A busca por juventude permanente deixou de ser apenas uma preocupação estética individual e passou a ser observada como um comportamento recorrente em diferentes contextos sociais, impulsionado sobretudo pela popularização das redes sociais e pela circulação constante de imagens. Procedimentos estéticos, filtros digitais e rotinas de cuidados com a pele que prometem suavizar sinais do tempo fazem parte hoje de um repertório amplamente difundido.
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Nesse cenário, figuras públicas como Margareth Serrão, de 60 anos, ao relatarem experiências com intervenções estéticas e percepção de rejuvenescimento, acabam inseridas em um debate mais amplo sobre envelhecimento e aparência.
O incômodo com mudanças naturais do corpo, como alterações na pele ou nos cabelos, é reconhecido por especialistas como uma experiência frequente ao longo da vida. A forma como esse incômodo é interpretado, no entanto, varia de pessoa para pessoa e pode ter desdobramentos distintos na relação com a própria imagem.
Para o psicanalista e especialista em comportamento humano Lucas Scudeler, essa resposta individual ao envelhecimento pode revelar aspectos mais profundos da construção subjetiva. “A obsessão por parecer jovem é o sintoma mais visível de uma geração que não sabe envelhecer porque nunca aprendeu a amadurecer. Quando você não construiu nada que transcenda o corpo, o corpo é tudo que você tem para oferecer, e a ideia de perdê-lo é insuportável”, afirma.
Na perspectiva da psicologia, o envelhecimento também pode ser compreendido como um processo que envolve mudanças simbólicas, como a reconfiguração de papéis sociais e de percepção de valor. A psicóloga cognitivo-comportamental Rejane Sbrissa explica que, em determinados contextos culturais, essas transformações podem ser vividas de forma mais sensível.
“Em uma cultura que associa valor à produtividade e à estética jovem, envelhecer pode ser vivido como desvalorização. Essa recusa pode levar a uma busca incessante por intervenções estéticas ou comportamentos que tentem ‘congelar’ o tempo, muitas vezes à custa de muito sofrimento emocional”, afirma.
A influência das redes sociais
Com a expansão das plataformas digitais, a exposição constante à imagem ganhou centralidade na forma como indivíduos se percebem e se comparam. Esse ambiente contribui para a construção de padrões estéticos amplamente difundidos e frequentemente idealizados, que passam a servir como referência de normalidade.
Para Scudeler, esse contexto altera a dinâmica de formação da identidade. “As redes sociais não inventaram a vaidade. Inventaram a obrigação de manter um personagem. A pessoa cria uma versão de si mesma que não sustenta na vida real, e isso gera exaustão”, destaca.
Rejane acrescenta que esse processo é reforçado pela lógica de engajamento das plataformas, que estimula validação imediata e comparação constante:
“Filtros, edições e padrões estéticos repetidos, criam uma referência distorcida do que é ‘normal’ ou ‘desejável’. Além disso, a lógica de recompensa imediata (curtidas e comentários) reforça comportamentos voltados à aprovação externa. Isso pode aumentar a ansiedade, a insatisfação corporal e a sensação de inadequação, especialmente quando o envelhecimento natural entra em conflito com essas imagens idealizadas.”
Além das questões psicológicas, o tema também envolve atenção médica e cuidados com a saúde física. O cirurgião plástico e membro da SBCP, Régis Ramos, cita a importância de avaliar limites e motivações antes da realização de procedimentos estéticos.
“Múltiplos procedimentos podem levar a uma transformação que não se alinha mais com a essência da pessoa, resultando em uma sensação de desconexão consigo mesmo. Antes de aderir a tratamentos em alta, o paciente deve considerar suas motivações, discutir suas expectativas com um profissional qualificado e refletir sobre como esses procedimentos podem afetar sua identidade a longo prazo”, orienta.
Ele acrescenta que a influência de padrões estéticos idealizados pode impactar diretamente as expectativas dos pacientes. “Por isso, é fundamental que o paciente tenha uma visão realista e que entenda que cada corpo é único”, completa.
Construindo uma relação possível com o envelhecer
Em meio a um contexto em que a juventude é frequentemente associada a desempenho e visibilidade, especialistas apontam que a forma como o envelhecimento é interpretado socialmente influencia diretamente a experiência individual. Para Scudeler, essa mudança de perspectiva envolve um deslocamento de valores.
“Envelhecer com dignidade é um dos atos mais contrassensoriais que existem. Numa cultura que só valoriza o que é novo, aceitar o tempo é um verdadeiro ato de rebeldia”, define.
No campo clínico, Rejane observa que o processo terapêutico pode contribuir para uma reorganização da forma como o indivíduo se relaciona com o próprio corpo e com o tempo, favorecendo uma construção mais interna de autoestima.
Régis reforça que o cuidado estético, quando equilibrado, pode fazer parte de uma relação saudável com a própria imagem. “Cuidar da aparência pode ser visto como um ato de amor-próprio, enquanto a necessidade excessiva de validação externa pode indicar inseguranças mais profundas. O ideal é que os cuidados estéticos sejam motivados pelo desejo de se sentir bem consigo mesmo, e não pela pressão social ou pela comparação com os outros”, observa o cirurgião.
Ao final, o psicanalista sintetiza a discussão a partir da construção de identidade ao longo do tempo. “Se você precisa parecer jovem para se sentir valiosa, o problema nunca foi a idade. Foi nunca ter descoberto o que em você é atemporal. E esse é o tipo de investigação que nenhum espelho faz”, conclui Lucas.

