No primeiro dia de funcionamento obrigatório do Jaé — novo sistema de bilhetagem que substitui o Riocard nos transportes municipais do Rio — passageiros encontraram, já na manhã do sábado, um cenário dividido entre acertos e tropeços. Enquanto a integração tarifária com o metrô funcionou normalmente para quem usava as linhas específicas previstas no modelo, especialmente em Botafogo, na Zona Sul do Rio, usuários com gratuidade enfrentaram obstáculos nos validadores e muita confusão sobre os diferentes tipos de cartão disponíveis.
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Na movimentada Rua Nelson Mandela, em Botafogo, na Zona Sul, ônibus das linhas 309, 538, 539, 548, 583 e 584 paravam em frente à estação do metrô formando fila. São essas as linhas que substituíram o antigo metrô de superfície e agora fazem parte da integração tarifária com o novo cartão Jaé. Para os passageiros desse trajeto, a operação ocorreu como prometido.
— Foi tudo certo. O Jaé está funcionando e a integração deu certo nessas linhas — contou a estudante Pâmela da Silva Machado, de 25 anos, que embarcou no ônibus 548, vindo do Terminal Alvorada, e depois seguiu de metrô a partir da estação de Botafogo. Pela viagem completa, pagou apenas R$ 7,90 — valor reduzido pela integração.
O novo modelo também agradou aos turistas. De Natal, no Rio Grande do Norte, o programador Lucas Moura, de 25 anos, e a namorada, Willyane da Silva, de 22, professora de balé, estão no Rio por 11 dias e conseguiram fazer o Jaé virtual pelo aplicativo. Hospedados em Botafogo, o casal circulou pela cidade com facilidade.
— Foi muito prático. Não moramos aqui, mas conseguimos fazer o Jaé rapidinho no celular. Já usamos no metrô e vamos usar no VLT no Centro também — contou Lucas.
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Mas nem todos os passageiros tiveram a mesma sorte. A estudante Manuela Firmino, de 17 anos, do Colégio Estadual Infante Dom Henrique, em Copacabana, se viu em dúvida diante da catraca do metrô de Botafogo, a caminho da Feira da Glória. Tinha em mãos dois cartões: o Jaé Laranjinha, que garante gratuidade no transporte municipal, e o Jaé preto recarregável, vinculado ao seu CPF. Como o primeiro não foi aceito no metrô, usou o segundo, após recarregá-lo com dinheiro do próprio bolso.
— Eu não sabia disso. Vou pedir esse cartão na escola. Acabei gastando do meu bolso para recarregar o Jaé preto — lamentou Manuela.
Segundo o MetrôRio, estudantes como Manuela têm direito ao cartão de gratuidade estudantil do próprio metrô, que deve ser solicitado pela escola. Com ele, teriam acesso gratuito ao sistema metroviário, sem necessidade de adquirir outro cartão.
Quem já conhece esse caminho é a aposentada Kátia Bezerra, de 69 anos, moradora da Tijuca. Ela usou seu cartão de gratuidade para idosos do metrô e passou normalmente pela roleta — sem precisar apresentar documentos ou misturar cartões do Jaé.
Por outro lado, nas estações onde a integração com o BRT é prevista — como Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca — o Jaé também funcionou conforme o esperado para usuários pagantes. O valor de R$ 9,70 foi cobrado corretamente na integração entre os dois modais, como no caso do aposentado Ivan Soraggi, de 77 anos, morador da Cidade Nova, que foi visitar o irmão na Barra.
— Por enquanto está tudo certo. A gente precisa se informar para não ficar perdido com esses cartões — afirmou Soraggi, que usou o Jaé de gratuidade e não teve problemas. O mesmo ocorreu com o neto dele, que utilizou o Jaé recarregável para acessar o sistema e também teve a tarifa reduzida reconhecida.
Mas a operação falhou para outros passageiros com direito à gratuidade. Na estação Jardim Oceânico, a cozinheira Jussara Medeiros, de 66 anos, moradora de Magé, na Baixada Fluminense, achou que conseguia acesso ao modal estadual com o Jaé, mas teve que mostrar a identidade aos funcionários para ter sua entrada liberada. Seu cartão Jaé laranja não foi reconhecido pelos validadores do metrô.
— Estou andando com dois cartões, o Riocard e o Jaé. Achei que hoje a integração com o metrô já funcionaria para a gratuidade, mas a máquina não reconheceu o cartão laranja — contou ela, que trabalha na Zona Sul e faz o trajeto diariamente.
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Funcionários da estação confirmaram que os validadores ainda não estão aptos a processar gratuidades do Jaé. E o problema não se limitou às gratuidades. A manicure Jocélia Soares, de 42 anos, moradora do Alto da Boa Vista, utilizou o aplicativo do Jaé para embarcar num ônibus e depois seguir no metrô, acreditando que se beneficiaria da integração. No entanto, foi tarifada duas vezes — sem direito à tarifa reduzida.
— Acho isso um absurdo. Com o Riocard, eu pagava mais barato. Agora, com o Jaé, paguei duas passagens inteiras e meu saldo já foi embora — criticou Jocélia.
É que, diferente das linhas que substituíram o metrô de superfície, nem todas as combinações entre ônibus e metrô dão direito à integração com valor reduzido. Nesses casos, o Jaé cobra as duas tarifas inteiras, o que acaba penalizando usuários que circulam apenas dentro do município. Já quem vem de outros municípios com o Bilhete Único Intermunicipal (BUI) ou a Tarifa Social, um benefício estadual, paga menos.
A discrepância pode chegar a R$ 4,05, praticamente o valor de uma nova passagem de ônibus, que custa R$ 4,70. Ou seja, usuários de baixa renda que moram no município e pegam duas conduções podem acabar pagando mais do que quem atravessa a cidade vindo com benefícios estaduais.
Durante a apresentação do Plano Estratégico da cidade, em que a Prefeitura do Rio lançou no sábado para 2025-2028, o vice-prefeito Eduardo Cavalieri reconheceu os desafios do novo modelo de bilhetagem, mas disse estar confiante no projeto.
— Estamos felizes com o Jaé. Sabemos das questões atuais, mas já tínhamos dito que teríamos problemas iniciais. É uma transição com três milhões de pessoas, então demanda um tempo até acertarmos tudo — afirmou.
A prefeitura monitora o fim de semana para avaliar os pontos positivos e negativos e preparar os ajustes necessários para a próxima semana.
— Segunda-feira também será difícil, mas estaremos de olho para arrumar os pontos negativos o mais breve possível. Nessa primeira etapa do Jaé, nosso objetivo é ter o controle das informações do transporte. Mas tenho certeza que até o final do mês já teremos uma experiência bem melhor do que a desse fim de semana — completou Cavalieri.
Entenda as integrações:
Metrô + BRT: passageiros que embarcarem ou desembarcarem no metrô nas estações de Vicente de Carvalho (Linha 2) ou Jardim Oceânico (Linha 4) pagam R$ 9,70 na integração com o BRT, independente da renda. Sem a integração, os passageiros pagariam R$ 12,60.
Metrô + ônibus municipal (antigo metrô de superfície): os passageiros das linhas 309, 538, 539, 548, 583 e 584, que passam por Botafogo, Praça Antero de Quental e Gávea, que substituíram o metrô de superfície, pagam apenas a passagem do metrô, de R$ 7,90.
Metrô + van: os usuários das vans que atendem Rocinha e Vidigal, pagam R$ 8,80 na integração com o metrô.
Metrô + transportes intermunicipais: há dois casos para os passageiros que fazem viagens intermunicipais: quem ganha menos de R$ 3.205,20, e possui o benefício do Bilhete Único Intermunicipal, que oferece desconto nas passagens; e quem ganha mais de R$ 3.205,20 e usa o RioCard Mais, pagando o valor cheio das passagens. Veja abaixo como vai funcionar a integração.
Com Bilhete Único Intermunicipal (BUI): os benefícios estaduais, como o Bilhete Único Intermunicipal (BUI) e a Tarifa Social continuarão sendo oferecidos exclusivamente por meio do cartão RioCard. Com eles, os passageiros pagam valores reduzidos de R$ 5 no metrô e nos trens e R$ 4,70 nas barcas.
Ou seja, o usuário do Bilhete Único Intermunicipal pode continuar usando o cartão RioCard para os transportes intermunicipais e municipais, no validador do RioCard. Assim, a integração com o metrô segue o padrão atual:
- Metrô + trem: R$ 8,55.
- Metrô + ônibus intermunicipal: R$ 8,55.
- Metrô + barcas: R$ 8,55.
Sem Bilhete Único Intermunicipal (BUI):
Se a pessoa usar o RioCard Mais para o transporte intermunicipal, mas não for beneficiária do Bilhete Único (quem tem salário maior que R$ 3.205,20), deverá ter os dois cartões: o RioCard para o ônibus intermunicipal, e o Jaé para circular nos ônibus e demais modais municipais, pagando duas tarifas cheias
