Durante muito tempo, o número exibido pela balança foi tratado como uma espécie de régua para medir o corpo. Nos últimos anos, porém, outro índice ganhou espaço nas conversas sobre aparência: o percentual de gordura. Entre famosas, divulgar a redução desse número passou a aparecer ao lado de registros de treinos, músculos mais aparentes e abdômen definido, reforçando uma mudança no ideal estético feminino.
Virginia Fonseca usa eletrólitos no treino. O que há por trás da tendência?
Existe um percentual de gordura ideal para mulheres? O que o caso de Ana Castela mostra
Na última semana, Ana Castela chamou atenção ao revelar nas redes sociais que reduziu o percentual de gordura de 20,4% para 14,4%. Aos 22 anos, a cantora também vem mostrando uma transformação física marcada pelo ganho de definição. De acordo com seu treinador, foram cerca de 5 kg de massa magra adquiridos ao longo de aproximadamente um ano e meio de musculação.
A busca por um corpo mais definido também aparece na rotina compartilhada por outras famosas. Virginia Fonseca costuma publicar registros dos exercícios e, recentemente, mostrou o abdômen durante um treino e brincou ao se chamar de “trincadinha”. Jade Picon, por sua vez, mantém uma rotina intensa de atividades físicas. Em entrevista, seu personal trainer contou que ela trabalha a região abdominal diariamente e descreveu como objetivo um corpo “seco”, musculoso e com pouca gordura.
Mais do que casos isolados, os exemplos ajudam a mostrar uma transformação na estética que circula nas redes sociais. Se antes a imagem de um corpo magro era frequentemente associada ao ideal de beleza, agora a definição muscular ocupa parte desse espaço. Não se trata apenas de pesar menos: músculos aparentes e baixos índices de gordura passaram a funcionar como sinais visuais de um físico considerado desejável.
Nesse cenário, números que antes costumavam aparecer em avaliações físicas mais restritas também passaram a ser compartilhados publicamente. Mas até que ponto um percentual de gordura pode dizer, sozinho, se um corpo está saudável?
Para o médico Vagner Chiapetti, o principal cuidado está em transformar um dado individual em referência para outras mulheres.
“Não existe um percentual de gordura de uma celebridade que possa ser considerado meta para todas as mulheres. Duas pessoas podem apresentar o mesmo número e ter condições metabólicas, quantidade de massa muscular, alimentação e demandas completamente diferentes. Quando um resultado aparece nas redes sociais sem todo esse contexto, existe o risco de as pessoas começarem a perseguir um número sem saber se ele é adequado para o próprio organismo”, explica.
Quando a composição corporal substitui a balança
À primeira vista, trocar o peso pela composição corporal pode parecer uma mudança positiva. Afinal, a discussão passa a considerar também massa muscular, distribuição de gordura e outros aspectos do organismo. O problema aparece quando a lógica continua sendo a mesma: transformar um único número em medida de sucesso.
Um percentual mais baixo pode acabar associado à ideia de maior disciplina, enquanto músculos aparentes passam a ser interpretados como uma espécie de comprovação visual de saúde. Só que a gordura corporal também desempenha funções importantes no organismo e não deve ser tratada simplesmente como algo que precisa ser eliminado.
O nutrólogo Murillo Monteiro destaca que não há um índice capaz de funcionar como objetivo universal.
“Como referência prática para adultos, costuma-se considerar uma faixa aproximada de 10% a 20% para homens e de 18% a 28% para mulheres. Entretanto, esses valores podem variar conforme idade, condição clínica e método utilizado na avaliação”, afirma.
Isso significa que os 14,4% divulgados por Ana Castela, por exemplo, não devem ser automaticamente encarados como uma meta para outras mulheres. Além das diferenças individuais, o próprio significado do índice depende de outros aspectos da avaliação.
“Mais importante do que analisar isoladamente o percentual é observar a distribuição da gordura, especialmente na região abdominal e visceral, além da circunferência da cintura, da quantidade de massa muscular e dos indicadores metabólicos. Percentuais excessivamente baixos também podem causar prejuízos hormonais, reprodutivos, imunológicos e de desempenho”, pontua Murillo.
O corpo ‘seco’ é o novo corpo magro?
A mudança também revela uma transformação na maneira como a aparência feminina é apresentada. A busca pela magreza, que durante décadas ocupou lugar central no imaginário estético, divide espaço atualmente com outro modelo: um físico enxuto, musculoso e bastante definido.
Treinar e adotar uma alimentação equilibrada podem fazer parte de uma rotina voltada à saúde e ao bem-estar. A questão surge quando a preocupação com força, condicionamento e qualidade de vida dá lugar à necessidade de sustentar uma aparência de definição máxima o tempo todo.
Também é importante diferenciar perda de peso de redução de gordura. Processos muito restritivos podem levar à diminuição da massa muscular, o que não necessariamente representa uma melhora na composição corporal.
“O objetivo de um bom processo de emagrecimento não é apenas diminuir o número da balança, mas reduzir gordura preservando músculos, força e funcionalidade”, avalia Murillo.
Outro ponto de atenção é a própria forma de medir o percentual. Bioimpedância, dobras cutâneas e outros métodos podem chegar a resultados diferentes conforme a técnica utilizada e as condições da avaliação. Por isso, o dado precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo, e não como uma medida isolada do corpo.
As famosas que compartilham mudanças físicas nas redes sociais têm rotinas, objetivos e acompanhamentos próprios. Comemorar uma evolução, gostar de músculos aparentes ou buscar determinado resultado estético faz parte das escolhas de cada uma. O problema aparece quando essas experiências passam a ser vistas como parâmetro para definir qual seria o corpo ideal.
A pergunta “quanto você pesa?” pode ter perdido espaço nas conversas sobre aparência. Agora, outra começa a ganhar atenção: “qual é o seu percentual de gordura?”. O número mudou, mas a busca por um padrão corporal continua.
Percentual de gordura: por que esse número virou referência de beleza
Durante muito tempo, o número exibido pela balança foi tratado como uma espécie de régua para medir o corpo. Nos últimos anos, porém, outro índice ganhou espaço nas conversas sobre aparência: o percentual de gordura. Entre famosas, divulgar a redução desse número passou a aparecer ao lado de registros de treinos, músculos mais aparentes e […]