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Portuguesa Quinta do Vallado reúne história e vinhos inovadores do Douro; conheça rótulos da vinícola

BRCOM by BRCOM
junho 19, 2026
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João Ribeiro no Vinhos de Portugal 2026, com os vinhos Quinta da Coroa e Prima — Foto: Cláudia Meneses / Agência O Globo

Uma das propriedades mais antigas do Douro, a Quinta do Vallado tem mais de 300 anos de tradição. A vinícola está há mais de 200 na mesma família, a Ferreira, como explica o produtor João Álvares Ribeiro, em visita ao Brasil:

— A vinícola pertence à família Ferreira, que eram os donos da Casa Ferreira. O Vallado era uma das vinícolas que produzia os vinhos para a casa da família até os anos 1990. O Vallado foi uma quinta que pertenceu à Dona Antónia Adelaide Ferreira, minha pentavó. Hoje, a quinta está na quarta geração, com gestão do meu pai e do meu primo Francisco, enólogo.

Ribeiro conta que o Vallado ajudou a escrever a história do Douro:

— O Douro é uma região muito antiga, demarcada em 1756, que só produzia vinhos do Porto até aos anos 1990, como a Quinta do Vallado. Naquela época, a família vendeu a Casa Ferreira, que hoje pertence à Sogrape.

João Ribeiro no Vinhos de Portugal 2026, com os vinhos Quinta da Coroa e Prima — Foto: Cláudia Meneses / Agência O Globo

Em 1986, houve uma mudança na lei e passou a ser permitido engarrafar e envelhecer vinhos no Douro, como explica:

— Até então, todos os vinhos tinham que ir para a cidade de Vila Nova de Gaia, na margem sul do Porto, envelheciam, eram engarrafados e vendidos como vinhos do Porto. Essa alteração da lei permitiu que projetos como o Vallado virassem marcas. Tudo feito dentro da vinícola, desde ter os próprios vinhedos, cultivá-los, colher as uvas, vinificar, envelhecer, engarrafar, tudo como uma quinta única.

Segundo ele, àquela altura, surgiram novos produtores:

— O Vallado, que foi herdado pela minha avó e pelos irmãos após a venda da Casa Ferreira, e vários outros. Aí também nascem os Douro Boys, que, nos últimos 40 anos, começaram a utilizar as mesmas variedades, as mesmas técnicas, para fazer coisas diferentes. Isso faz o Douro uma região única. Por um lado, é a região de marcada mais antiga do mundo. Por outro, é uma das regiões mais jovens do mundo a produzir vinhos tranquilos (tintos e brancos).

O produtor revela que 90% da produção do Vallado hoje está focada em vinhos tranquilos:

— Estamos sempre a aprender novas variedades, novos estilos. O vinho do Porto é um negócio clássico, de pequena quantidade e muita qualidade. Temos um pouco mais de 100 hectares de vinha, mais algumas outras que não são nossas, mas controlamos. Produzimos em média 1 milhão ou 1,1 milhão de garrafas por ano. Dentro deste total, temos de 100 a 150 mil garrafas de vinho do Porto.

Quinta do Vallado: beleza na paisagem do Douro — Foto: Divulgação / Quinta do Vallado
Quinta do Vallado: beleza na paisagem do Douro — Foto: Divulgação / Quinta do Vallado

Apesar de representar cerca de 10% de sua produção, João Ribeiro diz que o vinho do Porto mantém sua importância:

— O vinho do Porto é um negócio estabelecido. Não há muito o que reinventar a roda. Tem uma ou outra novidade de vez em quando, como o Porto Branco, que agora está entrando. Mas é muito difícil mudar o que quer que seja no vinho do Porto.

João Ribeiro detalha que, no Douro, só podem ser usadas uvas nativas:

— Nós só podemos usar variedades autóctones, são mais de 100. Nós não conhecemos todas muito bem, então ainda tem muitas coisas a fazer.

Como exemplos de novidades, e menciona dois vinhos recentemente lançados, que seriam impensáveis há 15 anos:

— Lançamos o ano passado um Alvarinho do Douro, que é uma região muito quente e muito seca. E fizemos um vinho muito leve, típico, com fruta e muito mineral. Ele ainda não chegou ao Brasil porque a primeira produção foi ano passado e muito pequena. Este ano, já estamos à procura de mais Alvarinho. Já reinsertamos também alguns vinhedos com a uva. Achamos que vai ser um dos vinhos de qualidade reconhecível de Portugal.

O Vallado Lady Baga — Foto: Divulgação
O Vallado Lady Baga — Foto: Divulgação

Outro lançamento foi o tinto Lady Baga, que está com ótima venda no Brasil:

— É um varietal 100% Baga, que vem do Douro Superior. A baga é uma variedade que no Douro amadurece um pouco mais cedo, com pouca cor, pouca extração, pouco álcool. Conseguimos fazer um vinho fora do estilo típico do Douro, onde menos é mais. E totalmente diferente da Barrada.

Ribeiro enfatiza que não é fácil fazer Baga, mas conseguiram fazer um vinho com uma fruta muito presente:

— É um estilo que também entra bem nas novas gerações. No Brasil é um vinho que está a ir muito bem. Normalmente, as regiões de vinho focam numa coisa e a fazem muito bem. E o Douro começou com o vinho doa Porto, depois passou para vinhos tintos com a mesma mentalidade do “mais é melhor”. Tinham mais concentração mais barrica, mais tempo de garrafa. Até os anos 90 era muito isso. Daí passamos para vinhos brancos que, no início, também eram um pouco pesados com bastante madeira.

O Vallado Lady Baga — Foto: Divulgação
O Vallado Lady Baga — Foto: Divulgação

Hoje, o produtor diz que são elaborados tanto vinhos brancos com 11 ou 12 graus, muito leves, fáceis de tomar; quanto brancos com barrica e potencial de envelhecimento magnífico:

— Basta ver o Niepoort Douro Redoma Branco, que não fica atrás de nenhum vinho branco do mundo. E temos os tintos leves como o Lady Baga, além de outros tintos com uvas que não existem noutros locais no mundo. Temos um Quinta do Vallado Alicante Bouschet encorpado, concentrado. E um Touriga Nacional, que é a variedade típica que representa também o Douro; e um Sousão, que é uma variedade tintureira com uma acidez muito elevada, que faz um vinho muito distinto de todos os outros.

Ribeiro afirma que o Vallado está “completamente apaixonado pelas vinhas velhas, que sempre fizeram grandes vinhos”:

— Antes, achávamos que todas as vinhas velhas eram boas. Hoje sabemos que não; e estamos a fazer vinificação em separado. Umas são muito boas. Outras são muito especiais. E algumas são mais normais.

Ela analisa que as “peças do puzzle” estão cada vez menores. O Douro era olhado apenas com três peças: Baixo Corgo, Cima Corgo, Douro Superior.

— Depois começamos a ver a diferença nas vinhas velhas e vinhas novas, tintas e brancas. Agora, as vinhas velhas estão divididas em pequenos lotes, o que nos permite fazer aquilo que a vinha quer, e não impor aquilo que achamos que ela quer. A mentalidade dos anos 1990 era: vinhas velhas são boas, porque são muito concentradas, fazem vinhos muito potentes, mas hoje sabemos que não é assim.

O Vallado Vinha da Coroa Douro — Foto: Divulgação
O Vallado Vinha da Coroa Douro — Foto: Divulgação

Ele cita dois exemplos de vinhos que permitem uma comparação, as duas vinhas mais antigas da Quinta do Vallado: a da Granja e a da Coroa. Elas estão plantadas coladas uma à outra, com uma pequena estrada de dois metros no meio.

— Para nós, nos anos 90, eram iguais. As vinhas velhas estavam plantadas lá em cima, com mesma idade e altitude. Fazíamos dali o mesmo vinho, um corte com as duas. Mas fomos nos apercebendo que havia um ano em que às vezes não casavam muito bem e acabávamos por rejeitar as uvas da Coroa porque nem sempre encaixavam muito bem.

Eles decidiram então fazer um estudo genético e descobrimos todas as plantas que estão na Granja e na Coroa, que têm composições diferentes.

— Descobrimos que a Vinha da Coroa tem, por exemplo, 50% de Tinta Roriz, que não gosta de ser colhida tarde. E as vinhas velhas, no estilo tradicional, são colhidas muito tarde para estar tudo muito maduro. Então rejeitávamos muita coisa da vinha da Coroa. Ela está virada a Norte, o que também não é algo muito típico na região do Douro. Felizmente, entendemos o que a vinha queria. Hoje temos o vinho da Granja, que é um vinho típico do Douro, encorpado e muito elegante e muito potente. E da vinha de exatamente ao lado, a da Coroa, sai um vinho com menos álcool, menos cor e completamente diferente. Os dois são vendidos no Brasil.

O tinto premium Adelaide, da Quinta do Vallado — Foto: Divulgação
O tinto premium Adelaide, da Quinta do Vallado — Foto: Divulgação

Ribeiro também destacou o lançamento da última safra do seu vinho icônico, o Adelaide 2017, que homenageia Dona Antónia Adelaide Ferreira:

— É um vinho tinto é uma vinha muito velha, com muitas variedades todas misturadas. Achamos que ainda existe, sem dúvida, espaço para esses grandes vinhos de Douro, mas uma das coisas que ajuda muito é tomá-los na altura certa. Estamos a fazer um esforço grande para lançá-los sempre mais tarde, já pronto para beber.

Ele frisou que o rótulo ainda tem potencial de guarda:

— São vinhos muito potentes. Esses grandes rótulos, principalmente de grandes safras, têm pontuações altas. Os consumidores vão atrás deles imediatamente. Vimos isso acontecer com 2011, uma grande safra no Douro. Em 2015, já não havia vinhos de 2011. Então tentamos ajudar um pouco o consumidor, o mercado e a nós próprios com estes vinhos de produção pequena, de 3.500 a 4.000 garrafas.

O Vallado Prima — Foto: Divulgação
O Vallado Prima — Foto: Divulgação

Já o Prima é um vinho branco feito com Moscatel Galego, com ótimos resultados no Brasil. A produção é de 40 mil garrafas por ano:

— O Moscatel é uma variedade que pouca gente gosta. Normalmente o Moscatel no Douro é muito doce, muito alcoólico, muito pesado. Mas as uvas do Prima são colhidas muito cedo, 4 ou 5 semanas antes do Moscatel normal. Fazemos um vinho que mantém o lado aromático floral dessa variedade, que é o lado bom. Mas fazemos com 0 grama de açúcar, 12 graus de álcool e uma acidez natural muito pronunciada. É leve, mineral, cheio de frescor, perfeito para o clima do Brasil, onde estamos vendendo muito. Aqui, ele é conhecido pelo espumante doce, mas a gente tem uma proposta totalmente diferente, o que mostra que o Douro não faz só vinhos pesados, é uma grande surpresa.

Ele acrescenta que o Prima também faz sucesso nos Estados Unidos:

— Dizer que é um Moscatel seco é muito mais fácil para o consumidor do que dizer que é Arinto, Rabigato ou Gouveio. Para o americano, isso não significa nada. Então é um vinho que também se dá muito bem fora de Portugal, na exportação. Mais do que o nosso branco normal, que é o branco de corte, que vendemos muito em Portugal, mas em alguns mercados é mais difícil.

Vinhedo da Quinta do Vallado, no Douro — Foto: Divulgação / Quinta do Vallado
Vinhedo da Quinta do Vallado, no Douro — Foto: Divulgação / Quinta do Vallado

João Ribeiro revela ainda que o projeto de enoturismo recebeu cerca de 30 mil pessoas no ano passado, entre o hotel, os restaurantes e as lojas. O cliente internacional que mais visita esses locais é o brasileiro.

— Essa ponte entre Portugal e o Brasil está cada vez mais próxima. Temos uma propriedade na Quinta do Vallado, com três edifícios. Mais do que um hotel, somos um produtor de vinhos. No Vallado, reconstruímos a casa da família, construída em 1716, com cinco quartos. Depois fizemos um edifício moderno inspirado na arquitetura da adega, que é toda feita em xisto, com mais sete quartos. Há 3 anos, reconvertemos um armazém antigo de vinho do Porto na Casa da Eira, com mais cinco quartos.

Quinta do Vallado: Wine Hotel na Casa Tradicional, conhecida pela cor ocre e o jardim — Foto: Divulgação /Vallado
Quinta do Vallado: Wine Hotel na Casa Tradicional, conhecida pela cor ocre e o jardim — Foto: Divulgação /Vallado

Ele detalha que está sendo concluído um projeto de um edifício novo comprado dentro da vinícola, que estava em ruínas, onde serão oferecidos mais quartos. A assinatura é do arquiteto Eduardo Souto Moura:

— Eduardo Souto Moura é um dos dois arquitetos mais famosos de Portugal. Nós também saímos do Douro com o turismo, abrimos um restaurante e uma sala de provas na Ribeira, na cidade do Porto. E o turismo tem sido uma agradável surpresa, porque o nosso negócio é vinho. O turismo vem para complementar, mas cresce muito em Portugal e é uma ferramenta que nos ajuda cada vez mais.

Ribeiron conta que vem com frequência ao Brasil e é muito raro ter uma degustação com um cliente de vinhos que não diga que esteve no Douro ou conhece alguém que está na região naquele momento:

— Isso ajuda-nos muito a fechar o círculo. Os consumidores daqui são dos mais desenvolvidos para vinhos portugueses. É muito bom vir a esses mercados porque as pessoas entendem os vinhos e depois também vão lá ver com os seus próprios os olhos, conhecer as pessoas. Num mundo em que todos os países fazem vinhos, todas as regiões fazem vinhos, de todas as cores, de todos os preços, de todos os sabores, agora até já tem vinhos aromatizados, sem álcool, é uma vantagem competitiva para nós.

Ribeiro lembra que Portugal se destaca pela diversidade de uvas e de regiões produtoras:

— Achamos que passa muito pela parte genuína das variedades que temos, das vinhas que são espetaculares. As pessoas podem ver em local que o Douro é uma região com 40 graus no verão. Quem está lá num dia quente nunca vai esquecer, ou num dia de inverno com 0 grau também não. Ou ter uma experiência de vindima, onde você pode ir pisar as uvas. Não só porque é bonito, mas porque tem qualidade. No mundo dos vinhos, é muito fácil contar histórias e todo mundo conta a sua, mas ajuda-nos muito poder receber pessoas e verem o lado muito genuíno e sem esquecer a gastronomia.

Ele frisa que, em seu país, o vinho “não é bebida, mas é um alimento”:

— Quando você vai a Portugal ou ao Douro e prova os vinhos com as comidas locais, faz todo sentido. Há vinhos encorpados para pratos pesados. Há vinhos brancos leves para frutos do mar, que nós temos imenso em Portugal. Vivemos o vinho como um ingrediente, isso leva-nos sempre à procura de novos ingredientes para encontrar novas facetas das vinhas, ou da harmonização, ou para os pratos diferentes.

O produtor avalia que o mercado do vinho está oferecendo muitos desafios para as marcas:

— Há muitos lobbies contra o vinho, contra o álcool, da indústria farmacêutica. Há a questão agora das dietas e das canetas emagrecedoras. Mas o Brasil é o mercado mais importante de exportação para a Quinta do Vallado, e acho que deve ser para quase todos os produtores portugueses. O futuro dos vinhos portugueses no mundo vai passar sempre pelo Brasil.

Os vinhos são importados para o Brasil pela Grand Cru. Os preços são: Vallado Prima (R$ 219,90); Vallado Lady Baga Douro Superior (R$ 499,90); Vinha da Coroa Douro DOC 2023 (R$ 1.299); Quinta do Vallado Adelaide Douro DOC 2017 (R$ 4.999).

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