A Casa Rosada pretende que esses recursos que os argentinos guardam em casa sejam injetados na economia, mas dados da Profit Consultores indicam que os depósitos em dólares aumentaram até agora apenas US$ 1,9 milhão, montante baixo considerando as estimativas de que os argentinos mantêm cerca de US$ 200 bilhões longe dos bancos.
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O que está freando os argentinos que guardam seus dólares em lugares que podem chegar a ser inusitados, como armários, cofres domésticos, vasos de plantas ou algum objeto de decoração que não desperte suspeitas?
Segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, a falta de clareza e garantias que oferece o plano de Milei e, em termos mais gerais, expectativas cada vez mais negativas sobre o futuro da economia argentina.
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Há pelo menos três meses, pesquisas de opinião pública indicam que a desaprovação do governo está acima de sua aprovação, e a imagem positiva de Milei começa a perder força, ainda que de forma não acelerada.
— Os dólares que entraram no sistema desde que foi anunciado o Plano Colchão ficaram depositados nos bancos — afirma o economista Amilcar Collante, a Profit Consultores.
Quando comunicou aos argentinos que impulsionaria a legalização de dólares nunca declarados, o presidente afirmou:
— Vocês não colocaram os dólares debaixo do colchão porque odeiam o país. Vocês colocaram os dólares debaixo do colchão porque do outro lado havia um conjunto de filhos da puta, delinquentes, que roubaram com o imposto inflacionário.
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Mas Milei, desde então, enfrentou vários problemas. Primeiro, segundo explica o economista Enrique Szewach, “o governo não conseguiu que o Congresso aprovasse uma lei para regulamentar o plano”.
Com uma bancada minoritária no Parlamento e a tensão crescente com a aproximação das eleições legislativas de setembro na província de Buenos Aires (onde vive um terço do eleitorado nacional) e de outubro no resto do país, o governo ficou com uma margem ainda mais estreita de manobra no Legislativo.
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Sem regras claras, os incentivos para tirar o dinheiro do colchão são menores, num país onde as pessoas não confiam no sistema bancário, mas têm verdadeiro pavor de se tornarem alvo de investigação das autoridades fiscais.
— A lei de perdão fiscal nunca passou, e as pessoas têm dúvidas, os bancos também — afirma Szewach.
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Segundo o economista, a falta de confiança da população é crescente, mas hoje o principal problema do governo é a dificuldade de comprar dólares e acumular reservas, o que dificulta cumprir uma das metas impostas pelo novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Isso explica a demora do organismo multilateral em aprovar a revisão do acordo, que aconteceu na semana passada, e enviar US$ 2 bilhões à Argentina. Isso, porém, não significa que não existam preocupações sobre a evolução da economia argentina.
O fato de os argentinos não estarem tirando os dólares debaixo do colchão é uma entre as várias luzes amarelas acesas hoje no país. Milei conseguiu reduzir de forma expressiva a inflação, mas a economia continua sem dar sinais fortes de reativação. O presidente argentino mantém um ajuste fortíssimo do gasto público, porém, os números de 2025 não são tão favoráveis como os de 2024.
— Este ano, o governo está tendo despesas maiores, e, se forem contabilizados os pagamentos da dívida, o país tem um déficit financeiro— explicou o economista.
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Até agora, o governo tem mantido seu compromisso com o ajuste fiscal, mas começaram a aparecer algumas dúvidas no horizonte. Nos primeiros cinco meses do ano, o superávit primário acumulado foi de cerca de 0,8% do PIB, e a projeção é fechar 2025 com superávit fiscal primário de aproximadamente 1,6% do PIB. Mas as pressões políticas decorrentes de uma eleição legislativa de meio do mandato essencial para Milei poderiam ter impacto direto no superávit deste ano.
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Outro fator que preocupa a sociedade e o governo é o aumento do desemprego. No primeiro trimestre do ano, a taxa atingiu 7,9%, o que representou um aumento em relação aos 6,4% do trimestre anterior, e aos 7,7% registrados em 2024.
Faltou o fluxo de dinheiro estrangeiro
Milei tampouco conseguiu, ainda, impulsionar uma chuva de investimentos estrangeiros no país, como se esperava. Fontes de organismos internacionais admitiram que o fluxo de capitais estrangeiros para a Argentina “não se materializou como era esperado”.
— A euforia (com Milei) não se converteu em tomada de risco. Todos acharam que a recuperação da Argentina seria mais rápida, mas o programa econômico ainda não deslanchou — admitiu a fonte.
Alguns elementos do programa de Milei como a valorização do peso frente ao dólar fizeram os argentinos gastarem mais fora do país do que dentro, levando a um “populismo cambial”, em palavras da mesma fonte. A conclusão é que o populismo fiscal do governo kirchnerista foi trocado por um novo populismo, que não ajuda a Argentina a retomar o crescimento.
Apesar dessas luzes amarelas, os organismos internacionais, enfatizou a fonte, continuam apoiando Milei por sua política de ajuste fiscal. Basicamente, é o que interessa ao FMI, e, nesse ponto, o presidente argentino é considerado um aluno exemplar.
Mas dentro de seu país existe, na opinião do analista político Carlos Fara, um “desgaste de expectativas”.
— A reativação da economia e do consumo foi freada pelas limitações salariais e, também, por questões políticas como a falta de sensibilidade social do governo, um estilo excessivamente combativo e de confrontação. Já vemos muitos eleitores de Milei arrependidos — confirma Fara, cujas medições apontam hoje desaprovação do governo acima de 50%. — Existe temor sobre o futuro, e, nesse clima, ninguém quer se desfazer de suas poupanças. Muitas pessoas estão cancelando seus planos de saúde, não pagam a fatura do cartão de crédito, vão menos a restaurantes. As expectativas, em geral, são baixas.