Um piloto gravemente ferido, um encanador que assumiu por alguns instantes os controles de uma aeronave e um dentista que prestou os primeiros socorros e ajudou a imobilizar o agressor estão entre os personagens que ajudaram a salvar as 174 pessoas a bordo do voo da FlyDubai que seguia de Dubai para Tel Aviv na manhã de quarta-feira.
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O incidente começou quando um dos pilotos, um cidadão de Omã, esfaqueou o colega Smit Machchhar e, em uma aparente tentativa de derrubar o avião, fez o jato despencar quase 4,3 mil metros em 30 segundos. Mesmo ferido, Machchhar conseguiu destravar a porta da cabine, permitindo a entrada de passageiros e tripulantes que dominaram o agressor. Outros pilotos que estavam fora de serviço estabilizaram a aeronave, que pousou em segurança na Arábia Saudita.
Smit Machchhar, o piloto
Natural de Mumbai, na Índia, Smit Machchhar estava caído no chão da cabine, coberto de sangue após ser esfaqueado pelo outro piloto, quando conseguiu acionar o mecanismo que destravou a porta. A ação, que permitiu que passageiros e tripulantes entrassem na cabine de comando e dominassem o agressor, fez também com que mais tarde o indiano fosse aclamado como herói pelo premier da Índia, Narendra Modi.
“Diante do mais grave dos perigos e apesar de estar seriamente ferido, ele demonstrou imensa coragem e uma determinação inabalável para proteger a vida de outras pessoas. Sua bravura ajudou a salvar centenas de vidas e a evitar uma grande tragédia”, escreveu Modi. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também se mostrou impressionado, declarando que, apesar de ter sido “esfaqueado e gravemente ferido”, o piloto “reagiu e resistiu”.
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ISRAEL’S FOREIGN MINISTRY/AFP
Machchhar passou por uma cirurgia na Arábia Saudita e está em condição estável, segundo autoridades indianas, que mantiveram contato com sua esposa e seus dois filhos, de 7 e 2 anos. Seus pais ainda vivem na comunidade de Mumbai onde ele nasceu, e vizinhos o descreveram como uma pessoa alegre, gentil e ativa na comunidade.
O piloto treinou durante 18 meses, entre 2008 e 2009, na Mainland Air, na Nova Zelândia. Em um podcast no ano passado, contou que não planejava inicialmente seguir carreira na aviação. Ele havia se preparado para trabalhar no negócio têxtil da família, mas mudou de planos depois de participar de um seminário sobre aviação aos 19 anos.
— Foi ali que, de certa forma, fui picado pelo bichinho da aviação — contou ele, que nunca havia saído da Índia antes de fazer seu primeiro voo comercial como piloto em treinamento, destacando que sua mãe tinha muito medo de que ele seguisse a profissão, mas que o treinamento lida com “todos os cenários”. — Quando estamos lá em cima e alguma coisa acontece, você sabe quem vai salvar você.
Yaniv Hayoun, o encanador
Citado por Netanyahu como um encanador, Yaniv Hayoun estava entre os passageiros que conseguiram entrar na cabine de comando para enfrentar o agressor. Ele relatou que a situação era dificultada pelo fato de Machchhar estar gravemente ferido e caído do outro lado da porta. Ainda assim, disse ele, enquanto outros ocupantes do avião lutavam para dominar o agressor, Hayoun chegou a assumir os controles da aeronave.
— Eu pulei para trás, agarrei os controles e comecei a puxar as alavancas — relatou ao premier israelense, destacando que tentou reproduzir aquilo que havia visto em programas de televisão.
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Outros tripulantes assumiram os controles em seguida. Segundo o passageiro Almog Itali, havia a bordo dois pilotos de reserva que deveriam operar o voo seguinte. Um deles entrou na cabine, puxou o manche e estabilizou o avião antes do pouso na Arábia Saudita. Mais tarde, especialistas em aviação manifestaram surpresa pelo fato de o avião não ter caído mesmo depois de uma descida tão rápida. Um passageiro descreveu o momento do mergulho como algo semelhante a “uma turbulência enorme” que durou “de 20 a 30 segundos”.
— Foi uma descida grave, e houve forças aerodinâmicas muito intensas sobre aquele leme para que isso acontecesse. Estou impressionado que a aeronave não tenha se despedaçado — disse Steve Arroyo, ex-piloto da United Airlines e especialista em segurança da aviação, ao Guardian.
Shota Musaev, o dentista
O dentista israelense Shota Musaev também correu para a cabine de comando durante o ataque. À CNN americana, ele contou que, ao entrar no local, encontrou o agressor no chão, sobre Machchhar, esfaqueando o piloto. Musaev, que disse ser “o único médico a bordo”, então se concentrou em socorrer o ferido, temendo que ele não sobrevivesse.
— Ele estava coberto de cortes. Na cabeça, nas mãos… elas estavam praticamente abertas, quase cortadas ao meio. Ele havia perdido muito sangue e estava em péssimo estado — disse ele, acrescentando que a pressão arterial do piloto despencou. — Acho que, se tivéssemos esperado apenas mais alguns instantes, nós o teríamos perdido.
Além de prestar auxílio a Machchhar, Musaev disse ter participado da contenção do agressor. O dentista disse ter agido “por instinto” assim que ouviu gritos na cabine. Em relato à imprensa israelense, ele disse ter ajudado a imobilizar o agressor usando fios de fones de ouvido e abraçadeiras plásticas. Depois que o homem foi dominado, outros tripulantes conseguiram estabilizar a aeronave e conduzi-la em segurança até a Arábia Saudita.
— Se não tivéssemos feito isso, não estaríamos falando agora — disse. — Pensamos que íamos morrer, com certeza. O avião perdeu uma quantidade absurda de altitude em meio minuto. Vimos os pilotos e começamos a gritar: ‘Tragam os pilotos!’. Então, quando um deles entrou na cabine e assumiu o controle, entendemos que tínhamos sobrevivido.
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