Triatletas costumam ter corpos fortes e magros, quase a imagem da saúde. Até por isso, casos de mal súbito entre eles costumam surpreender. Foi o que aconteceu com a morte da triatleta Rachel Furtado, 46, que morreu após treinar no último sábado, em Brasília.
Segundo especialistas, embora esses atletas sejam realmente, em sua maioria, pessoas saudáveis, há condições que não podem ser descobertas assim. A cardiologista, intensivista e colunista do GLOBO Stephanie Rizk, que atua nos hospitais Vila Nova Star e Sírio Libanês, explica o que está por trás do mal súbito:
— Entendemos que mal súbito ocorre quando uma pessoa é saudável, não tem nenhum sintoma e sofre um evento agudo, que pode culminar numa parada cardíaca. É alguma doença, alguma coisa que surge de maneira súbita em um paciente assintomático, inesperadamente. Na maioria das vezes, está relacionado à questão cardíaca, mas há casos vasculares, principalmente em relação ao sistema nervoso central, como os de AVC.
Assim, por mais atlética que a pessoa pareça, ela pode esconder condições desconhecidas.
— O condicionamento físico realmente protege, mas não elimina todo o risco. Se uma pessoa é suscetível, o esforço intenso pode desencadear alguma coisa em cima de alguma doença já existente que não foi diagnosticada. O esporte, a atividade física, o treino não excluem completamente essa causa. Se a pessoa tem uma doença de base, que ninguém sabe, um esforço maior, como o treino de um triatleta, com a carga adrenérgica e uma necessidade maior de oxigênio pelo coração, acaba desencadeando uma crise aguda — afirma Stephanie Rizk.
Uma cardiopatia estrutural desconhecida pode acompanhar uma pessoa até a tarceira idade, caso seu coração não seja demandado como o de um atleta. Mas, como reforça a cardiologista, é preciso lembrar que após os 35 anos a principal causa de mortalidade realmente é a doença coronariana.
O preparador físico, especialista em atletas de alto nível e colunista do GLOBO, Marcio Atalla, lembra que as pessoas sedentárias ainda morrem muito mais do que os atletas.
— Quando vemos a morte de uma pessoa muito ativa, muita gente fala “ah, tá vendo? Eu sou sedentário e isso não acontece comigo”. Mas, na verdade, acontece muito, de forma silenciosa, lenta. O sedentarismo é responsável por mais de 400 mil mortes por ano no Brasil… Se formos comparar com atleta, isso acontece 7, 8 vezes no ano inteiro. Ou seja, é melhor você ser fisicamente ativo — diz.
Nem só problemas cardíacos podem ser a causa de um atleta passar mal.
— Muita gente faz uso de suplemento ou medicamentos para melhorar a performance. Mesmo os energéticos, quando usados de maneira contínua, podem causar arritmia, algum tipo de alteração que pode potencializar algum problema que a pessoa já tinha. Precisa tomar cuidado com essas coisas também — alerta Atalla. — Tem muita gente que, independente da moralidade, faz uso de substância que um atleta profissional não faria porque seria pego no doping. É um fator de risco.
O preparador físico também chama atenção para a necessidade de que atletas amadores, pessoas que competem e treinam de forma vigorosa, praticando mais de 450 minutos de atividade física por semana, tenham um acompanhamento médico. Numa estimativa informal, ele acredita que 5% dessas pessoas realizem esse acompanhamento tão importante.
Cuidados e exames cardíacos
Diante desse cenário, atleta ou não, o acompanhamento médico é importante para identificar doenças silenciosas e reduzir o risco de eventos cardiovasculares.
O acompanhamento começa cedo, com pressão arterial, colesterol, glicemia, hábitos de vida e histórico familiar. O rastreamento do colesterol é recomendado entre 9 e 11 anos, com nova avaliação entre 17 e 21 anos. Na presença de fatores de risco ou resultados alterados, a investigação pode começar antes e ser repetida com maior frequência. Na vida adulta, o acompanhamento é individualizado.
A avaliação do risco cardiovascular deve ocorrer ao longo da vida e ganha ainda mais importância após os 40 a 45 anos, principalmente na presença de hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade, doença renal, Lp(a) elevada ou histórico familiar de doença cardiovascular precoce.
De acordo com Stephanie Rizk, não existe uma sequência obrigatória em que todo mundo começa pelo eletrocardiograma, depois faz ecocardiograma e termina na angiotomografia.
— A escolha do método deve ser individualizada. O mais importante é realizar o checkup, especialmente quando existem fatores de risco, para que o médico decida se basta acompanhar os fatores tradicionais ou se é necessário procurar doença aterosclerótica [condição em que placas de gordura, colesterol, cálcio e outras substâncias se acumulam nas paredes das artérias] já instalada. A aterosclerose começa silenciosamente, muitos anos antes do infarto. Por isso, em pessoas com fatores de risco, o checkup não deve apenas perguntar se existem sintomas, mas discutir se há indicação de procurar doença subclínica.
Segundo a cardiologista, em pessoas assintomáticas com fatores de risco, especialmente após os 40 a 45 anos, está indicada uma avaliação individualizada do risco, que pode incluir métodos de pesquisa de aterosclerose subclínica quando o resultado tiver potencial de modificar a prevenção.
— Não devemos recomendar angiotomografia indiscriminadamente para todas as pessoas após os 40 ou 45 anos. Mas também não devemos esperar o aparecimento de sintomas para investigar a saúde cardiovascular — conclui.
Por que uma pessoa jovem pode ter mal súbito no esporte? Veja o que fazer para evitar o risco
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