O almirante que comandou o ataque em setembro contra um barco no Caribe, sob pretexto de que se tratava de uma embarcação do narcotráfico (algo nunca comprovado), prestou explicações a membros do Congresso dos EUA nesta quinta-feira, em meio a uma crise que já se espalha pelo Gabinete do presidente Donald Trump. Segundo denúncias publicadas pela imprensa do país, houve um segundo bombardeio ao mesmo barco, e que teria como única motivação “não deixar sobreviventes”, uma ordem que teria vindo do Departamento da Guerra.
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Frank Bradley chegou ao Capitólio na manhã desta quinta-feira, primeiro para uma audiência a portas fechadas na Comissão dos Serviços Armados da Câmara, depois no Senado, na comissão de mesmo nome. Como anunciado previamente, o depoimento foi dado a portas fechadas, mas o deputado democrata Jim Himes, membro da comissão, deu pistas sobre o teor da conversa.
— O que vi naquela sala foi uma das coisas mais perturbadoras que já presenciei em todo o meu tempo no serviço público — disse Himes, citado pela rede CNN, afirmando que também foram exibidas imagens do ataque. — Você tem dois indivíduos em evidente situação de perigo, sem qualquer meio de locomoção, com uma embarcação destruída, que são mortos pelos Estados Unidos.
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No dia 2 de setembro, um barco acusado de ligação com os cartéis do tráfico na América Latina foi destruído por um bombardeio americano, e imagens divulgadas pelo Pentágono mostram uma bola de fogo em alto mar. Mas como revelou a imprensa americana, houve um segundo ataque no mesmo local, que tinha como alvo dois sobreviventes no mar. Ao todo, 11 pessoas morreram nos dois bombardeios, acompanhados pelo secretário da Guerra, Pete Hegseth, por vídeo em tempo real. Aos jornalistas, Himes disse esperar que o vídeo do segundo ataque seja divulgado o quanto antes.
— Qualquer americano que veja o vídeo que eu vi, verá militares dos Estados Unidos atacando marinheiros náufragos, bandidos, bandidos, mas atacando marinheiros náufragos. Há todo um contexto que o almirante explicou. Sim, eles estavam carregando drogas. Eles não estavam em condições de continuar sua missão de forma alguma — afirmou Himes. — Um dia, as pessoas verão este vídeo e perceberão que ele mostra, se não tiverem o contexto mais amplo, um ataque a marinheiros náufragos.
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Desde o início de setembro, 21 barcos acusados de ligação com o narcotráfico foram atacados no Caribe e no Oceano Pacífico, deixando 83 mortos. As ações fazem parte da chamada Operação Lança do Sul, o maior deslocamento de forças militares dos EUA ao Caribe em décadas, e que inclui 15 mil soldados, aeronaves de combate e o maior porta-aviões da Marinha, o USS Gerald Ford. Oficialmente, o governo de Donald Trump afirma que o objetivo é conter a entrada de drogas em seu país, mas a Venezuela, comandada por Nicolás Maduro, afirma se trata de um plano para derrubá-lo.
Até hoje, não foram apresentadas evidências de que as pessoas a bordo dos barcos fossem narcotraficantes. E mesmo que o fossem, há um debate sobre a autoridade de Trump para lançar ataques em águas internacionais contra suspeitos de tráfico, com o claro objetivo de matar os tripulantes, ao invés de prendê-los e levá-los à Justiça. Neste contexto, as acusações de que os militares mataram náufragos ganham ainda mais peso.
— Mesmo que aceitemos o argumento de que os indivíduos a bordo dessas embarcações são combatentes, ainda assim seria ilegal matá-los se estiverem fora de combate, ou seja, incapacitados — disse Rebecca Ingber, ex-consultora jurídica do Departamento de Estado, ao jornal britânico Guardian. — É manifestamente ilegal matar alguém que naufragou. Este é um princípio fundamental e consagrado no direito dos conflitos armados.
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Após o segundo bombardeio ser revelado, o governo Trump entrou em modo de contenção de crise, à sua forma. Hegseth, que teria dado a ordem para “não deixar sobreviventes”, tentou se defender das acusações de crime de guerra, e deu a entender que a responsabilidade era toda de Bradley. Em reunião de Gabinete, na terça-feira, ele apoiou o militar, ao mesmo tempo em que buscava se eximir de culpa. Trump disse que não tinha muitas informações sobre o incidente. Aos jornalistas, Himes disse ter ouvido do almirante que não houve uma ordem superior para matar todo a bordo.
— Eu assisti ao primeiro ataque ao vivo..No Departamento de Guerra, temos muitas coisas para fazer, então não fiquei por lá, passei para minha próxima reunião — disse Hegseth, ao lado de Trump, na terça. — O almirante Bradley tomou a decisão correta ao afundar o barco e eliminar a ameaça.
No Congresso, onde a ofensiva caribenha de Trump já não tinha muito apoio, as críticas se acumulam.
— O secretário Hegseth disse que não tinha conhecimento disso e que não aconteceu. Era notícia falsa. Não aconteceu. E aí, no dia seguinte, do púlpito da Casa Branca, estão dizendo que aconteceu — disse o senador republicano Rand Paul, na terça. — Então, ou ele estava mentindo para nós ou ele é incompetente e não sabia que tinha acontecido.
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Tom Tillis, também republicano, disse que o responsável pela ordem de atacar duas vezes — seja Hegseth, seja Bradley — deve ser responsabilizado.
— Não é preciso ter servido nas forças armadas para entender que isso foi uma violação do código ético, moral e legal. Portanto, se os fatos se confirmarem da forma como estão sendo relatados, alguém precisa ser afastado de Washington — afirmou à CNN.
Em meio à crise ligada aos ataques no Caribe, um relatório do inspetor-geral interino do Pentágono, divulgado nesta quinta-feira, concluiu que Hegseth pôs tropas americanas no exterior em perigo ao discutir, em um grupo no aplicativo de mensagens Signal, planos para um ataque aéreo ao Iêmen. A conversa foi revelada por um jornalista da revista The Atlantic, incluído por engano no grupo, e ocorreu pouco antes de um bombardeio contra posições houthis em março. O relatório ainda acusa o secretário de não colaborar com o inquérito ao se recusar a prestar depoimento, preferindo enviar uma breve declaração por escrito. Hegseth não se pronunciou sobre as conclusões da investigação.

