Na segunda escala de sua viagem à Ásia, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi recebido com pompa e uma dose adicional de hospitalidade no Japão, um aliado crucial de Washington na Ásia. Usando exemplos de outros líderes, a premier japonesa, Sanae Takaichi, apostou em presentes, promessas de investimentos, acordos estratégicos e declarações caras ao republicano, incluindo a promessa de uma indicação ao Nobel da Paz.
— Permitam-me compartilhar com vocês minha determinação: como líder do Japão, continuarei a me esforçar para fortalecer o poder nacional do Japão, ou seja, sua diplomacia e capacidade de defesa, poder econômico, tecnologia, inteligência e recursos humanos — disse Takaichi, ao lado de Trump, em Tóquio. — Juntamente com vocês, gostaria de concretizar uma nova era de ouro para a aliança Japão-EUA, na qual tanto o Japão quanto os Estados Unidos se tornarão mais fortes e prósperos.
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De acordo com a secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, a premier prometeu, a portas fechadas, que o Japão indicará Trump ao Nobel da Paz, citando seu “trabalho na mediação de conflitos”. Seis anos antes, o ex-primeiro-ministro e mentor de Takaichi, Shinzo Abe, havia indicado o republicano a honraria, citando o trabalho dele na desnuclearização da Coreia — naquele mesmo ano, as conversas entre Washington e Pyongyang naufragaram, e o regime de Kim Jong-un acelerou o desenvolvimento de armas nucleares.
— O primeiro-ministro Abe me falava frequentemente da sua diplomacia dinâmica — disse Takaichi, que na reunião usou o mesmo intérprete dos tempos de Abe, um funcionário da Chancelaria elogiado pelo americano com frequência. — Eu mesma estou muito impressionada e inspirada, senhor presidente.
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Em gestos materiais, Takaichi presenteou Trump com um taco de golfe usado por Abe, assassinado em 2022, e com uma bolsa usada por Hideki Matsuyama, primeiro golfista japonês a ganhar um torneio de grande porte. No jantar oficial, a Casa Branca informou que foram usados “arroz americano e carne americana”, além de “outros deliciosos ingredientes japoneses”: pelo acordo comercial firmado em julho entre Tóquio e Washington, que levou à redução das tarifas de importação para 15%, os japoneses concordaram em aumentar em 75% as compras de arroz dos EUA. O produto, indispensável na culinária local, é o grande vilão da inflação do país nos últimos anos.
Takaichi, que na semana passada se tornou a primeira mulher a comandar o Japão, parece ter aprendido com outros líderes uma regra para “dobrar” Trump: antes de conversas duras, as gentilezas são obrigatórias. Foi assim com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, que elogiou a nova decoração do Salão Oval, com o premier britânico, Keir Starmer, que levou uma carta do Rei Charles III o convidando ao país, e, no extremo, com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que o chamou de “papai”.
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No caso da premier, os esforços pareceram valer a pena.
— Pelo que sei de Shinzo e outros, você será uma das grandes primeiras-ministras — disse Trump, antes do jantar oficial no Palácio Asakasa, em Tóquio. — Gostaria também de parabenizá-la por ser a primeira mulher primeira-ministra. É um grande feito.
A ofensiva de charme não foi à toa. Apesar de ser um aliado histórico dos EUA, ao menos no pós-Segunda Guerra Mundial, a pauta da curta viagem do líder americano a Tóquio era recheada de temas sensíveis. A começar por um acordo para garantir o fornecimento de minerais críticos e terras raras, essenciais em indústrias de ponta, no momento em que a China apertou os controles sobre as exportações das commodities.
Trump também confirmou um investimento de US$ 10 bilhões da Toyota, uma das maiores fabricantes de veículos do planeta, nos EUA, como parte de uma promessa feita pelo Japão de investir US$ 550 bilhões na economia americana, pilar do acordo comercial para reduzir o impacto do tarifaço trumpista. Durante o jantar, Takaichi mostrou ao presidente americano um mapa dos locais onde as empresas de seu país pretendem investir nos EUA. O republicano pareceu impressionado.
— Quero apenas que você saiba que, sempre que tiver alguma pergunta, qualquer dúvida, qualquer coisa que desejar, qualquer favor que precisar, qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar o Japão, estaremos lá — disse Trump à premier. —Somos um aliado no mais alto nível.
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Nem só de economia se fez a visita de Trump ao Japão. Após o jantar oficial, os dois líderes visitaram o porta-aviões USS George Washington, atracado em um porto nos arredores da capital japonesa. Ali, o presidente americano apresentou Takaichi como “uma vencedora” e como uma “amiga próxima”, e deu uma notícia aguardada pelo governo local, a aprovação da venda de mísseis para equipar os caças F-35 japoneses.
— Só quero dizer à senhora primeira-ministra que eles estavam esperando por esses mísseis e nós os trouxemos aqui imediatamente — afirmou o presidente, em discurso a políticos, assessores e militares.
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Na sua fala, Takaichi defendeu o estreitamento da aliança militar com os EUA, desenhada para conter a expansão chinesa na região, e para garantir um “Indo-Pacífico livre”. Mais tarde, em declarações a jornalistas, confirmou ter conversado com o republicano sobre a elevação dos gastos com Defesa, uma demanda de Washington, sem dar números. Na semana passada, ela afirmou ao Parlamento que deseja atingir já em março do ano que vem o patamar de 2% do PIB em gastos militares, um número previsto inicialmente para ser atingido em 2027.
— Gostaria de continuar a aprofundar a relação de confiança com o presidente Trump e construir vigorosamente a próxima era de ouro da aliança Japão-EUA. Com base na maior aliança Japão-EUA do mundo, gostaria de restaurar uma diplomacia japonesa vibrante que floresça no coração do mundo e desempenhe um papel fundamental na paz e prosperidade da comunidade internacional — afirmou à imprensa, citada pelo jornal Asahi Shimbun.
