O tcheco-canadense Vaclav Smil, de 82 anos, professor emérito da Universidade de Manitoba, no Canadá, diz estar cansado de discutir o consumo de combustíveis fósseis e a transição energética, temas de suas pesquisas interdisciplinares nas últimas décadas. Seu trabalho foi publicado em cerca de cinco dezenas de livros, que falam da cadeia de alimentos, passando pela inovação tecnológica à velocidade, entre outros temas que ajudam a entender, afinal, como o mundo se desenvolve e se mantém.
O pesquisador — que já foi perfilado pela revista Science sob o título “O homem que discretamente moldou como o mundo pensa sobre energia” — diz que os especialistas de ocasião, na internet, o fazem ficar longe do debate público ou da produção de artigos que poderiam questionar, por exemplo, o excessivo consumo de energia necessário para fazer os mecanismos ligados à inteligência artificial funcionar.
— Não quero entrar nesses debates públicos sobre energia e sustentabilidade porque eles estão bagunçados, além de qualquer possibilidade de conserto, por causa de todos esses “especialistas” instantâneos da internet — afirmou ao GLOBO em entrevista por telefone, de Manitoba, onde vive. — O debate sobre energia agora foi tomado por pessoas que absolutamente não têm conhecimento de nada. Penso exatamente o contrário.
Mas o mundo não está precisando lidar com a diversidade de ideias?
— Já fiz isso no passado. Quantas vezes mais eu deveria fazer? As pessoas querem acreditar no senso comum. O mundo está cheio de crentes e esse é o problema. Mas se você é um cientista, busque evidências. Mas olhe para a América agora. Metade da população crê que a salvação é Donald Trump e votou para isso — queixa-se.
Um pouco longe, portanto, do embate global sobre energia fóssil e descarbonização, Smil lança no Brasil o livro “O tamanho das coisas”, em que se dedica aos desafios relacionados a medições, proporções, escalas e até ao metabolismo humano (o que é fundamental para a manutenção da boa saúde). Fala, sim, de energia, mas também de arte, alimentos e consumo.
Na nova publicação, há uma série de pílulas de informação curiosas, como a de que os chinelos de dedo são um dos itens de consumo mais comuns do planeta (apesar de o design não ser lá o mais apropriado para atividades como pegar escadas rolantes e dirigir, ele diz). Ou que a Biblioteca do Congresso, em Washington, aumentou seu volume de informação três mil vezes ao longo de um século.
Smil explica que tem um método para navegar em meio às incontornáveis ondas de informação do nosso tempo: buscar sempre os materiais originais.
— Vou sempre aos originais, aos livros dos séculos XVIII, XIX, XX. Uso um sistema em que posso acessar 35 mil publicações científicas, vou às fontes. Não coloco frases da Wikipedia no que escrevo, muitos dos livros têm 1.500 referências, e sei que isso é bastante “old fashioned” — ri.
Smil diz estar empenhado em continuar escrevendo livros. Ele acaba de publicar no exterior um título sobre a busca da Humanidade em ser cada vez mais veloz. Diz, porém, que a fama de que seria lido por empresários, legisladores e intelectuais não é bem verdade. Embora, valha dizer, seja sempre exaltado por Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft — que já chegou a dizer que espera um novo livro do autor como outras pessoas esperam um “novo filme de Star Wars”.
No livro que chega agora ao Brasil, Smil agradece ao empresário e filantropo, seu “leitor e crítico leal”. Em outros endinheirados leitores, porém, ele não bota muita fé:
— Duvido (que seja lido por esses tomadores de decisão)! Ninguém mais lê nenhum livro. As pessoas passam suas vidas com a cara no celular. Sejamos sinceros, o tempo dos livros passou! As pessoas fingem ler. Algumas leem, na verdade. As mulheres, na verdade, leem mais que os homens. Mas essas pessoas a quem você se refere, os executivos top ou pessoas dos governos, eles não leem nada, apenas se reúnem e tentam fazer acordos para ganhar mais dinheiro.
— Escrevo para mim. Estou na posição privilegiada de escrever para mim mesmo e alguém está disposto a publicar porque não acha tão ruim, né? — conta.
No novo livro há uma pequena citação ao Brasil, quando o autor fala da dificuldade de países de grande território em sustentar sua população. Ele escreve, ainda, que países de área agigantada costumam ser marcados por grandes desigualdades sociais e costumam ser “dilacerados” por diferenças regionais. Em relação ao Brasil, especialmente, diz que olha com atenção para a chegada de produtos industriais chineses no país.
— Não se tornem uma colônia chinesa, todos os lugares estão se tornando colônias chinesas. Por que mandar quase toda a produção de soja para a China? E a China manda (de volta) todos esses produtos plásticos. O que é isso? E há a destruição do ambiente para mandar toda essa soja para lá. É sério isso? — questiona.
De acordo com Smil, porém, ainda há muito desconhecimento em diversas partes do mundo em relação ao Brasil e à América Latina.
— A maioria das pessoas na América do Norte não sabe nada de lugar nenhum. Muitas pessoas não sabem que o Brasil é uma superpotência da comida. Vocês têm problema de distribuição de renda, mas não um problema de suprimentos. Seu abastecimento de alimentos é abundante. Vocês estão nadando em comida. E as pessoas, sem saber, dizem: “Ah, coitadinha da América Latina” — diz. — Vocês têm algo que ninguém mais tem, a Amazônia. Quero dizer, há apenas um lugar assim no planeta. Sei que o desenvolvimento é necessário, o desmatamento é inevitável. Todo mundo fez isso. A questão é a escala. E já foi feito demais. Olho para as imagens dos Landsat (satélites de observação da Nasa) desde os anos 1970 e as imagens desse tempo e de agora são simplesmente inacreditáveis. É realmente assustador.
‘O tamanho das coisas’
Autor: Vaclav Smil. Tradução: Renato Marques. Editora: Intrínseca. Páginas: 336. Preço: R$ 71.

