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Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset, explica que as decisões sobre os juros nos Estados Unidos costumam alterar também a política monetária global. Isso ocorre porque um aumento no juro americano eleva a atratividade da renda fixa nos EUA — considerada um dos ativos mais seguros do mundo —, o que leva ao crescimento do fluxo de investimentos para o país. Este movimento tende a reter dólares nos EUA, elevando a cotação da moeda globalmente.
O dólar, por sua vez, é uma moeda “extremamente relevante na precificação de ativos financeiros, principalmente nas commodities, muito importante para o comércio internacional”, afirma Sichel. Ou seja, muitas transações comerciais entre países e muitos investimentos estão lastreados em dólar. A valorização da moeda encarece esse comércio, o que é repassado nos preços ao consumidor final, o que se reflete em mais inflação, fazendo com que os BCs tenham que elevar o juro para contê-la.
O contrário também é verdadeiro: se Trump conseguir demitir Cook e levar o Fed a um afrouxamento monetário — como ele vem insistindo desde sua posse —, as taxas de todo o mundo podem cair.
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Mas reduções de juro fortes nos EUA (como deseja Trump) terão efeitos inflacionários no futuro, alerta o economista-chefe da Nomad, Danilo Igliori. Ele aponta que a economia americana não tem espaço para grandes cortes, já que a inflação segue acima da meta de 2% estabelecida pelo Fed.
— Se os juros vêm para baixo de uma forma exagerada, o preço disso é inflação lá na frente — sinaliza Igliori. – Se você fala que vai baixar os juros agora na marra, como provoca a hipótese (da demissão de Lisa), o resultado é mais inflação, e, assim, é muito provável que o próprio Fed tenha que subir os juros novamente.
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Este raciocínio pôde ser observado na curva dos rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro americano, os Treasuries, nesta terça-feira. Os yields de prazos mais curtos — como os de 2, 5 e 10 anos — recuaram, enquanto os mais longos — como os de 20 e 30 anos — subiram.
Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, explica que um dos pontos principais da apreensão do mercado com a movimentação de Trump é como isso afetará a independência e a credibilidade do BC americano.
— O que acontece é que isso afeta a confiança no Fed, a confiança na política monetária, você não tem previsibilidade no banco central. A gente consegue projetar o que vai acontecer em uma reunião por conta dos dados recentes, porque o Fed toma decisão de uma forma técnica. Uma vez que o banco central não seja mais independente, gera uma imprevisibilidade. Isso pode gerar um descontrole.
Por outro lado, Igliori, da Nomad, sinaliza que novos diretores indicados por Trump podem atuar de forma técnica, ainda que o processo atual seja turbulento. Além disso, há a possibilidade de que o presidente — conhecido por voltar atrás em diversas decisões — desistir da ideia de demitir Lisa.
Esta perspectiva fez com que o mercado reagisse com certa calma: o dólar comercial encerrou em alta de 0,34%, a R$ 5,433, enquanto o Ibovespa caiu 0,18%, aos 137.771 pontos.
Lima, da Inter, afirma que ruídos entre BCs e governos sempre existiram e que não é a primeira vez que um presidente reclama de juros altos. Mas alerta:
— Se houver (interferência no Fed) pode abalar a estrutura de algo que sempre foi confiável.