Nesta sexta-feira (4), o diplomata e escritor Edgard Telles Ribeiro toma posse na cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. O imortal, que sucede o filósofo Antonio Cicero, vestirá um fardão produzido pela estilista carioca Julia Parker. É a primeira vez em 35 anos – e a segunda nos 127 anos de existência da instituição – que uma mulher confecciona o tradicional uniforme dos acadêmicos.
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Especializada em vestidos de noivos, a estilista foi contatada por Ribeiro por conta de seu talento para o bordado – uma técnica fundamental para atender as exigências do fardão verde-oliva. Os profissionais encarregados pela tarefa costumam ser escolhidos pelo próprio acadêmico e são obrigados a seguir o modelo centenário da vestimenta.
– Foi um desafio, claro, porque é completamente diferente de fazer um vestido de casamento, onde temos liberdade para criar de acordo com a personalidade de cada noiva – diz Parker. – No fardão temos que executar a risca um desenho histórico.
A estilista, que só aceitou a encomenda depois de ver de perto os detalhes da peça, começou a produção da peça em janeira em seu ateliê e fez as provas finais com Ribeiro na semana passada.
– Fizemos vários testes de bordado, até chegarmos a um resultado final – conta Parker. – Mas o processo foi delicioso.
Antigamente, os custos do fardão eram assumidos pelos governos dos estados de origem do acadêmico. Nos últimos anos, os próprios imortais passaram a pagar a salgada conta, que em média varia de R$ 50 mil e R$ 60 mil. Primeiro indígena da ABL, Ailton Krenak fez uma vaquinha para custear o seu.
Em 2022, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro romperam uma tradição que vigorava desde 2005 e optaram por não encomendar seus fardões ao alfaiate oficial da ABL, Diógenes Cardoso. As vestimentas do compositor e da atriz foram confeccionadas pelo alfaiate Marcelo Pie, parceiro de vida do acadêmico Antonio Cicero por quatro décadas. Pie também trabalhou para outros três imortais – os de Krenak, Eduardo Gianetti e Heloisa Teixeira – mas abandonou a função após a morte do marido no ano passado.
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Antes de Parker, a costureira popular Edite Minervina já havia assinado o fardão usado em 1990 por Ariano Suassuna em sua posse na ABL.
– Eu me sinto muito honrada de ser apenas a segunda mulher nessa lista – diz Parker. – Entendo que esse é um trabalho normalmente feito por alfaiates, com uma tradição de anos. E existem pouquíssimas alfaiates mulheres. o trabalho tirou toda minha equipe da zona de conforto. Mas, no final, quando vimos o fardão pronto e entregue, de um orgulho enorme de missão cumprida.

