morango do amor ou de onde veio esse fenômeno açucarado das redes, o ChatGPT agora pede o doce por você em um aplicativo de delivery. Ele pesquisa preços, avalia o melhor custo-benefício e leva o pedido até a etapa final da compra. Essa é uma das funções que pode ser ativada no modo “agente”, lançado há duas semanas pela OpenAI.
A promessa é ambiciosa. Toda a indústria de inteligência artificial corre para criar assistentes que navegam por sites e plataformas pelo usuário, com liberdade para clicar, agendar, comprar, reservar ou se comunicar. A ideia é que a IA tome decisões e realize tarefas com algum grau de autonomia e possa “navegar” por você.
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Por enquanto, a execução ainda parece longe da fluidez de um assistente perfeito e nem tudo funciona como o prometido. Mesmo assim, o modo “agente” é um vislumbre assombroso de como as empresas de IA avançam para tornar essas ferramentas mais autônomas.
Durante um dia, testei pelo menos uma dezena de usos do agente do ChatGPT. A seguir, explico como ele funciona e o que acontece quando você pede que ele envie um e-mail por você, faça compras no mercado ou organize sua agenda.
“O ChatGPT agora pode trabalhar para você usando seu próprio computador, lidando com tarefas complexas do início ao fim”. É assim que a OpenAI apresenta o recurso, que usa um navegador virtual integrado à interface do chat para simular ações humanas como clicar em botões e rolar páginas.
O agente também pode ser conectado a plataformas como Gmail, Google Drive, Outlook, Calendário ou Canva. Com isso, pode ser programado para enviar mensagens ou montar apresentações, a depender dos pedidos do usuário. A navegação alterna entre decisões autônomas e pedidos de confirmação sobre as próximas ações.
Para executar uma tarefa, o agente a divide em etapas e escolhe a melhor ferramenta para seguir em frente. Os bastidores da decisão são visíveis ao usuário, que pode acompanhar o passo a passo do robô. Segundo a OpenAI, a maioria das tarefas leva de 5 a 30 minutos, mas a realidade pode ser mais demorada (como você vai ver nos testes abaixo).
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Para ativar o recurso, é só ir na aba “Ferramentas” e clicar em “Modo agente”. Também dá para programar tarefas recorrentes – toda segunda-feira fazer o pedido de um morango do amor, por exemplo. Por enquanto, o recurso está disponível apenas para usuários que pagam pelo ChatGPT (planos Plus, Pro e Team).
2. Testamos o assistente no modo ‘consumidor’
No primeiro teste, pedi que o agente encontrasse um “morango do amor” no iFood. Na tentativa inicial, ele demorou vários minutos para acessar a plataforma, pediu meu login e, no fim, adicionou um item a mais no carrinho (e levou algum tempo até tirá-lo de lá). Na segunda, foi bem melhor. Em quatro minutos, escolheu o local, colocou o item certo no carrinho e me levou até a tela de pagamento. Justificou a escolha com base em preço e avaliação.
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Já com o iFood conectado, fiz outros experimentos. Pedi, por exemplo, que o agente encontrasse o melhor frango com curry na minha região e entregasse três opções com comparativo de preço, nota, distância e taxa de entrega. Demorou 13 minutos, mas entregou um resultado interessante.
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A missão seguinte foi mais elaborada. Era preciso fazer as compras para um jantar. O prato era salmão com alcaparras, arroz e batatas, com entrega no bairro do Butantã, em São Paulo. Na primeira tentativa, a IA não conseguiu acessar nenhum mercado depois de 5 minutos. Na segunda, entrou no site do Carrefour, escolheu os itens (com mistura de produtos mais baratos e outros mais caros) e colocou tudo no carrinho. Levou mais de 15 minutos até a tela de login. As quantidades selecionadas foram bem razoáveis, mas não houve um critério claro nas escolhas, como preço ou qualidade do produto.
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Depois, testei a capacidade de organização do assistente de uma viagem de São Paulo a Gramado para dois casais no fim do ano. Sem receber nenhuma indicação sobre preço limite, o agente conseguiu montar um pacote de R$ 3 mil por pessoa, com voos e hotel, e avançou até a etapa final da reserva, onde era preciso inserir os dados dos viajantes.
3. O que acontece com o agente conectado ao Drive e ao e-mail
Depois de permitir o acesso ao e-mail, Google Drive e Calendário, comecei os testes para uso “corporativo” do agente. A primeira tarefa foi simples e funcionou bem. Listei três compromissos, com data e horário, e pedi para que ele adicionasse na minha agenda. Tudo certo.
Na sequência, elevei a barra dos pedidos. Solicitei que ele acessasse os balanços financeiros de cinco empresas, montasse um relatório com os resultados, criasse um documento no Drive e o enviasse por e-mail. A primeira tentativa falhou completamente e o agente não conseguiu conectar-se com as plataformas externas (só entregou o relatório).
Na segunda, gerou o documento no meu Drive (com dados misturados entre fontes oficiais e matérias jornalísticas) e chegou à janela para compartilhar o link. Mas travou por longos 15 minutos tentando enviar o e-mail. O saldo foram quatro rascunhos salvos e nenhuma mensagem entregue.
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Na tentativa seguinte, pedi que a IA acessasse o mesmo relatório no Drive (ele conseguiu, apenas pelo nome) e criasse uma apresentação de slides a partir dele. A tarefa levou 38 minutos e foi a mais longa dos testes. O resultado foi uma apresentação simples, com gosto duvidoso, mas que impressiona por ter sido completamente executada pela IA. O arquivo, depois, poderia ser editado. Os números estavam errados em pelo menos um dos casos (o balanço financeiro da Apple).
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A ideia é que, no contexto de trabalho, o agente também possa se conectar a ferramentas usadas no dia a dia como Slack, Canva ou até LinkedIn. Entre tarefas possíveis, daria para pedir que ele montasse um post no Canva ou enviasse no Slack por você. Outra possibilidade seria solicitar que ele procurasse vagas com seu perfil no LinkedIn.
4. Os riscos do ‘piloto automático’
A própria OpenAI alerta que deixar o agente circular por suas contas pode trazer riscos. A principal ameaça, segundo a empresa, são os chamados “ataques de prompt injection”, que seriam como comandos maliciosos escondidos em páginas da web que poderiam manipular o agente a agir contra o interesse do usuário.
Para reduzir riscos, a empresa orienta que os usuários não conectem contas sensíveis sem necessidade; desliguem conectores ao fim da tarefa; evitem comandos vagos (como “faça o que for preciso para resolver isso”); interrompa imediatamente qualquer comportamento suspeito.
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Outro ponto sensível é a privacidade. Quando o usuário assume o controle do navegador (para digitar senhas, por exemplo), o agente não faz capturas de tela nem armazena os dados, segundo a OpenAI. Fora isso, a navegação fica registrada e só é apagada manualmente.
Também há riscos fora da cartilha da OpenAI, como decisões pouco transparentes, erros operacionais, alucinações e erros de conteúdo, como o que aconteceu com os dados da Apple. Nesses casos, no entanto, o alerta é maior, já que IA pode “agir” por você. Em caso de erros graves, vale lembrar, ainda não está claro quem seria o responsável. Seja como for, esse pode ser um vislumbre de como a internet ainda poderá se parecer.