A banda The Who iniciou, no último dia 16, sua turnê de despedida pela América do Norte. Pete Townshend, de 80 anos, e Roger Daltrey, de 81, formaram o grupo com Keith Moon e John Entwistle, que morreram em 1978 e 2002. A banda lançou apenas dois álbuns nos últimos 40 anos. Mas, ao longo dos anos 1960 e 70, o The Who tratava o rock tanto como uma forma de arte quanto como uma cerimônia comunitária catártica, expandindo os limites de quanto a música pode ser reflexiva e expansiva.
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As canções cinematográficas da banda deram até mesmo origem a um musical da Broadway (“Tommy”) e a um filme (“Quadrophenia”). O rugido ultramasculino de Daltrey dava corpo e vigor às palavras de Townshend e, em conjunto, os dois criavam uma fonte incontrolável de energia que podia explodir em volume ou caos.
Em duas entrevistas, feitas em separado, fica clara a diferença entre Townshend e Daltrey, uma dupla peculiar que trata suas diferenças de forma aberta, até mesmo barulhenta.
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O articulado Townshend deu uma entrevista em vídeo a partir de seu estúdio no Vale of White Horse, a 112 quilômetros de Londres. Ele foi filosófico e digressivo ao refletir sobre a carreira do The Who. Daltrey, por outro lado, foi conciso e brincalhão, um homem de certezas em vez de perguntas, enquanto falava da Flórida.
— Acabei de sair da cama e estou tomando café da manhã — anunciou.
Abaixo, trechos editados das conversas.
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A primeira turnê de despedida do The Who foi em 1982, e houve outros shows “finais” desde então. Por que alguém deveria acreditar em vocês desta vez?
Você está insinuando que enganamos o público? (risos) A verdade é que estamos dispostos a enganá-los. Foi o que fizemos a vida toda. Por que parar? A turnê de 1982 foi um erro. Eu estava em péssimo estado, com problemas familiares, e precisava de um ano sabático. Escrevi para as revistas de música e disse: “Vou parar de trabalhar com o The Who.” Já tínhamos uma turnê marcada e, quando começou, percebi que estava sendo anunciada como a turnê final. Eu deveria ter me oposto, mas não me opus. Eu não me sentia capaz de compor grandes músicas para o The Who. Eu não sabia mais quem éramos. Agora, se Roger e eu vamos trabalhar juntos no futuro, espero que sim. Se ele não quiser fazer um álbum do The Who, eu adoraria compor músicas para ele em um projeto solo.
Era uma piada, em parte, mas você acha que a música pop é uma farsa?
Quando escrevi o primeiro hit do The Who, “I can’t explain’, um grupo de cinco garotos e uma garota no Goldhawk Social Club, onde costumávamos nos apresentar, disse: “É isso mesmo — não temos as palavras. Não conseguimos explicar. Queremos que vocês escrevam mais músicas como essa.” E percebi que tinha recebido uma tarefa fantástica, que era falar por esse público. Curiosamente, essa proporção de cinco garotos para uma garota foi o que o The Who obteve em seu público. Tocamos principalmente para homens jovens, depois para homens gordos e mais velhos — homens gordos e carecas! Deus nos abençoe. Aquelas primeiras músicas do The Who, como “My generation” e “Pictures of Lily”, tinham como objetivo dar ao nosso público a sensação de que não estavam sozinhos. Então, para mim, o rock foi extremamente importante. A farsa começa quando você se torna propriedade e não pertence mais aos seus fãs. Você pertence a gravadoras, a promotores, a empresários. O público te idolatra pelo que você fez anos atrás. Eles não estão interessados em nada novo. Para Roger e para mim, é difícil fazer qualquer coisa além de nos sentirmos como uma banda cover do The Who.
O que o Roger trouxe para o The Who que você não conseguiria se cantasse sozinho?
Ele passou por fases, não é? No começo, ele só rosnava. Aí “Tommy” apareceu e de repente ele estava cantando como um menino de coro. Goste ou não da voz dele, ele é um grande dramaturgo.
Parece que a turnê de despedida pode ganhar mais datas, se você e Roger estiverem bem de saúde.
Vou ficar bem. Passei por um período de muita depressão. E, quando fiz a cirurgia no joelho, no início deste ano, voltei a tomar analgésicos. É assim que astros do rock morrem. Eu sofri um vício severo em álcool por muitos anos, depois em narcóticos. Estava limpo há mais de 30 anos. Liguei para um amigo próximo que trabalha em uma clínica de recuperação na Espanha e ele me ajudou a entender. Estou me sentindo muito bem no momento. Agora está nas mãos do Roger. Se não renovarmos, estaríamos violando o contrato? Tenho 80 anos, não gosto de ficar longe da minha família, dos meus estúdios, dos meus cachorros e dos meus amigos. Não quero passar os próximos cinco anos da minha vida esperando (palavrão) cair morto no palco. O fim da turnê pode dar a Roger e a mim permissão para nunca mais ligarmos um para o outro. Espero que isso não aconteça.
Quer dizer que você e o Roger são colegas de banda e parceiros de negócios, e, quando o The Who acabar, vocês vão descobrir se também são amigos ou não?
É isso que estou dizendo. Se pararmos, a marca The Who continuará. Seremos avatares em um show de hologramas onde guitarras são quebradas e as pessoas se vestem com jaquetas Union Jack e fingem ser deuses do rock.
Roger Daltrey: ‘Não vamos desistir como banda’
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Tenho um pequeno problema no manguito rotador do ombro, de tanto balançar o microfone, mas os vocais estão melhores do que nunca. É só isso que me importa.
Você mudou a forma como faz turnês para se adaptar à sua idade e condição?
Isso parece uma consulta médica (risos). Tenho um dia de folga depois de cada show. Estamos nos despedindo porque fazer turnês é desgastante para o corpo. Além disso, os preços dos ingressos estão ridiculamente altos. Não vamos desistir como banda. Podemos fazer algumas residências. Espero que Pete e eu não paremos de fazer música.
Ele disse que quer continuar compondo músicas para você.
Eu adoraria compor músicas com Pete. Eu queria isso há muito tempo. Por melhores que sejam as músicas dele, quem sabe o que poderia ter sido se tivéssemos colaborado?
Como ele reagiu quando você mencionou sobre comporem juntos?
“Vá embora.” Ele queria manter essa função para si mesmo.
Você quer fazer outro álbum do Who?
Não, não teria nada a ganhar, a menos que eu coescrevesse as músicas com o Pete. Nosso último álbum, “Who”, me custou dinheiro para fazer. Quando paguei a gasolina e tudo mais, perdi dinheiro.
Além do The Who, você e Pete têm algo em comum?
Pete vive uma vida totalmente diferente da minha. Ele curte passeios de barco e é um velejador muito sério. Ficou com todo o dinheiro das editoras por anos. Eu ganhava a vida em turnês e, quando não fazíamos turnês, eu tinha que arrumar trabalhos como ator para preencher as lacunas. Sou um fazendeiro caseiro, no meio da lama. Somos completamente diferentes.
A sua compreensão das músicas do The Who mudou ao longo dos anos?
Algumas, sim. Éramos uma banda de singles pop, tipo Herman’s Hermits, um pouco mais rude (risos). Mas os primeiros discos estavam à frente do seu tempo. “I’m a boy” é sobre uma mulher que teve quadrigêmeos e queria quatro do mesmo sexo, mas um era menino e ela se recusava a acreditar. Isso foi em 1965. Com as questões transgênero de hoje, o álbum estava muito à frente do seu tempo.
O The Who é notoriamente mais barulhento do que outras bandas de rock. Será que foi isso que causou sua perda auditiva?
A maior parte dos danos à minha audição veio do trabalho com chapas metálicas, não do The Who. Eu soldava protetores de cinto em uma fábrica por oito horas por dia, sem protetores auriculares. Mas lembro daqueles dias como alguns dos mais felizes da minha vida. As pessoas eram duronas como botas velhas, mas havia muita humanidade naquilo.
As bandas de rock deixam um legado quando se aposentam?
Não. É só uma bandinha de rock boba. Você acha que um show é importante para o planeta? Ora, ora…
Um show pode ser uma bobagem, mas também pode inspirar as pessoas, não é?
Espero que sim, mas não cabe a nós pensar nisso. O que o The Who significará no futuro, eu não sei. Não sou mágico.