A polícia israelense libertou o colono Yinon Levi, acusado de matar o ativista e jornalista palestino Awdah Hathaleen, enquanto a família da vítima ainda luta para recuperar o corpo para realizar o funeral. Hathaleen, que ajudou a produzir o documentário vencedor do Oscar No Other Land, foi morto a tiros na noite de segunda-feira, em meio a um confronto entre colonos e moradores da vila de Umm al-Khair, na Cisjordânia ocupada.
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Imagens feitas no local parecem mostrar Levi disparando de forma descontrolada antes de Hathaleen cair ao chão, a alguns metros de distância. Apesar da gravação, Levi foi libertado na terça-feira por decisão judicial e colocado em prisão domiciliar por três dias, medida que termina nesta sexta. Segundo o advogado do colono, o tribunal entendeu que havia indícios de legítima defesa.
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Levi, que chegou a ser alvo de sanções impostas pelo então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden (2021-2025), e depois removido da lista por Donald Trump, ainda pode enfrentar acusações. Apesar de sua libertação, a família de Hathaleen continua tentando recuperar o corpo do ativista junto à polícia israelense para poder realizar o funeral.
— É devastador. O corpo dele ainda está retido e o assassino está livre. A mãe e a esposa dele continuam perguntando onde ele está, quando o corpo vai voltar. Eu já não tenho respostas. Digo que em uma hora, duas horas, mas não sei — afirmou Salem Hathaleen, irmão mais velho de Awdah, citado pelo jornal britânico The Guardian.
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A polícia israelense impôs dez condições para liberar o corpo, incluindo limitar o funeral a 15 pessoas e enterrar o ativista fora de sua vila natal. Segundo um documento obtido pelo Guardian, as autoridades também exigiram que não houvesse cartazes “incitando violência” e proibiram o uso de sistema de som. Elas ainda solicitaram um depósito financeiro da família como garantia de que as regras seriam cumpridas. Os familiares se recusaram a assinar o documento.
— Quinze pessoas… isso basicamente significaria que metade dos irmãos e filhos dele não poderiam comparecer — disse Salem. — Tem um ditado aqui que diz que a dignidade dos mortos está no enterro. Quando alguém é morto, o enterro imediato traz um pequeno alívio ao coração. Mas, até agora, não recebemos nem o corpo nem o direito de fazer nada.
Na terça-feira, soldados israelenses invadiram a tenda montada para os enlutados em Umm al-Khair, declararam a área “zona militar fechada” e lançaram granadas de efeito moral contra ativistas e jornalistas presentes. O Exército israelense afirmou que as condições eram necessárias para “preservar a ordem pública”, enquanto o irmão de Awdah, Alaa Hathaleen, que presenciou o assassinato, criticou a ação:
— Ir ao lugar onde ele foi morto, de onde tiraram a vida dele, e expulsar as pessoas? Isso não é vida, isso vai contra qualquer lei do mundo.
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Mais de 70 mulheres da vila anunciaram greve de fome até que a polícia devolva o corpo do ativista. Ativistas e familiares disseram que o caso evidencia o que chamam de um “sistema de impunidade para colonos israelenses” em meio à onda de violência contra palestinos. Desde outubro de 2023, quando a guerra entre o Hamas e Israel teve início na Faixa de Gaza, ao menos 1.010 palestinos foram mortos e mais de 7 mil ficaram feridos na Cisjordânia por soldados e colonos israelenses.
O caso de Hathaleen, porém, provocou reação internacional. Na terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores da França pediu que o governo israelense responsabilize o autor dos disparos e classificou a violência de colonos como “terrorismo”. Na quinta, um novo ataque deixou outro morto na vila de Silwad, também na Cisjordânia, quando colonos incendiaram casas e carros. Khamis Abdel-Latif Ayad, de 40 anos, morreu asfixiado ao inalar fumaça dos incêndios.
Os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais segundo o direito internacional, mas o governo de direita em Tel Aviv vem acelerando sua expansão. Na quarta-feira, 29 veículos off-road, drones e equipamentos de vigilância foram entregues a colonos pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que classificou os assentamentos como “a ponta de lança do movimento sionista na Judeia e Samaria”.
Há duas semanas, a ONU fez um alerta para o crescente número de palestinos que foram forçados a saírem de suas casas na Cisjordânia, e afirmou que desde 1967, quando Israel ocupou o território, não se via uma situação tão grave como a atual. Além dos deslocamentos forçados, as Nações Unidas apontam para o aumento da violência contra civis, em atos atribuídos a militares e a colonos israelenses.
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Desde janeiro, quando Israel lançou a operação Muro de Ferro na Cisjordânia, cerca de 30 mil pessoas foram expulsas de casa, afirmou Thamim al-Khitan, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, acrescentando que “as forças israelenses dispararam munição real contra palestinos desarmados, incluindo aqueles que tentavam voltar para suas casas nos campos de refugiados.
“Em junho, a ONU registrou o maior número mensal de palestinos feridos em mais de duas décadas. No total, 96 palestinos foram feridos por colonos israelenses”, disse o porta-voz em comunicado. “Durante o primeiro semestre de 2025, houve 757 ataques de colonos que resultaram em vítimas palestinas ou danos materiais, um aumento de 13% em relação ao mesmo período de 2024.” (Com AFP)