Com um time em plena reconstrução, depois de uma das piores campanhas da sua história em Copas do Mundo e diante daquele que talvez seja o maior desafio recente da seleção mais vitoriosa do planeta, a CBF mandou jogadores e comissão técnica fazerem as malas rumo ao outro lado do mundo. Para enfrentar adversários irrelevantes, em gramados horríveis. Jogou fora três semanas preciosas de treino e desenvolvimento do time e, de quebra, pôs em risco a saúde de jogadores que estão no começo da temporada europeia, com viagens intermináveis e fusos horários enormes.
O resultado, previsível, foi um fracasso: três atuações decepcionantes de uma seleção desfigurada, desentrosada, sem identidade nem conexão com o torcedor. Com direito, ainda, a um vexame institucional: jogadores brasileiros rindo durante uma tradicional cerimônia aborígene de boas-vindas na chegada à Austrália. Pegou mal demais.
Jogadores brasileiros riem em ritual aborígene de boas-vindas na Austália
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É verdade que a Liga das Nações da Uefa criou um problemão para as demais seleções, que praticamente já não conseguem enfrentar as europeias. Mas isso não pode servir de desculpa para vender os jogos de uma seleção que é patrimônio do esporte mundial a destinos exóticos, como se fossem um produto qualquer.
Nunca é demais lembrar que, durante 15 anos, a seleção foi refém de contratos absurdos que leiloaram seus amistosos a empresas estrangeiras. Milhões de dólares em comissões para agentes e cartolas com agências em paraísos fiscais no meio do caminho. A seleção rodava o mundo como uma banda cover, seguindo as ordens do patrão.
Cobri esses jogos durante anos e me lembro bem das dezenas de desabafos que ouvi nos bastidores: a frustração de jogadores, comissão técnica, staff e jornalistas. Vi de perto o Brasil enfrentar a Argentina de Messi na Arábia Saudita e clássicos sul-americanos em gramados sintéticos nos Estados Unidos, muitas vezes em dois fusos diferentes na mesma Data Fifa.
Imaginei que nunca mais veria aberrações como aquelas. Mas parece que no futebol, como em tantos aspectos da sociedade, a memória é curta. E aí está a Canarinho, de novo voando para terras distantes e aprofundando a desconexão com a torcida.
Olha a Argentina, por exemplo. Também enfrentou seleções menores na última Data Fifa, mas jogou em casa, celebrando sua maior estrela, Messi, e estreitando uma relação de amor e carinho entre a torcida e a seleção.
Pode parecer assunto batido, mas vale insistir: o Brasil precisa fazer o mesmo. Aproximar a seleção da torcida e, ao mesmo tempo, poupar tempo e desgaste em nome de uma preparação melhor, com foco no campo e sem distrações.
Até porque fica difícil avaliar a seleção nas condições impostas nas últimas três semanas. Podemos e devemos criticar o trabalho de Ancelotti, que até agora é muito ruim. Mas, se a CBF não poupou esforços nem dinheiro para trazer um dos melhores treinadores do mundo, qual é o sentido de mandá-lo para a Austrália?! Para a Índia?! E, na próxima, para Singapura?! É uma loucura! Constrangedor.
Enquanto a CBF tratar a seleção como mercadoria, vai continuar entregando exatamente o que vende: um produto decadente e sem alma, cada vez mais longe do coração do torcedor.
Precisava? Precisava mesmo a seleção brasileira fazer uma absurda turnê caça-níquel pela Austrália e pela Índia?
