O aumento dos casos de burnout entre mulheres tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental e gestão de pessoas. A síndrome, caracterizada por exaustão emocional, distanciamento psicológico do trabalho e redução da sensação de eficácia profissional, tem se tornado cada vez mais presente no ambiente corporativo, especialmente entre profissionais que lidam com múltiplas demandas dentro e fora do trabalho.
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De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), burnout é considerado um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico mal administrado. A combinação entre jornada profissional intensa e responsabilidades domésticas, muitas vezes invisíveis, tem sido apontada como um dos principais fatores para o adoecimento emocional das mulheres.
Segundo Ylana Miller, especialista em liderança feminina, a questão está ligada a um conjunto de fatores que se acumulam no dia a dia das profissionais. “Mulheres são mais afetadas pela síndrome de burnout por conta da combinação de fatores como dupla jornada de trabalho, acúmulo de funções domésticas, familiares e profissionais, além de enfrentarem assédio, discriminação de gênero e falta de reconhecimento. No ambiente corporativo ainda existem barreiras para ocupar posições de liderança e desigualdade salarial”, explica.
A sobrecarga fora do expediente formal também pesa significativamente nesse cenário. A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, Renata Filardi, destaca que a desigualdade na divisão das tarefas domésticas continua sendo um fator determinante. “No Brasil, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens, segundo dados do IBGE. Quando essa carga se soma a metas agressivas, pressão por performance e jornadas longas, o risco de esgotamento aumenta”, afirma.
Esse fenômeno é frequentemente descrito como “dupla jornada”, mas especialistas ressaltam que o impacto vai além do tempo dedicado às tarefas. De acordo com a psicóloga clínica Andréia Batista, existe também uma carga mental constante. “Mesmo após o expediente formal, muitas mulheres continuam responsáveis pela organização da rotina familiar e pelo cuidado com filhos ou familiares. Isso mantém o cérebro em estado constante de planejamento e vigilância. Sem períodos reais de pausa, o sistema nervoso permanece em alerta por longos períodos, favorecendo fadiga emocional e sensação de esgotamento”, explica.
Outro desafio é que os sinais de burnout nem sempre são percebidos imediatamente. Para Ylana, muitas mulheres acabam ignorando os sintomas iniciais por acreditarem que a sobrecarga faz parte da rotina. “Como subestimam o excesso de atividades, muitas ignoram sinais que o corpo apresenta, como dificuldade de concentração, noites mal dormidas, dores de cabeça, irritabilidade e tensão muscular. Muitas continuam dizendo que estão bem, o que contribui para que os sinais de burnout se agravem”, alerta.
Já Andréia Batista acrescenta que o esgotamento costuma surgir de forma silenciosa e progressiva. “Muitas mulheres continuam funcionando em alto nível mesmo quando estão exaustas. Elas mantêm as entregas e seguem produtivas, mas internamente já estão vivendo um desgaste significativo. Esse padrão faz com que o burnout, em muitos casos, seja percebido apenas quando o esgotamento já está avançado”, explica.
Segundo Renata, muitas profissionais sentem que precisam demonstrar competência constantemente para serem reconhecidas no ambiente de trabalho. “Em muitos ambientes, as mulheres sentem que precisam errar menos, entregar mais e ainda demonstrar equilíbrio emocional o tempo todo. Isso gera autocobrança excessiva e dificuldade de estabelecer limites, o que aumenta o custo mental”, afirma.
Esse padrão de autoexigência também é destacado por Ylana, que aponta o perfeccionismo como um fator de risco para o esgotamento. “As mulheres assumem múltiplos papéis na sociedade e, muitas vezes, se punem intensamente quando cometem erros. Investir em autoconhecimento, aprender a definir limites e entender que a perfeição é uma utopia são passos importantes para manter equilíbrio emocional”, orienta.
Renata afirma que, diante desse cenário, as empresas precisam assumir papel ativo na prevenção do burnout, tratando a saúde mental como um tema estratégico de gestão. “Isso envolve revisar metas, capacitar lideranças para identificar sinais de adoecimento, fortalecer políticas de prevenção ao assédio e ampliar a flexibilidade com responsabilidade. Prevenir burnout não é apenas cuidar da saúde mental; é também melhorar produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade do negócio”.
Na mesma linha da presidente da ABRH-RJ, Ylana destaca a importância de políticas organizacionais voltadas à equidade de gênero. “Mentorias, palestras, rodas de conversa, programas de apoio à maternidade e paternidade e uma cultura organizacional que promova igualdade são iniciativas fundamentais. Também é importante envolver homens nesse processo para acelerar a construção de ambientes mais justos”, diz.
Andréia Batista finaliza orientando que criar ambientes psicologicamente seguros é uma das estratégias mais eficazes. “Lideranças que promovem diálogo, reconhecimento e respeito reduzem significativamente o estresse crônico nas equipes. Promover saúde mental no trabalho não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas uma estratégia inteligente para melhorar engajamento, criatividade e desempenho organizacional”, conclui.

