A COP30 foi para os acréscimos: até o fechamento da coluna, os textos finais ainda não haviam sido publicados. Nenhuma novidade, já que a prorrogação tende a ser regra nas conferências do clima. Apenas Milão, em 2003, acabou no horário. Outras 26 COPs terminaram com atraso — com o título indo para a conferência de Madri, em 2019, finda 44 horas depois do planejado. O atraso na edição atual se deve, sobretudo, à tentativa de incluir um roteiro para o fim gradual dos combustíveis fósseis nos textos — missão hercúlea quando se tem em conta que nada na COP é decidido sem consentimento geral (em outras palavras, sem a aprovação de países que vivem do petróleo, como a Arábia Saudita).
Uma notícia boa é que o tema, ao menos, está circulando entre os delegados. “Das COPs de que eu participei, que foram todas, Belém foi aquela em que mais vi gente falando do assunto”, disse a ambientalista Jennifer Morgan, sumidade no campo da política climática. O momentum levou a Colômbia a anunciar a criação de uma espécie de COP paralela só para o tema de fósseis, agendada para abril do próximo ano, com a presença esperada de 80 países favoráveis à pauta.
A participação direta de Lula na COP pode ter gerado um estranhamento entre diplomatas, mas deixou o Brasil com uma carta na manga. Caso os textos finais não mencionem os combustíveis fósseis, o país perderá, mas perderá ganhando, deixando a impressão de ter feito tudo o que estava ao seu alcance. Petróleo, carvão e gás são os principais vetores do aquecimento global, respondendo por 80% das emissões humanas de gás carbônico. Sem uma diminuição drástica, não há floresta ou política de adaptação que resolva.
Bola fora: treta transmitida
Na manhã de sexta, depois das reações furiosas de alguns países ao texto do “Mutirão” publicado na madrugada, a presidência da COP convocou uma sessão de debate dos documentos. O encontro seria aberto, mas a presidência achou melhor limitar a participação apenas aos negociadores. Só se esqueceu de avisar os técnicos da ONU, que transmitiram por uma boa meia hora a briga entre os países.
União Europeia joga sujo pelo empate
Nem final de Libertadores tem jogo tão pesado. Ontem, depois de duas semanas parada no campo, a União Europeia resolveu defender a inclusão dos combustíveis fósseis nos textos finais. E por quê? Porque os países em desenvolvimento — grupo que inclui produtores de petróleo, como a Arábia Saudita e o Brasil — vinham pressionando a Europa por mais financiamento para as políticas de adaptação aos efeitos da mudança do clima. Ou seja: o petróleo era uma barganha para forçar os países a abandonar suas reivindicações.
COP de dois times: Turquia e Austrália dividirão a próxima edição
Quando a COP30 teve início, era dado como certo que a COP31 ocorreria na Austrália. Pois a COP termina com o anúncio de que a próxima edição será na Turquia. Num estranho acordo internacional, a presidência da conferência ficará com os turcos, mas a “presidência de negociações” — a quem de fato caberá mediar os acordos — estará a cargo dos australianos. Em suma: a Turquia entra com o estádio, e a Austrália treina o time.
O jogo duplo de Lula com o petróleo
Casa de ferreiro, espeto de pau; façam o que eu digo, não façam o que eu faço. Não faltam ditados para descrever a diferença entre o Lula da COP e o Lula real. Enquanto o Lula da COP defendia em Belém o fim da exploração de combustíveis fósseis, o governo do Lula real anunciava a inclusão de mais 275 blocos na oferta permanente de licitações da ANP, a Agência Nacional de Petróleo. A oferta agora conta com um total de 451 blocos de petróleo.

