Após os Estados Unidos classificarem as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, o professor Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM/USP), avalia que a mudança na definição não deve impactar as investigações já em curso em cooperação com os americanos. De acordo com o especialista, apesar da imprevisibilidade do presidente Donald Trump, é possível explorar novas oportunidades enquanto país soberano em busca de combater as facções criminosas.
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— O governo Trump tem elementos de imprevisibilidade, e pode haver o uso eleitoral contra alvos específicos da política brasileira. Mas, sem a personalidade própria desse governo, como forma de cooperação Brasil-Estados Unidos, dá para ter uma visão que há algumas oportunidades que podemos explorar como país soberano. Principalmente na investigação de crimes de lavagem de dinheiro, porque eles tem ferramentas mais duras e ágeis que podem mudar o comportamento dos agentes criminosos aqui — avalia Piquet.
Do ponto de vista das fraudes econômicas, o especialista defende que há possibilidade de implementar novas estratégias para o bloqueio de ativos. Piquet lembrou das recentes ações policiais nesse sentido, como a Operação Carbono Oculto, que evidenciou “muita tranquilidade” das organizações criminosas em utilizar fintechs e fundos de investimentos para a ocultação de valores oriundos do crime.
— Essa mudança de classificação pode gerar um fluxo positivo de informação e estratégia de bloqueio de ativos. Isso é muito importante para sufocar o crime organizado. Todo mundo vai ter que prestar muita atenção, e o comportamento desses agentes tem que mudar. (As empresas) Vão ter que ir na Receita Federal e questionar: “está tudo bem com essa outra empresa para fechar esse contrato”? — completou.
‘Vamos entender o impacto, e não fechar a porta’
Piquet também ressalta que a política externa do Brasil é “muito eficiente”, o que explica a cautela na reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O professor destaca que o Ministério das Relações Exteriores possui capacidade institucional de diálogo para manter a colaboração funcionando:
— A reação do governo, até agora, é muito positiva. Não falou besteira nenhuma, não saiu condenando. Isso é a prova da nossa capacidade de entender a decisão soberana dos Estados Unidos. Se há impacto aqui, vamos entender esse impacto, e não vamos fechar a porta. Quando passar o Trump, essa cooperação vai continuar muito importante para nós — afirma.
Para o professor, os “novos níveis” de atuação irão se conectar com os mecanismos de investigação que já existem, embora exista o risco de um poder “mais pesado”, como a CIA, acabar “sufocando o que está embaixo”. Ele explica, ainda, ser uma característica dos norte-americanos a integração entre agências de diferentes esferas.
— A definição de “ameaça terrorista” para os americanos traz um pacote de sanções, novas instituições e governança diferente, mas isso não significa que vai parar o que está acontecendo e mudar a cooperação. É como se tivesse acrescentado um nível a mais nisso — diz Piquet. — Esse exagero polêmico de que vai mudar tudo, irá acalmar e depois tomar as reais dimensões.
‘Pretexto para intervenção é inaceitável’
O assessor para assuntos internacionais da Presidência, Celso Amorim, criticou, na noite desta quinta-feira, a decisão dos Estados Unidos de classificarem o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como terroristas, e afirmou que a “cooperação é bem-vinda, mas o pretexto para intervenção é inaceitável”:
“Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável””, afirmou Celso Amorim em nota.
A nota no qual o anúncio foi feito afirma que os grupos são “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”. O texto afirma que PCC e CV foram classificados como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs, na sigla em inglês). Eles devem ainda receber a classificação de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) partir de 5 de junho de 2026.
“Juntos, eles comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros. A sua influência e redes ilícitas estendem-se muito além das fronteiras do Brasil, através da nossa região e do nosso país”, diz o anúncio do Departamento de Estado.
A classificação FTOs, que deve começar a valer a partir de junho, é feita pelo secretário de Estado e diz respeito a grupos estrangeiros. A designação torna ilegal para “uma pessoa nos Estados Unidos ou sujeita à jurisdição dos Estados Unidos” fornecer “apoio material ou recursos” à organização. Instituições financeiras americanas que tomem conhecimento de gerirem fundos de interesse de uma FTO tornam-se obrigadas a “reter a posse ou o controle sobre os fundos e reportar os fundos ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA”.
Já a classificação de SDGT, que já está valendo para os dois grupos criminosos, foi instituída pelo ex-presidente americano George W. Bush em setembro de 2001, após os ataques da Al-Qaeda às Torres Gêmeas. A designação é administrada pelo Departamento de Estado e pelo Departamento do Tesouro dos EUA, tendo foco financeiro e podendo atingir indivíduos.

