Na quarta-feira, o Pentágono informou em seu site de baixas militares que um total de 18 integrantes das Forças Armadas dos Estados Unidos havia morrido durante a guerra contra o Irã. Apenas um dia depois, na quinta, o Departamento de Defesa reduziu esse número para 14.
Segundo autoridades militares, que falaram sob anonimato, uma das razões para a mudança foi a decisão do governo de retirar da lista quatro militares mortos no fim de semana porque suas mortes ocorreram após o presidente Donald Trump declarar um cessar-fogo, em abril. O secretário de imprensa interino do Pentágono, Joel Valdez, porém, atribuiu a mudança a “interrupções temporárias de dados” no site, disse, que seriam corrigidas rapidamente.
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Desde o colapso do cessar-fogo, o Pentágono forneceu poucas informações sobre a estratégia militar americana e demorou a divulgar dados sobre ferimentos entre as tropas. A última grande entrevista coletiva do órgão sobre a guerra ocorreu no início de maio. De acordo com o Departamento de Defesa, divulgar ataques iranianos contra bases onde tropas americanas estão alojadas comprometeria a segurança nacional.
Autoridades americanas afirmaram que o Pentágono omitiu informações sobre três ataques iranianos ocorridos na semana passada na Jordânia, que deixaram dezenas de militares americanos feridos e danificaram vários helicópteros. Nos últimos meses, o governo Trump não divulgou como a guerra com o Irã esgotou os estoques americanos de armas críticas e caras, nem como o Irã manteve e reconstruiu capacidades substanciais de mísseis.
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Após um ataque iraniano na Jordânia, na sexta-feira, matar três soldados, o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, reconheceu que o número de baixas americanas havia subido para quase 100. Autoridades da Defesa dizem que a legislação obriga o governo a divulgar as mortes de militares, mas não os ferimentos. No entanto, críticos, incluindo senadores democratas, dizem que o governo tem a obrigação de informar o público sobre a condução da guerra.
— O governo parece ter muita dificuldade em ser honesto sobre o que está acontecendo. Não apenas em relação às baixas, mas sobre toda a guerra de maneira geral — disse o general da reserva Ben Hodges, veterano das guerras do Iraque e do Afeganistão, que comandou as forças americanas na Europa no início do primeiro mandato de Trump. — [Isso] demonstra falta de disposição ou incapacidade de aprender de forma rigorosa com os próprios erros.
Uso político
A questão das mortes de militares é relevante porque tanto Trump quanto o secretário de Defesa, Pete Hegseth, transformaram o tema em uma de suas principais bandeiras. Ambos afirmaram repetidamente que seus antecessores, o presidente Joe Biden, o então secretário de Defesa Lloyd J. Austin III e a então vice-presidente Kamala Harris eram responsáveis pela morte de 13 militares americanos em um atentado suicida em Cabul, em 2021.
— Essas pessoas não deveriam ter morrido — disse Trump ao podcaster Lex Fridman em 2024. — Elas morreram por causa de Biden e por causa de Kamala. Morreram como se eles tivessem puxado o gatilho.
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Dezenas de afegãos também morreram no ataque ao portão Abbey Gate, uma das principais entradas do Aeroporto Internacional Hamid Karzai, durante a caótica retirada das forças americanas do país.
O Pentágono indicou que está se preparando para divulgar uma revisão da retirada do Afeganistão, encomendada por Hegseth. A investigação, liderada por Parnell, “garantirá responsabilização perante o povo americano e os combatentes de nossa grande nação”, escreveu Hegseth no ano passado, ao anunciar a iniciativa.
Classificações distintas
Em seu balanço de baixas da guerra contra o Irã, o Pentágono separa o número de militares mortos em combate daqueles que morreram em acidentes. Até quarta, os dados indicavam que 11 militares haviam sido mortos em ações hostis e sete em acidentes relacionados ao conflito. Entre os mortos em acidentes estão os integrantes da tripulação de uma aeronave-tanque KC-135 da Força Aérea americana que caiu no Iraque em março, durante a campanha militar ligada à guerra no Irã.
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Na manhã de quinta, o número de mortes exibido no site havia sido alterado para 14, sendo sete classificadas como decorrentes de ações hostis. Valdez, o secretário de imprensa interino do Pentágono, afirmou que comparar as mortes de militares durante os governos Trump e Biden era uma “tentativa de politizar o sacrifício dos melhores guerreiros dos EUA no Irã”, mas destacou que as mudanças nos dados eram “anomalias no site” que seriam corrigidas, acrescentando, por e-mail:
“O departamento tentou explicar as anomalias ao New York Times antes da publicação, mas, dada a falta de conhecimento deles sobre esse tema, decidiram publicar uma não-notícia. Continuamos comprometidos em garantir a máxima precisão em todos os relatórios sobre baixas.”
Trump continuou fazendo referência ao número mais alto de mortes de militares americanos. Em declarações na quinta-feira, comparou o total de mortos em outras guerras dos EUA ao da guerra contra o Irã, dizendo que até mesmo uma única morte “já é demais, mas são 18”. Na quarta, ele acompanhou a chegada dos corpos dos quatro militares à Base Aérea de Dover, no estado de Delaware, chamando-os de “grandes heróis”.
— Todos eles disseram, com muita convicção, que não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear, então vamos homenageá-los — afirmou Trump aos jornalistas antes de partir para a cerimônia de traslado solene dos corpos e, mais tarde, levar a família enlutada de um dos soldados para seu comício político na Geórgia.
Peter Feaver, professor de ciência política da Universidade Duke e especialista em assuntos militares, afirmou que a perda de qualquer integrante das Forças Armadas é uma tragédia.
— É importante lembrar que cada um desses números representa uma história pessoal — disse.
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