Lançado em 1979, Calígula se tornou um dos filmes mais controversos da história do cinema por suas cenas explícitas de sexo e violência. Dirigida por Tinto Brass, que morreu nesta quarta-feira, aos 93 anos, a produção enfrentou censura, cortes e proibições em diferentes países. Estrelado por Malcolm McDowell, Helen Mirren e Peter O’Toole, o longa retrata a ascensão e o governo do imperador romano Calígula, marcado por disputas políticas, abusos de poder e excessos.
Morre Tinto Brass, diretor de ‘Calígula’, filme proibido nos cinemas por cenas eróticas, aos 93 anos
Parte da polêmica começou nos bastidores. Depois das filmagens principais, o produtor Bob Guccione, fundador da revista Penthouse, acrescentou cenas de sexo explícito à montagem, algumas delas com relações sexuais reais, sem a aprovação de Brass. A intervenção provocou um conflito entre os responsáveis pelo projeto. O roteirista Gore Vidal também se desentendeu com Guccione, e tanto ele quanto o diretor tentaram retirar seus nomes dos créditos. A versão lançada acabou se afastando da proposta original de um drama histórico e passou a incorporar sequências de conteúdo pornográfico.
No Reino Unido, uma cópia foi apreendida em 1980, sob suspeita de violar a legislação sobre material obsceno. Para conseguir a liberação, os distribuidores aceitaram retirar mais de 11 minutos da versão destinada aos cinemas. Mesmo após os cortes, algumas cidades britânicas proibiram a exibição. A versão integral só recebeu classificação para lançamento em vídeo no país em 2008, quase três décadas depois da estreia. Na Itália, o filme também foi retirado de circulação poucos dias após chegar às salas, por determinação das autoridades.
Nos Estados Unidos, a produção foi alvo de apreensões e disputas judiciais. Em Boston, uma cópia foi confiscada em 1980, mas um juiz decidiu que o filme não poderia ser considerado obsceno, levando em conta, entre outros aspectos, seu possível valor artístico, histórico e político. As decisões variaram de acordo com a legislação de cada território, e o longa chegou a ser exibido em versões diferentes, submetidas a cortes para atender às exigências locais.
No Brasil, Calígula foi barrado pelos órgãos de censura durante a ditadura militar. A liberação ocorreu em 1982, após uma decisão do juiz federal Laurindo Minhoto Neto, da 3ª Vara da Justiça Federal de São Paulo. O episódio foi mencionado no Diário do Congresso Nacional de outubro daquele ano, em pronunciamento do então deputado Israel Dias-Novaes. A decisão permitiu que o filme chegasse ao circuito comercial, depois de ter enfrentado restrições por cerca de dois anos.
Décadas depois, o longa ganhou uma nova montagem, intitulada Calígula: O Corte Final. Apresentada no Festival de Cannes de 2023, a versão chegou aos cinemas brasileiros em dezembro de 2024. O trabalho, conduzido pelo historiador Thomas Negovan, recuperou materiais de arquivo e reorganizou a narrativa, com mudanças em relação à edição original. A nova montagem procurou reconstruir a proposta do filme a partir de registros que não haviam sido aproveitados na versão lançada em 1979.
A trajetória de Calígula ficou marcada tanto pelo conteúdo explícito quanto pelas disputas entre seus realizadores e os órgãos de censura. Mais de quatro décadas após a estreia, o filme permanece como um dos exemplos mais conhecidos dos conflitos entre liberdade artística, exploração comercial e os limites impostos à exibição de obras cinematográficas.
Por que ‘Calígula’, filme de Tinto Brass, foi proibido nos cinemas em diferentes países
