Pilotos de moto que trabalham por comissão nos aplicativos Uber e 99 relataram à coluna que as empresas aumentaram os valores das corridas em até quatro vezes no dia em que o Rio enfrentou um colapso no setor de transporte e na segurança pública, nesta terça (28).
Um empresário da Zona Oeste e mototaxista nas horas vagas, presente em diversos grupos de mensagens com colegas de profissão, conta que centenas de pilotos se arriscaram por conta dos altos valores estipulados:
— Motoboys estavam rodando e os aplicativos aproveitaram a situação com taxas além do normal. Fizeram com que as pessoas fossem para a rua para trabalhar e fazer corridas.
Outros dois trabalhadores ouvidos pela coluna enviaram fotos de suas contas nos aplicativos e comentaram sobre os riscos. Victor Lima trabalhava quando um caminhão foi atravessado na via por onde passava. O veículo foi usado como barricada. Ele diz:
— A cidade ficou um caos; e as taxas, maiores. A gente conseguiu fazer mais dinheiro, mas se arriscou mais. Uma corrida que me pagaria R$ 10 reais num dia comum, ontem (terça) estava pagando R$ 45. É curioso porque os aplicativos só aumentaram o valor quando foi favorável a eles. Anos atrás, o valor era R$ 1,50 por quilômetro rodado. A taxa fixa, depois da diminuição do que costumamos ganhar, foi para R$ 0,80. Ontem subiu. A Central do Brasil estava com superlotação no metrô, a demanda fiocu maior para moto e eles aplicaram esse valor. Eu saí para trabalhar às 8h, parei para almoçar, retornei 13h mas não estava seguro. Ficou extremo, inviável — diz ele, que tem 26 anos e cuja companheira está grávida.
O piloto, que é morador de um bairro da Zona Norte do Rio, conta que nesta quarta (29) as ruas estão vazias.
— Está esse clima. Ninguém sabe o que fazer. Está todo mundo com medo. Ontem, conforme as coisas iam acontecendo, vinha mais medo. Amigos meus rodaram como se não estivesse acontecendo nada. Eu não consegui ir muito além da hora do almoço. Hoje, não sei como será — complementa.
Carlos Eduardo Silva, um piloto de 23 anos que mora em Saracuruna, diz que também se arriscou pela comissão, mas desistiu no início da noite:
— A corrida estava absurda. A de 42km estava mais de R$ 100, numa distância como da Barra para Nova Iguaçu, por exemplo, esse era o preço. Ontem, trabalhei de 14h às 19h. A rua estava uma solidão, estava escuro. Não tinha carro na rua. Eu fiz R$ 200 e fui para casa. Eu ainda me arrisquei muito. Mas desisti. Achei absurdo as empresas terem agido assim. No dia a dia, eles pagam um valor cachorro para gente. Quando as pessoas correm risco de morte, a ganância vem em primeiro lugar. Num dia comum, não toca corrida assim. Nunca vi. Trabalho com aplicativo há dois anos e meio. Muita gente consegue trabalhar, mas há uma manipulação absurda do trabalho dos pilotos — diz.

