O fim do conflito de 12 dias entre Israel e Irã foi anunciado em um post de rede social. Sem apresentar nenhuma cláusula, parágrafo ou alínea para demonstrar o que foi determinado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apenas afirmou, em uma mensagem de pouco mais de mil caracteres, que os países haviam concordado com um cessar-fogo — o que não foi imediatamente confirmado por nenhuma das partes envolvidas e causou surpresa entre assessores em Washington e Jerusalém, segundo fontes americanas e israelenses.
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O acordo verbal, construído em uma janela de poucas horas de intensos telefonemas entre Trump e o premier israelense, Benjamin Netanyahu, e diálogos de representantes do Catar com o Irã, oferece um vislumbre do funcionamento da diplomacia americana sob o governo do republicano, e de como ela vem espelhando aspectos da personalidade do presidente — incluindo a irritação, também exposta nas redes sociais, quando houve o risco de a medida fracassar.
— A ação muito individual e personalista de Trump acentuou a divisão interna nos EUA, e não se pode compreender a política externa americana sem considerar a divisão dentro do país — afirmou Rubens Barbosa, embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004 e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), em entrevista ao GLOBO. — O Partido Republicano hoje se transformou quase em um partido pessoal de Trump, onde ele dita a única linha. Isso influencia tanto a política interna quanto a política externa.
Uma repercussão do aumento da influência individual do presidente sobre os processos decisórios do governo — sobretudo em matéria de Relações Exteriores, em que as decisões costumam ser tomadas com o auxílio de uma burocracia altamente especializada — é a perda da confiança por parte de países e mercados, que tomam o comportamento dos EUA como imprevisível, segundo a análise do diplomata de carreira.
— Você não tem uma linha política, você tem a vontade de uma pessoa, que muda. Quantas vezes a interpretação dele [Trump] mudou sobre um fato, tanto na questão tarifária quanto nas guerras? Não se sabe o que os EUA vão fazer — acrescentou Barbosa.
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Essa personalização não significa que o presidente centralizou todas as funções da agenda externa. Enviados americanos, diplomatas e negociadores continuaram a se envolver em tratativas por todo o mundo, das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia a questões de comércio exterior. Contudo, a capacidade das autoridades diretamente envolvidas nas tratativas de assumirem termos ou influenciarem nas decisões sobre cada tema parece se dissolver.
— A notícia de que assessores do próprio Trump ficaram surpresos com o cessar-fogo confirma uma informação que ouvi do lado brasileiro durante negociações da questão comercial neste ano — disse ao GLOBO Rubens Ricupero, embaixador do Brasil em Washington entre 1991 e 1993. — Eles encontraram bastante profissionalismo do lado americano, mas a impressão foi de que aquilo não fazia a menor diferença, porque as autoridades presentes não tinham nenhuma influência sobre Trump na Casa Branca. É como se uma coisa fosse o governo americano e outra coisa fosse Trump.
O embaixador também observa que Trump aplica na diplomacia as táticas aprendidas em seu período como empresário, incluindo a forma como aborda as negociações e faz suas propostas. Na avaliação de Ricupero, Trump se mostrou disposto a assumir altos riscos, como neste caso do Irã, mas em outros momentos demonstrou certo imediatismo, abandonando negociações que julgou que não teria sucesso.
— Ele tenta. Quando vê que não dá, ele esquece e tira da agenda — disse. — No primeiro mandato, ele queria acabar com o programa nuclear da Coreia do Norte. Chegou a dizer que era amigo do líder coreano [Kim Jong-un]. Depois que viu que não daria certo, riscou a Coreia do Norte e nunca mais falou sobre. Neste segundo mandato ele nem cita a Coreia, que fez tudo aquilo que ele não queria. Há quanto tempo ele não fala da Ucrânia?
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Na avaliação do ex-secretário especial para Assuntos Estratégicos da Presidência (2016-2018) Hussein Kalout, o pensamento de curto prazo de Trump prejudica a capacidade dos EUA de se posicionarem de forma estratégica.
— Trump não tem uma mente estratégica ou uma mentalidade geopolítica. Uma mente estratégica pensa as relações internacionais em múltiplas dimensões em longo prazo. Uma mente geopolítica pensa em múltiplas variáveis, seus impactos, o custo de risco e a posição do agente, no caso os EUA, em diferentes tabuleiros. Trump pensa no presente, no que ele ganha agora — afirmou.
As fontes consultadas pelo GLOBO afirmaram que apesar da condução de Trump, no caso particular de Irã e Israel, o cessar-fogo pode prosperar por uma questão prática: todas as partes estão interessadas em parar o conflito.
Contudo, o método usado por Trump no caso do Irã — comparado por Ricupero a uma mediação armada, modalidade usada no Século XVIII, em que uma potência maior impunha a paz em um conflito entre países menores por meio de uma ameaça de ação militar — não pode ser reproduzida fora de um contexto tão específico como o do Irã.
— O Irã é uma situação especialíssima, de um país que não tem aliados dispostos a se envolver e que ninguém queria que tivesse uma bomba atômica. Mas Trump nunca poderia fazer o mesmo no cenário da Ucrânia — exemplificou o diplomata. — Ele não pode usar força contra a Ucrânia, porque o mundo inteiro ficaria contra, e contra a Rússia, muito menos, porque é uma potência nuclear.
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Embora admita que o cessar-fogo possa se manter, o embaixador Rubens Barbosa adverte que o caminho para uma paz duradoura ainda é distante.
— Uma coisa é o cessar-fogo, outra coisa é a guerra. O cessar-fogo pode ser mantido, mas a guerra não está fora do horizonte — disse.
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O impacto final da diplomacia à Trump é na ordem internacional. Ao agir movido por uma ótica realista das relações internacionais, pautada numa leitura de uso da força, o presidente vem atropelando as convenções entre os países.
— A lei internacional, a carta das Nações Unidas, as regras comerciais da OMC, isso tudo desapareceu. Não tem mais regra. É um novo mundo — disse o embaixador Rubens Barbosa. — O Conselho de Segurança agora se reúne para ouvir discursos, não para deliberar, porque as posições são muito rígidas e não há entendimento, sobretudo por causa dessa posição americana, que parte de uma visão muito pessoal.
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Para Kalout, a tempestade criada pelo presidente é motivo de atenção, mas não mudou como os países dimensionam suas relações com os EUA no longo prazo.
— Trump é passageiro, os EUA não. O que os países estão fazendo é prendendo a respiração, sorrindo e aguardando a chuva passar com muita diplomacia, negociação e paciência — disse.