O objetivo, em tese, é nobre: incentivar o uso de atletas recém-saídos da base brasileira para impulsionar seu desenvolvimento. Mas os torcedores não entenderam assim. E a redução no limite de estrangeiros por clube (dos atuais nove chegará a cinco em 2030), aprovada nesta semana pelos clubes, gerou grande repercussão negativa. Uma gritaria “rasa”, segundo Augusto Oliveira, diretor das categorias inferiores do Botafogo e presidente do Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro (MCFFB).
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O grupo é formado por todas as agremiações que possuem certificado de formador (hoje são 89). Ele dialoga com a CBF, que desde março possui um Grupo de Trabalho (GT) da base. Leva suas preocupações e interesses e batalha por avanços, como apoio financeiro e logístico nas competições nacionais e atualização dos critérios para concessão do certificado aos clubes.
Enquanto torcedores temem uma eventual perda de competitividade de suas equipes, o MCFFB entende que precisava agir diante do que considerava uma asfixia dos jovens nas equipes principais. Seu diagnóstico é de que, num cenário de alta pressão por resultados, os estrangeiros viraram uma solução de curto prazo. E a paciência com os atletas em fase de transição ficou ainda menor.
Foi com essa preocupação que o grupo pleiteou, junto à CBF, a redução do limite de estrangeiros. Ao GLOBO, Augusto Oliveira avalia a reação do público, explica o pedido e reflete sobre os problemas e desafios atuais das categorias inferiores no país — como a cobrança por resultados dentro da base em detrimento do desenvolvimento de atletas.
Como vocês acompanharam a reação do torcedor, que se mostrou bastante indignado com a redução dos estrangeiros?
É muito rasa essa gritaria com a redução dos estrangeiros. Obviamente que esse assunto chama mais atenção, traz mais efervescência para o processo. Como se nós, gestores da base, tivéssemos um pleito único de diminuição do número de estrangeiros. Mas não precisamos só disso para valorizar o processo de formação. Precisamos olhar para o ecossistema e refletir. Não é só a diminuição escalonada dos estrangeiros que vai resolver o problema. Acredito que o nosso gargalo ainda seja a transição desses atletas de uma categoria sub-20 para a equipe principal.
A criação de regras pode fomentar uma transição mais assertiva. Vários outros países têm a sua Liga B, têm competições sub-23 que vão fomentando esse amadurecimento de jogadores. Porque as exceções estarão prontas aos 17, 18 anos para estrear na equipe principal. Mas o jogador, como regra, ainda vai continuar em processo de maturação física, biológica e cognitiva até os seus 23 anos. Então isso (a redução do limite de estrangeiros) diz mais sobre uma estratégia para gerar mais espaço para aproveitar atletas formados nos clubes brasileiros do que sobre uma única regra mágica que vá provocar as mudanças necessárias no nosso ecossistema.
No estudo apresentado aos clubes, a CBF mostrou como o espaço dado aos mais jovens tem caído ao mesmo tempo que o tempo de jogo dos estrangeiros cresce. Vocês acreditam numa relação de causa e efeito?
Eu acho que elas se correlacionam, mas não é uma condição sine qua non uma para a outra. No que a gente acredita? Que o olhar dos detentores das tomadas de decisão nos clubes precisa impreterivelmente ser mais paciente para o processo de formação, desenvolvimento e transição de jogador.
Obviamente que alguns estrangeiros vão chegando aqui, ficando e se adaptando. O poderio econômico do Brasil acaba sendo atrativo se comparado a outros países da América do Sul. Mas acredito também que vai vir um contramovimento que pode desencadear na naturalização desses estrangeiros. A dupla cidadania pode ser um caminho. Alguns atletas que já estão há mais de quatro anos no nosso país podem se naturalizar, abrindo vaga para outros.
Os gestores dos clubes escolheram os estrangeiros como solução de curto prazo para não ter que esperar os jovens maturarem?
Alguns países da América do Sul possuem regras específicas que obrigam a utilização de jovens nos seus campeonatos nacionais. Alguns por uma minutagem mínima, que precisa ser acumulada ao longo da temporada. Isso acontece no Paraguai, por exemplo. E o não cumprimento dessa regra lá acarreta em punições como multa, perda de pontos e outras sanções. Por que não começar essa construção aqui no nosso país, fomentando e, em alguns momentos, obrigando de maneira escalonada uma maior utilização de atletas mais jovens?
Hoje a torcida precisa acolher e apoiar aqueles jovens que jogam diante de 300 pessoas e que, daqui a pouco, entram num jogo de Campeonato Brasileiro, Sul-Americana ou Libertadores com 50 mil no estádio. E se esse menino cometer erros nesse início? Como a torcida vai reagir? Com qual segurança os gestores e os treinadores vão ter a coragem necessária para sustentar e insistir?
Então, as nossas dores vão um pouco além da diminuição dos estrangeiros e da obrigatoriedade de utilização de jovens no elenco principal. A gente acredita que ter uma regra para isso pode equacionar, pode balizar algumas estratégias de valorização dos nossos jogadores.
Ao levar essas propostas para votação, a CBF colocou como uma das metas reter o jovem por mais tempo. Só que o mercado europeu, que é o principal comprador, quer justamente contratar atletas cada vez mais novos. Como convencer os gestores daqui a manter esses garotos, que valem milhões, por um pouco mais de tempo?
Isso vai da filosofia e das convicções que cada clube tem de acordo com sua cultura, seu orçamento e planejamento. Agora, se o processo vem desde as categorias menores e, por geração, esses atletas forem despontando, transitando, dando retorno técnico para a equipe principal, ele vai dar retorno financeiro. A negociação pode vir a acontecer. E aí precisamos olhar para aquela cadeia de desenvolvimento de jogador, porque outros atletas estarão vindo também num processo.
É acreditar que a formação de atletas no futebol brasileiro vai ter objetivos anuais de entregar gerações subsequentes para a equipe principal que atendam às demandas do futebol profissional. Acho que é um olhar mais para isso e uma convicção de quem está na ponta da pirâmide, tomando as principais decisões.
Mas eu gostaria também de trazer que uma das preocupações do movimento foi levar à CBF uma proposta de aumentar o valor de indenização para transferências entre clubes no Brasil de 2 mil para 4 mil vezes o salário mensal médio combinado no contrato. Porque, hoje, para impactar essa multa nacional, o salário também tem que ser alto. E aí, quando começa um movimento desenfreado de altos salários para atletas de 16, 17 anos estamos fazendo mais mal do que bem. Porque existe uma hipervalorização precoce desse jogador.
Se conseguirmos avanços para alterar de 2 mil para 4 mil vezes, podemos manter salários razoáveis para uma faixa etária que ainda não se confirmou na equipe profissional. Esse é um dos pilares do diálogo do movimento com o GT da base e com a própria CBF.
A outra medida aprovada pelos clubes, e que não rendeu polêmica, foi a criação da lista sub-23. Também era uma demanda de vocês?
Ela vai ao encontro da valorização dos atletas. A CBF já teve iniciativas anteriores de criar um Campeonato Brasileiro de Aspirantes justamente para atender a essa demanda. Eu não sei exatamente o motivo da descontinuação, mas acredito que os clubes tenham uma parcela de responsabilidade nisso. Senão, a competição estaria acontecendo até hoje.
Inscrever 25 jogadores com idade livre e 25 abaixo de 23 anos fomenta o processo. Só que é apenas mais uma regra, e não é mágica. Mas é um exemplo que pode ser dado a título de fomentar essa valorização. Agora vamos ver os próximos capítulos dessas novidades.
Por falar em próximos capítulos, existe uma promessa de que, no mês que vem, seja votada a criação dos times B, que poderiam jogar em divisões inferiores. Como vocês veem essa medida?
Com bons olhos. Em grandes ligas do mundo, isso já é uma cultura longeva. Vai gerar mais emprego, mais oportunidade de desenvolvimento. São mais horas de exposição e de minutagem para jogadores que vão concluir seu ciclo formativo tendo um time B como opção de potencialização de talentos.
Há alguns anos estamos discutindo carências em algumas posições, como os laterais e, principalmente, os camisas 10. Por que isso está acontecendo no Brasil?
Isso é multifatorial. A forma de jogar futebol evoluiu. Ela está mais intensa. Atletas sub-17 batem 32, 33 km/h numa partida. Eles correm 12, 13 quilômetros num mesmo jogo. A gente acredita que tem a ver com esse contexto de competitividade, de um jogo cada vez mais intenso. Hoje há menos espaço para se tomar decisão por conta da compactação. Há exigência maior de velocidade de raciocínio. Há necessidade de antever uma resposta e ter uma ação motora para resolver um problema. Isso sempre foi característico do nosso futebol quando se tinha mais espaço. Então, eu preciso olhar um pouquinho para como o futebol evoluiu em nível global.
Mas, no meio de tudo isso, a gente ainda é o maior exportador de jogadores. A gente ainda tem o maior número de atletas de um mesmo país jogando nas principais ligas do mundo, nas principais competições europeias.
Eu vejo algumas discussões no próprio grupo do movimento sobre o quanto o futebol de rua, o quanto o futsal, o quanto essa cultura da prática livre de um esporte tão popular no nosso país contribuem para uma identidade de jogo. Isso é muito perceptível.
Você fala sobre as mudanças pelas quais o futebol passou. Mas a Argentina continua fornecendo grandes meias, assim como o Uruguai, a Espanha e outros países. Os camisas 10 não estão acabando no mundo. A sensação é de que é apenas no Brasil. O que está acontecendo?
É preciso olhar o quanto os modelos de jogo contribuem para isso desde a iniciação, passando pela formação. Você tinha o 4-4-2 quadrado, com dois volantes e dois meias. A gente olhava e tinha o meia-esquerda e o meia-direita. Hoje, esses dois acabam indo para as beiradas para cumprir uma segunda linha e se preocupar em fechar espaço, acompanhar o lateral ou o extremo oposto, dependendo do momento do jogo.
Então, acho que temos uma responsabilidade de, dentro dos nossos processos e cada um dentro do seu clube, não abrir mão de algumas convicções. E uma delas é não tirar o camisa 10 do lugar de 10. Acho que passa mais pelas nossas ações. Não empurrar ele para a beirada para ser um extremo, um ponta, um atacante de lado responsável por jogar naquele corredor. Não ter que buscar o fundo e fazer o cruzamento ou jogar no pé contrário para poder trazer para dentro e liberar espaço. Mas, sim, ele estar ali por dentro, com aquela capacidade cognitiva de buscar passes precisos e assistências.
Eu te confesso que também sinto falta disso. E nós, trabalhando na base, somos os principais responsáveis. A gente precisa ter convicção e coragem para que não peguem o camisa 10 e o empurrem para a beirada do campo para, na hora em que não estiver com a bola, preencher uma linha e ajudar a defender.
Você acha, então, que a tática está prevalecendo além da conta dentro da base?
Isso acontece em alguns momentos. A gente precisa, sim, se adequar às funções do futebol moderno. Mas também é do DNA do futebol brasileiro ter o camisa 10. E, se isso faz parte da nossa identidade, precisamos conscientizar, principalmente os treinadores da base, de que não vão ser avaliados somente pelo resultado obtido. Serão medidos pela qualidade com que formam e desenvolvem os jogadores para o clube.
Pode ser que, em prol da busca pelo resultado, alguns optem por sacrificar uma função, uma posição. Acabam preterindo o objetivo principal da base que é identificar, formar, desenvolver e fazer a transição desses meninos para a equipe principal.
Dentro do GT da base, um dos eixos de discussão é sobre calendário. Como estão as conversas?
A gente teve a oportunidade de ser escutado, de compartilhar tanto as nossas vitórias quanto as nossas preocupações em relação a calendário. Entendemos que a quantidade de jogos para uma categoria sub-17, sub-20 hoje é adequada, atende a nossa demanda de processo formativo. O que nós, como movimento, precisamos é pensar um pouco também em todos os clubes formadores desse ecossistema. Sabemos que há campeonatos em alguns estados do país que duram dois meses. E se esse clube não tem um calendário nacional, como fomentar o desenvolvimento ao longo de uma temporada se o período competitivo durou só dois meses?
Óbvio que há as dificuldades de um país de tamanho continental. Mas a CBF já tem, nos diálogos construídos no GT da base e com o próprio movimento, olhado para isso para trazer soluções que realmente fomentem o desenvolvimento da base da pirâmide.
Os clubes de Série A e alguns de Série B já têm seu calendário preenchido com competições estaduais, nacionais e internacionais. Mas e os outros? Então a nossa intenção é discutir o que vai beneficiar a cadeia toda.
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