Jacob Tremblay foi a grande revelação da temporada de premiações de 2016. Ele encantou apresentadores de programas noturnos. Posou para fotos com Leonardo DiCaprio e Steven Spielberg. Ganhou um Critics Choice Award e fez um discurso de agradecimento impecável, conquistando a plateia completamente. Ele tinha 9 anos.
— Na maior parte do tempo, eu via apenas um mar de pernas — relembrou Tremblay, que estrelou “O quarto de Jack”.
Ele continuou estrelando filmes populares, como “Extraordinário”, e dublou o protagonista da animação da Pixar “Luca”, antes de assumir projetos mais discretos na adolescência enquanto atravessava a transição de criança prodígio para jovem adulto de estatura alta e esguia.
Jacob Tremblay e Brie Larson em ‘O Quarto de Jack’
Divulgação
Agora, Tremblay está prestes a completar 20 anos e retorna aos holofotes com um papel impossível de ignorar: o jovem Ted Kaczynski no filme da Netflix “Unabomber”, que estreia no próximo dia 25.
O filme alterna entre o período em que Kaczynski foi estudante na Universidade de Harvard, nos anos 1950 — quando participou de experimentos psicológicos extenuantes conduzidos por Henry Murray (interpretado por Russell Crowe) —, e a busca frenética do FBI para encontrá-lo em 1996, após ele ter matado três pessoas e ferido outras 23.
No lugar certo
Em uma chamada de vídeo em agosto, Tremblay falou de sua casa em Langley, na Colúmbia Britânica, no Canadá. Ele incorporou o idealismo e a “curiosidade de olhos atentos” necessários para interpretar o jovem Kaczynski, disse o diretor Janus Metz, que escalou Tremblay para o papel após uma única conversa com o ator e disse que “nunca pensou em mais ninguém” para interpretar o personagem, que mostra o futuro Unabomber ficando cada vez mais frustrado com quem detém o poder, até que, por fim, começa a perder o controle.
Seu colega de elenco também se mostrou fã.
— Jacob simplesmente encontrava maneiras de demonstrar vulnerabilidade sem parecer fraco — disse Crowe por e-mail. — Ele conseguia transitar entre o menino que era e o homem que viria a surgir. Foi impressionante.
Jacob Tremblay
Alana Paterson/The New York Times
Embora Tremblay soubesse que “o Unabomber é, obviamente, alguém terrível”, ele conseguia se identificar com Kaczynski quando este era apenas um garoto — que entrou em Harvard com apenas 16 anos — e precisava provar seu valor em um ambiente de adultos.
— É difícil criar empatia por algumas pessoas, mas a situação muda quando se trata de uma criança — disse Tremblay. — É diferente quando você consegue olhar para a situação e pensar: “Certo, o que poderia ter sido feito para evitar que isso acontecesse?”
Tremblay não vê sua própria infância como um exemplo de advertência. Aos 5 anos, sua imaginação fértil e o desejo de ser como sua irmã mais velha, Emma — cujos créditos no cinema incluem “Elysium” e “O doador de memórias” — fizeram seus pais levá-lo para testes de atuação. Logo conseguiu papéis em comerciais e no filme “Os Smurfs 2”. (Sua irmã mais nova, Erica, também é atriz.)
Depois de enviar um vídeo de teste para “O Quarto de Jack” aos 7 anos, Tremblay e sua família viajaram para Los Angeles para se encontrar com o diretor Lenny Abrahamson. O cineasta havia analisado centenas de jovens atores para o papel de Jack, filho de uma mulher (interpretada por Brie Larson, que ganhou um Oscar pelo papel) que fora sequestrada e mantida em cativeiro em um galpão durante anos.
Ao conhecer Tremblay, Abrahamson disse que soube imediatamente ter encontrado “a agulha no palheiro”: uma criança desenvolta que, ao mesmo tempo, conseguia entregar uma atuação realista e sem excessos de sentimentalismo.
— Não haveria filme sem o Jake — disse Abrahamson. — Não havia mais ninguém que chegasse perto de conseguir interpretar aquele papel.
Tremblay não entendia muito sobre a temática do filme (classificado para maiores de 17 anos), já que seu personagem também permanecia, em grande parte, alheio aos horrores ao seu redor. Ainda assim, uma cena mostrava Jack emocionado ao ver a mãe ser levada às pressas para o hospital após uma tentativa de suicídio.
Abrahamson estava preparado para oferecer um bastão de lágrimas ao jovem ator. Em vez disso, “Jake chorou de verdade”, como disse Abrahamson:
— Ao fim da tomada, você poderia pensar: “Será que ele vai ficar bem? Será que está abalado?” Mas ele estava comemorando e pulando, porque dizia: “Consegui! Eu consegui!”
Faz de conta
Tremblay, que nunca teve aulas de atuação, disse que imaginava sua própria mãe naquela situação difícil, mas sempre entendia que era apenas faz de conta. E, no geral, ele afirma categoricamente que a intensidade de suas primeiras experiências na indústria não prejudicou sua infância.
— Não acho que isso tenha sido prejudicial para mim em algum momento — disse ele. — Pelo contrário: desde cedo, isso me ensinou a ser realmente empático no mundo real e a estar em sintonia com meus sentimentos.
Em um momento em que as dificuldades enfrentadas por ex-atores mirins e a ética do trabalho infantil na atuação estão em evidência, Tremblay sabe que nem todas as experiências são tão positivas como as dele. Ele atribui o mérito aos pais, que, segundo ele, fizeram questão de que ele encarasse a carreira como um passatempo divertido e que, até hoje, nunca pediram nada em troca:
— Foram realmente meus pais. E minha equipe também. Meu empresário e meu agente sempre cuidaram muito bem de mim; eles conheciam os ambientes e sabiam onde eu deveria ou não estar a todo momento. Eles realmente garantiram minha segurança.
Também pode ter ajudado o fato de que, à medida que a carreira de Jacob decolava, ele e a família continuaram morando no Canadá. O pai de Jacob, Jason, é policial em Vancouver, e sua mãe, Christina, dedica-se ao lar.
Os pais se revezavam para acompanhar os filhos aos sets de filmagem e, sempre que Jacob não estava viajando para gravar um filme e tendo aulas particulares, ele frequentava uma escola no Canadá.
— Eu conseguia viver algo como Hannah Montana, o melhor dos dois mundos — disse Tremblay.
Apenas um cara comum
Às vezes, esses mundos se cruzavam. Depois de ler o livro “Extraordinário” na escola, a turma fez um passeio para assistir à adaptação cinematográfica de 2017, estrelada por Tremblay no papel de um menino com diferenças faciais. Mas os colegas de classe, em geral, não se deixavam impressionar pela fama dele:
— Acho que, quando as pessoas me conheciam, percebiam que eu sou apenas um cara comum.
Nas horas vagas, Tremblay é um entusiasta de trilhas e gosta de montar computadores do zero. Em vez de cursar a faculdade, está atualmente mais focado em diversificar seus papéis e ampliar sua versatilidade como ator. Ele cita Leonardo DiCaprio e Christian Bale como inspirações para sua carreira.
— É um rapaz que se entrega de verdade, que busca autenticidade e veracidade em suas atuações — disse Metz sobre Tremblay. — Não o vejo deslumbrado com o sucesso que alcançou como ator mirim. Acho que ele tem plena consciência de que precisa elevar o nível do seu trabalho.
Tremblay tem um objetivo específico em mente:
— Fui ao Oscar por “O Quarto de Jack”. Foi incrível. Não voltei desde então. Estou ansioso para ver se consigo estar lá novamente.
Astro mirim de 'O quarto de Jack', Jacob Tremblay mostra nova face em 'Unabomber', sobre criminoso caçado pelo FBI
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