O day after do Dia da Libertação, como o presidente americano Donald Trump chamou o anúncio das tarifas recíprocas, foi marcado por uma sangria nos mercados globais, reflexo do temor de uma desaceleração da economia mundial se os demais países retaliarem.
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O principal índice da Bolsa de Nova York sofreu a maior queda diária desde a pandemia. As ações das principais empresas americanas ligadas a consumo, da Apple ao Walmart, derreteram em meio à expectativa de alta da inflação, devido ao repasse do custo das tarifas aos preços.
As cotações do petróleo caíram mais de 6%, e inicialmente houve uma busca pelo ouro, ativo considerado seguro — chegou a ser negociado a US$ 3.167,84 a onça troy (31,1g), mas fechou a US$ 3.127,50. O dólar também perdeu: o índice DXY, que compara a divisa a uma cesta de seis moedas, caiu 1,79%.
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— Se essas tarifas se mantiverem, a economia vai desacelerar — disse à Bloomberg Mary Ann Bartels, estrategista-chefe de Investimentos da gestora Sanctuary Wealth. — Independentemente de ser recessão ou não, está claro que a economia está caminhando para uma desaceleração nos EUA e em todo o mundo.
Em entrevista à Bloomberg TV, o presidente da Apollo Global Management, Jim Zelter, disse que as chances de uma recessão nos EUA aumentaram para 50% ou mais. Ele avalia que a maior economia do mundo corre o risco de ficar presa entre a desaceleração do crescimento e o aumento dos preços como resultado do tarifaço.
A enxurrada de tarifas americanas, somada a uma possível retaliação, pode levar a uma contração de quase 1% do volume do comércio global de mercadorias este ano, alertou ontem a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala. Segundo a economista nigeriana, isso representa uma “revisão para baixo de quase quatro pontos percentuais em relação a suas estimativas anteriores.”
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Em Nova York, o Dow Jones, que reúne as 30 maiores empresas dos EUA, caiu 3,98%. Já o S&P 500, mais amplo e mais representativo da economia, sofreu um tombo de 4,84% — a maior queda desde junho de 2020, ano da pandemia. Somadas, as 500 empresas que compõem o índice perderam cerca de US$ 2 trilhões em valor de mercado.
A Bolsa eletrônica Nasdaq, que concentra os papéis de tecnologia, cedeu 5,97%. As chamadas Sete Magníficas — Apple, Tesla, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon e Meta, que vinham liderando a alta dos mercados nos últimos meses — perderam, no total, US$ 1,032 trilhão ontem.
As ações da Apple desabaram 9,32% — boa parte de sua produção vem da China, cujas tarifas totais chegam a 54%. Entre as varejistas, o maior tombo foi da Gap: 20,29%. A Nike despencou 14,44%, pois também confia sua produção a países do Sudeste da Ásia, de mão de obra barata, fortemente taxados.
Empresas de outros países também perderam. Na Bolsa de Paris, os papéis do conglomerado Stellantis — dona das marcas americanas Chrysler e Jeep — caíram 8%. As japonesas Toyota e Panasonic perderam 5,18% e 7,43%, respectivamente, e a coreana Samsung recuou 2%.
A sangria começou pelos mercados asiáticos, que, pelo fuso, foram os primeiros a reagir às tarifas de Trump. A Bolsa de Tóquio perdeu 2,77%, e a Seul recuou 0,76%. Na China, Shenzhen caiu 1,40%, e Hong Kong, 1,52%.
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Na Europa, o FTSE 100, da Bolsa de Londres, recuou 1,55% e o DAX, de Frankfurt, cedeu 3,01%. O CAC 40, de Paris, caiu 3,31%.
O tombo dos mercados ainda fez com que os 500 maiores bilionários do mundo vissem sua riqueza combinada encolher US$ 208 bilhões (R$ 1,170 trilhão). As maiores perdas foram de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, com US$ 17,9 bilhões, e de Jeff Bezos, da Amazon, com US$ 15,95 bilhões.
No Brasil, o Ibovespa foi na contramão dos mercados globais, encerrando estável, com leve queda de 0,04%, aos 131.141 pontos. Contribuiu para isso a expectativa de que o Brasil, que ficou com a alíquota mínima de 10%, possa sofrer menos que outros países com as tarifas.
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O índice só não fechou no positivo por causa dos papéis ligados a commodities. Com a queda de 6,78%, do barril do petróleo tipo Brent, a US$ 69,87, as ações ordinárias da Petrobras (PETR3, com voto) recuaram 3,53%, enquanto as preferenciais (PETR4, sem voto) cederam 3,23%. Já a Vale caiu 3,62%. O minério de ferro recuou 0,32% na Bolsa de Dalian.
Já o dólar comercial teve forte queda de 1,23%, a R$ 5,628, o menor patamar desde 14 outubro de 2024.
— Além de nossa tarifa ser a menor banda possível, o mercado está precificando a possibilidade do Brasil se beneficiar disso — disse Paula Zogbi, gerente de research da Nomad.
Ela explica que as barreiras comerciais impostas por Trump a praticamente todos os países podem levá-los a buscar novas opções para trocas comerciais, o que pode ser uma janela de oportunidade para o Brasil. Paula, no entanto, ressalta que ainda é cedo para afirmar que este fluxo realmente virá para o país.
Já Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, faz um alerta: a incerteza deve se manter por mais algum tempo, o que deixará os mercados voláteis a curto prazo.
Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de ações e derivativos do BTG Pactual, ressalta que a “novela” das tarifas de Trump ainda tem muitos capítulos pela frente, devido à expectativa de retaliações dos países atingidos e de possíveis negociações:
— Hoje as discussões são o quanto se vai negociar.
E, ontem mesmo, Trump disse “todos os países” procuraram os EUA. E, ao ser perguntado se as tarifas podem ser revistas, respondeu:
— Se alguém disser “vamos dar a você algo fenomenal”, desde que o que ofereçam seja realmente bom. (*Com agências internacionais)

