A taxa de desemprego nunca foi tão baixa no Brasil, ficou 5,6% no terceiro trimestre, mostram os dados da Pnad do terceiro trimestre divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE. No entanto, o número nacional ofusca o contraste da realidade do mercado de trabalho do país. Enquanto os pernambucos enfrentam uma taxa de desemprego alta, de dois dígitos (10%) e os baianos, de 8,5%, os moradores de Espírito Santo, Rondônia, Santa Catarina e Mato Grosso vivem o pleno emprego, com uma desocupação entre 2,3% e 2,6%. As diferenças regionais sempre existiram, mas que os dados mostram agora é que estados do Norte e Nordeste não conseguiram se beneficiar na mesma proporção do aquecimento do mercado de trabalho quanto os de Sul, Sudeste e Cento-Oeste, de forma a reduzir esse gap. Os números do terceiro trimestre indicam ainda que agora que se vê um início do arrefecimento esses estados, que têm um mercado de trabalho menos dinâmico, serão os primeiros a sentir o impacto.
– Os estados do Norte e Nordeste demostraram um fôlego mais curto para responder ao aquecimento do mercado de trabalho. Nos últimos trimestres vimos uma melhora. Mas os do terceiro trimestre indicam uma perda de fôlego, com estabilidade no indicador, e patamares relativamente elevados de desemprego em algumas unidades da federação – avalia Vitor Hugo Miro, pesquisador associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, da FGV Ibre.
Janaina Feijó, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV Ibre explica que que há um conjunto de fatores que influenciam esse desempenho, relacionados ao contexto regional, à estrutura produtiva, até questões políticas, que levam os estados do Norte e Nordeste a terem uma dificuldade maior de geração de emprego.
– São regiões menos dinâmicas, com uma menor quantidade de empresas. No Sul e Sudeste, os mercados estão mais interligados, existe menos fricção, há uma infraestrutura, melhor conectividade, questões relacionadas à logística, fluxo de capital. E também tem a questão do capital humano. Se o trabalhador não tem uma formação compatível com o que o mercado está demandando, pode gerar esse desemprego friccional. O nível de escolaridade, ele influencia a taxa de informalidade e influencia também o nível da taxa de desemprego.
Há esforços na região para superar o déficit educacional, especialmente no ensino fundamental, diz Miro, ressaltando exemplo da cidade de Sobral que vem sendo replicado por vários municípios nordestinos. No entanto, ainda há um gargalo, ressalta, no ensino médio. A questão da falta de capacitação e de dinamismo da economia se retroalimentam. Para mudar essa realidade e aproximar as estatísticas dos estados brasileiros em relação ao mercado de trabalho, pontua Miro, não se poderá prescindir do poder público e de medidas consistentes de médio e longo prazo.
– Atualmente temos dificuldade de manter inclusive a mão de obra mais qualificada, que ao avançar na carreira é transferida para postos das empresas em outras regiões do país – pontua.
As diferenças entre os estados ficam ainda mais gritante quando se olha por dentro os indicadores do mercado de trabalho. No dado que mede a subutilização, por exemplo, a média brasileira é de 13,9%, mas nos extremos estão Piauí, com a maior taxa (29,1%) Sergipe (26,5%) e Bahia (26,2%) e no outro Santa Catarina (4,4%), Mato Grosso (6,0%) e Espírito Santo (6,1%).
Quando se fala da população trabalhando por conta própria os estados do Norte e do Nordeste mais uma vez apresentam taxas acima da média nacional que foi de 25,3%. No Maranhão, estado com maior taxa, o trabalho por conta própria representa mais de um terço da ocupação (33,1%), no Pará e no Amapá é semelhante: respectivamente 29,9% e 29,1%. Os menores percentuais foram encontradas no Distrito Federal (17,5%), Acre (19,3%) e Goiás (21,5%).

