Agentes da Polícia Federal cumpriram um mandado de busca e apreensão, neste domingo, num endereço no Ceará em meio às investigações sobre a antecipação de questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025. A corporação deflagrou nesta manhã a Operação Profeta para apurar possível prática do crime de fraude em certame de interesse público.
- Um processo ‘complexo, caro e, ainda assim, vulnerável’: vazamento de questões gera alerta sobre pré-testes do Enem
- ‘Prevenção e isonomia’: ministro da Educação afirma que Enem 2025 não será cancelado
A Justiça Federal autorizou a realização da ação, que, segundo a PF, tem como foco a suposta divulgação antecipada de conteúdo do Enem. Embora o nome do alvo das buscas não tenha sido divulgado oficialmente, a Operação Profeta foi deflagrada dias depois da repercussão da live de Edcley Teixeira, de Sobral (CE), na qual o estudante de Medicina antecipou questões quase idênticas às que caíram na prova deste ano.
Imagens divulgadas pela PF mostram um laptop e um celular envolvidos por sacos plásticos, ao lado de um caderno laranja do segundo dia do Enem 2025.
A live de Teixeira — realizada cinco dias antes do certame — levou o Ministério da Educação (MEC) a acionar a Polícia Federal (PF), anular três questões do teste e antecipar a divulgação do gabarito oficial. Em nota, a PF afirmou que a atuação visa a “esclarecer os fatos, apurar possíveis ilícitos, identificar os responsáveis pela obtenção dos dados e divulgação indevida, bem como possíveis conexões com outros delitos”.
“A investigação teve início após o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, vinculado ao Ministério da Educação, detectar a publicação de vídeo em plataforma digital contendo questões com similaridade substancial àquelas aplicadas na prova oficial. O conteúdo foi divulgado antes da data prevista para o exame”, ressaltou a PF.
Em seu perfil nas redes sociais, Edcley Teixeira afirmou que participa dos pré-testes realizados pelo Inep, instituto do ministério responsável pela aplicação do exame, e que consegue lembrar de detalhes das perguntas. Com isso, ele vende aulas on-line como curso preparatório.
Em nota, divulgada no começo da semana passada, o MEC informou que a PF foi acionada para apurar a conduta e a autoria na divulgação das questões e que a equipe técnica que faz parte da comissão responsável pela elaboração do exame analisou as circunstâncias e decidiu, com base em informações sobre a montagem do teste, pela anulação de três itens aplicados na prova. No entanto, há pelo menos duas outras perguntas que foram trabalhadas por Teixeira na live com alguma similaridade com o que foi cobrado na avaliação.
“Nenhuma questão foi apresentada tal qual na edição de 2025 do exame. Na divulgação observada nas redes sociais, foram identificadas similaridades pontuais entre os itens”, disse a nota.
A live foi transmitida pelo YouTube. Segundo a plataforma, ela foi realizada no dia 11 de novembro de 2025 no canal de Teixeira. No item 34, ele apresenta uma questão de Biologia sobre espécies que evoluem e se mantêm restritas a alguns ambientes específicos. A prova do Enem deste ano apresentou uma pergunta sobre o mesmo tema com o enunciado diferente do que foi usado por Teixeira, mas com quatro das cinco alternativas idênticas às do professor — inclusive a resposta correta.
Nas publicações, ele ainda listou as perguntas que utilizou com seus alunos antes da prova. Uma delas, sobre ruído sonoro, reproduz todas as alternativas idênticas, a mesma função logarítmica e também todos os valores envolvidos na questão.
À TV Globo, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que 40 mil pessoas tiveram acesso à live.
— Acionamos a Polícia Federal porque as pessoas que fazem esse pré-teste não podem (divulgar), por questão de confidencialidade, e para tomar todas as medidas cabíveis em relação a isso — disse.
Nesta sexta-feira, Santana ressaltou que o Enem 2025 não vai ser cancelado. Segundo o ministro, a comissão do Inep tomou a “decisão técnica” de anular três itens com o objetivo de “prevenção e isonomia, para não prejudicar nenhum aluno”. Ele frisou que a suposta antecipação de questões é “um caso de polícia”.
— A Polícia Federal já foi acionada e tomará todas as providências com o rigor da lei em relação a esse caso. Eu quero aqui tranquilizar e dizer que o Enem continua, os dois gabaritos já foram divulgados e o resultado será divulgado em janeiro do próximo ano — informou.
Em suas postagens, Teixeira afirma que também teve acesso a questões do Enem de 2023 e de 2024 antes da prova e que trabalhou esses itens em seu curso preparatório. O GLOBO procurou o jovem, que não respondeu aos contatos da reportagem. Pelas redes sociais, ele afirmou estar tranquilo, que não fez nada de errado e que recebeu milhares de contatos de interessados em sua mentoria para o teste após a divulgação do caso.
Antes da aplicação do Enem, o MEC testa as questões em diferentes avaliações nacionais para medir a qualidade das perguntas e seus níveis de dificuldade — o que se torna ainda mais necessário pelo modelo de correção adotado, a chamada Teoria de Resposta ao Item (TRI), que confere pontuações de acordo com o grau de complexidade. Esses são os pré-testes, dos quais Teixeira diz participar.
Em 2022, o universitário publicou um vídeo “denunciando” o uso de pré-testes do Enem para ter acesso a questões que seriam cobradas no exame — exatamente a estratégia que ele passou a adotar a partir do ano seguinte. Na ocasião, ele abriu a gravação dizendo que explicaria “como os grandes cursinhos, que não posso citar nomes, hackeiam o Enem” e classificou a prática como “vazamento”.
Teixeira lembrava no vídeo de 2022 que o Banco Nacional de Itens, um repositório de questões do Inep, estava sofrendo com a falta de questões — uma informação revelada pelo GLOBO no final de 2021. Por isso, o MEC precisava pré-testar as perguntas no mesmo ano em que elas acabavam utilizadas pela prova do Enem. Assim, era possível conhecer o conteúdo e trabalhá-lo já para a edição seguinte do exame.
— Os cursinhos estão atentos (…). Muitos usam seus alunos para fazer essas provas e decorar as questões. Sabe-se que muitas são descartadas, mas outras acabam na prova — afirmou ele na gravação. — Isso fragiliza o Enem. Os itens deveriam ser testados com anos de diferença para a prova.
No ano seguinte, no entanto, ele passou a tratar a situação de outra forma. Em material que disponibilizou em 2023 chamado “Essas questões estarão no Enem 2023”, Teixeira sustenta que teve “a colaboração de cinco amigos” e conseguiu se lembrar “de 90 questões”.
“É importante ressaltar que todas as questões são criações originais de Edcley de Souza Teixeira, embora tenham sido inspiradas em questões reais do pré-teste. Dessa forma, não há qualquer risco jurídico envolvido, uma vez que a inspiração nas questões do pré-teste não implica em cópia ou plágio, e o Inep não possui poder de censurar a memória de um estudante”, argumentava ele no documento.
Teixeira é aluno de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Em seus perfis, ele tenta construir a imagem de alguém capaz de antecipar o estilo e até o conteúdo das perguntas do exame. Neste ano, chegou a receber R$ 5 mil do MEC pelo desempenho na prova do Prêmio Capes Talento Universitário — a mesma que ele mencionava no vídeo de 2022.
As próprias redes sociais do ministério publicaram, há cinco meses, um vídeo de Teixeira dizendo que usaria o prêmio para investir em ferramentas essenciais para o seu curso de Medicina. “É um reconhecimento que dá um gás incrível para continuarmos nos dedicando”, diz o estudante na filmagem. A pasta, no entanto, apagou as publicações de todas as redes depois da repercussão do caso.

