Autor de “Retalhos”, um dos romances gráficos autobiográficos mais celebrados de sua geração, o americano Craig Thompson conquistou reconhecimento internacional e alguns dos principais prêmios dos quadrinhos, como o Eisner e o Harvey. Em “Raízes de ginseng”, volta a transformar a própria experiência em uma narrativa de grande alcance, que combina memória, investigação histórica e crítica à globalização. No livro de fôlego, de quase 500 páginas, recorre às memórias familiares para narrar o período da infância em que trabalhou com os irmãos, ajudando a mãe a colher raízes de ginseng em fazendas de Wisconsin durante as férias de verão. Mas, diferentemente de “Retalhos”, em que abria o coração numa HQ autobiográfica, Thompson vai além do relato pessoal e empreende uma impressionante pesquisa histórica sobre a planta e a indústria que se desenvolveu em torno dela.
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— Eu queria escrever especificamente sobre plantas. E, por acaso, a única planta com a qual eu tinha uma intimidade singular era o ginseng — diz Thompson, em entrevista por e-mail. — Rapidamente descobri que o ginseng era a base da relação comercial entre a América do Norte e a China antes mesmo de os Estados Unidos se estabelecerem como país.
O novo livro nasceu de um convite dos pais para visitá-los na cidade de Wisconsin onde ele cresceu, durante um festival internacional de ginseng. Foi lá que Craig começou a entrevistar produtores e a investigar a história da planta.
— É uma raiz valorizada na medicina à base de plantas e nas práticas holísticas de cura, mas hoje é cultivada em larga escala, o que exige muitos pesticidas e fungicidas. Todos esses temas globais complexos já estão ligados ao ginseng — explica Thompson. — Mas ficou evidente que o leitor queria minha história pessoal como porta de entrada emocional para a narrativa. Além disso, as editoras já vinham querendo que eu fizesse algum tipo de continuação autobiográfica de “Retalhos”. Incluir minha infância em “Raízes de ginseng” foi uma maneira óbvia, sincera e orgânica de fazer isso.
Detalhe de ‘Raizes de ginseng’ (Quadrinhos na Cia), de Craig Thompson
Divulgação
Você começou a trabalhar em plantações de ginseng ainda criança, gastando o dinheiro em quadrinhos. Como essa lembrança se transformou num livro sobre trabalho e economia global?
Comecei a trabalhar 40 horas por semana aos 10 anos, durante minhas “férias” de verão, arrancando ervas daninhas nas plantações de ginseng. Ganhava um dólar por hora — o que, na minha cabeça de criança, significava “uma história em quadrinhos por hora” e alimentava minha coleção. Talvez não fosse cartunista hoje sem aquele emprego. Mas, ao escrever o livro, meus irmãos e eu percebemos o ressentimento por nunca termos tido férias ou lazer na infância. Enquanto outras crianças nadavam, brincavam e iam a acampamentos de verão, nós trabalhávamos na agricultura. É perturbador perceber que nunca tive uma infância propriamente dita. Na turnê internacional do livro, muitos leitores ficaram perturbados ao saber que crianças nos Estados Unidos precisavam trabalhar tanto. Mas essa situação não mudou: metade dos produtos agrícolas vendidos nos supermercados — frutas e verduras — é colhida por crianças. Se antes crianças brancas trabalhavam para ganhar um “dinheirinho” e comprar quadrinhos, hoje filhos de imigrantes e de trabalhadores migrantes entregam seus ganhos para ajudar a cobrir as despesas da família.
O livro explora a conexão entre produtores americanos de ginseng e consumidores chineses. Como as tensões políticas entre os dois países afetam essa relação?
A Hsu’s Ginseng, maior produtora da minha cidade natal e marca conhecida nos mercados asiáticos, passou a se concentrar mais no mercado interno americano. Como seus funcionários falam mandarim, a empresa consegue atuar como intermediária e levar a produção às comunidades asiáticas nos EUA. Durante minhas viagens pela China, descobri que o maior produtor mundial de ginseng de Wisconsin… é a própria China. Os chineses cultivam a planta há 40 anos, usando sementes de Wisconsin em solo chinês. Não acredito em globalização ou nacionalismo econômico. Acredito numa economia local, de pequena escala, como aquela em que cresci, e nos ideais socialistas que orientavam muitos agricultores americanos antes do movimento Maga, de Trump. É irônico que, em meu estado natal, agricultores e operários tenham tradicionalmente apoiado os democratas por esses ideais. Com o desaparecimento das oportunidades de trabalho, porém, passaram a votar contra os próprios interesses e elegeram Trump.
Detalhe de ‘Raizes de ginseng’ (Quadrinhos na Cia), de Craig Thompson
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Você se definiu como agnóstico em nossa última entrevista, mas continuava interessado na espiritualidade. Como sua relação com a religião evoluiu?
Continuo muito interessado em religião. Tenho inveja de quem não foi criado numa religião e consegue abordar a vida de maneira mais racional. Meus pais cresceram na pobreza, em famílias com dinâmicas difíceis que levaram irmãos deles ao uso de drogas e a outros comportamentos autodestrutivos. Entendo como se tornar cristãos “nascidos de novo”, na casa dos 20 anos, os salvou de caminhos ainda mais desesperados. Também acho que o campo favorece uma percepção mais espiritual: as cidades são seculares, diversas e dinâmicas, enquanto o campo aproxima as pessoas da natureza e dos espaços vazios.
Em ‘Retalhos’, você reconstruiu o passado a partir da memória. Como foi revisitar essa história em ‘Raízes de ginseng’?
“Retalhos” foi reconstruído a partir de lembranças, sem referências fotográficas. “Raízes de ginseng” adota uma abordagem mais documental: gravei e transcrevi a maior parte dos diálogos, baseei os detalhes em fotografias e mostrei as páginas às pessoas retratadas, inclusive aos meus pais. Comecei “Retalhos” aos 23 anos, apenas cinco anos depois dos acontecimentos, quando ainda sentia o controle opressivo dos meus pais. Já comecei “Raízes de ginseng” aos 41, com uma visão mais compreensiva deles, vendo-os envelhecer. Meu pai, que na infância me parecia autoritário e assustador, ficou mais tranquilo e gentil na velhice. Achei que o novo livro seria principalmente sobre meu irmão Phil, mas acabei me aproximando mais da minha irmã Sarah. O projeto também me permitiu reconciliar-me com a cidade onde cresci.
Detalhe de ‘Raizes de ginseng’ (Quadrinhos na Cia), de Craig Thompson
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O livro combina pesquisa histórica e humor. Como você equilibrou o rigor factual com a liberdade dos quadrinhos?
A personagem cartunesca do ginseng me permitiu acrescentar leveza a cenas que corriam o risco de ficar atoladas em pesquisa. Na China, existem centenas de histórias sobre raízes de ginseng que ganham vida, fogem de caçadores ou se disfarçam de crianças humanas. Na Coreia do Sul, a publicidade da planta também usa mascotes cartunescos. Não resisti à ideia de criar um dos meus. Outra inspiração foi “The Lorax”, de Dr. Seuss, uma grande narrativa ambientalista. Também encontrei dois livros com roteiros semelhantes ao meu, mas ambos eram em prosa, sem a dimensão visual que os quadrinhos me permitiam explorar.
Sua família trabalhava na colheita sazonal do ginseng, numa indústria ligada ao mercado internacional. O que sua pesquisa lhe ensinou sobre desigualdade social e oportunidades de trabalho?
Quando eu era criança, o ginseng era a principal atividade agrícola da minha cidade, em Wisconsin, cultivado em pequenas propriedades familiares de um ou dois acres. Nos anos 1980 e início dos 1990, o setor viveu uma grande expansão, e agricultores da região ficaram milionários — os agricultores, não minha família, que era mão de obra. Em meados dos anos 1990, produtores de tabaco de Ontário, no Canadá, converteram suas propriedades para o cultivo de ginseng em escala gigantesca, no modelo da agricultura corporativa. A produção inundou o mercado e desalojou as propriedades familiares de Wisconsin. É irônico que o Canadá, cujos habitantes têm fama de ser “gente boa”, tenha corroído o setor por meio do capitalismo avançado. Hoje há fazendas corporativas de até 800 acres. Nos últimos dois anos, desde que concluí o livro, o setor mudou drasticamente, com a pandemia, a guerra comercial de Trump, as tarifas e as operações do ICE contra trabalhadores em fazendas e fábricas. Will Hsu, talvez o maior produtor da região, disse que restavam apenas 70 agricultores, contra 180 quando comecei o livro e 1.600 quando eu era criança. Sinto-me afortunado e perturbado por ter documentado esse setor local antes que fosse engolido pela globalização.
Detalhe de ‘Raizes de ginseng’ (Quadrinhos na Cia), de Craig Thompson
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‘Retalhos’ era pessoal, enquanto ‘Habibi’ explorava outras culturas. Você vê “Raízes de ginseng” como uma síntese dos dois?
Costumo dizer que “Raízes de ginseng” corrige os “crimes” percebidos em “Retalhos” e “Habibi”. Escrevi “Retalhos” sem conversar com meus pais, que só viram o livro publicado e ficaram magoados durante cinco anos. Em “Raízes de ginseng”, gravei seus depoimentos e lhes dei a oportunidade de revisar as cenas. “Habibi” recebeu críticas nos Estados Unidos por “apropriação cultural”: que direito tem um homem branco do Meio-Oeste americano de escrever sobre o Islã e uma cultura que não é a sua? Não tenho uma resposta definitiva, mas me pergunto o que acontece quando nossa cultura se sobrepõe a outra. Cresci numa comunidade rural isolada que produzia ginseng para a China, sem pensar na importância cultural da planta para os chineses. No novo livro, procurei honrar essa cultura por meio da curiosidade. Para mim, não se tratava de apropriação, mas de apreciação.
Seus livros levam anos de pesquisa. Como decide que um assunto merece virar uma narrativa gráfica longa e quando considera a pesquisa concluída?
A pesquisa nunca está concluída: poderia se ramificar infinitamente. Em algum momento, porém, vira procrastinação, e é preciso sentar e desenhar. Queria explorar outros temas em “Raízes de ginseng”, como o trabalho dos mexicanos, hoje a principal força de trabalho nas plantações de Wisconsin. Levei um amigo fluente em espanhol a algumas entrevistas, mas os agricultores protegiam o tempo e a atenção dos trabalhadores, e não consegui entrevistá-los. Esses trabalhadores sazonais trabalham 16 horas por dia, seis ou até sete dias por semana. Quanto à escolha dos temas, acho que o elemento pessoal é fundamental: todos temos experiências únicas. Eu poderia dizer que sou o único cartunista que cresceu trabalhando com ginseng, mas conheço pelo menos outro: Duachaka Her, ilustrador de livros infantis.
Conversamos em 2009, quando ‘Retalhos’ saiu no Brasil. Como foi a viagem? Gostaria de voltar?
A viagem foi incrível e inspiradora. Havia uma sensação de que o Brasil seguia uma trajetória ascendente e otimista, apesar da enorme desigualdade de renda. Isso foi antes de Trump, Bolsonaro, da pandemia e da inteligência artificial. O mundo parece mais distópico agora, e imagino que essa sensação também se estenda ao Brasil. Adoraria voltar.
Premiado autor de HQs, Craig Thompson lembra em 'Raízes de ginseng' o trabalho em fazendas do Wisconsin na infância
