No universo cinzento das internações longas, onde a rotina é marcada pela dor e pela ansiedade clínica, há um agente de cura que chega em silêncio, com um rabo balançando e um focinho úmido. Desde 2010, o Projeto Pêlo Próximo atua como uma ponte que liga o amor incondicional dos cães à recuperação de seres humanos em momentos de vulnerabilidade, levando a Terapia Assistida por Animaisa hospitais públicos e privados do Rio.
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Quinze anos após sua fundação, a ONG celebra sua trajetória com o lançamento do Calendário 2026 e um documentário sobre sua história. O evento acontece hoje, a partir das 11h, no Patas & Rolhas, na Tijuca, e reunirá os voluntários e os cães que, diariamente, transformam o ambiente hospitalar. O tema do calendário, “Corações que amam, patas que transformam”, resume a missão.
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A força desse trabalho ganha ainda mais evidência com o sucesso do filme “Caramelo”, na Netflix, que mostra a visita de um cão a um paciente com câncer. O cinema apenas espelha o que a ciência e a prática vêm comprovando: a interação com os cães não é só entretenimento, mas sim um poderoso complemento não farmacológico ao tratamento médico, ressalta Roberta Araújo, coordenadora-geral do Pêlo Próximo. Ela recorda o nascimento do projeto e a certeza de sua missão.
— O Pelo Próximo nasceu com a missão de ser a ponte que liga o amor incondicional dos cães à recuperação e ao conforto dos seres humanos em momentos de vulnerabilidade. Nosso objetivo inicial era levar os Serviços Assistidos por Animais no Brasil ao padrão internacional de excelência — explica Roberta.
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A fundação, motivada pela “ciência da empatia” e pela “urgência da estrutura”, buscava provar que o carinho, com metodologia e protocolo robusto, é a melhor das terapias. O momento-chave, segundo Roberta, foi testemunhar a quebra da barreira emocional dos pacientes:
— Imagine uma pessoa que está há semanas internada, apática, resistindo aos tratamentos. No instante em que um dos nossos cães de terapia entram no quarto, o sorriso surge instantaneamente, a mão se estende para o toque e a voz se eleva. A dor, o medo e a solidão da internação são substituídos pela simples alegria.
Nos seus 15 anos, completados em outubro, o projeto evoluiu de um movimento de paixão voluntária para uma associação sem fins lucrativos (ONG) com equipe técnica multidisciplinar (gerontólogos, fisioterapeutas, psicólogos, veterinários). A atuação foi além das visitas do Programa de Apoio Assistido por Animais e se aprofundou em planos de Tratamento Assistido por Animais, com objetivos específicos de saúde, como reabilitação física ou da fala.
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Hoje, o time do Pêlo Próximo conta com 21 cães de terapia, além de aproximadamente 40 voluntários que atuam sem animais, oferecendo suporte na logística, na preparação de ambientes e no acompanhamento das visitas. Entre as principais unidades hospitalares parceiras, destacam-se: Hospital Rios D’Or, Hospital São Lucas Copacabana, Dasa Oncologia, Pró-Cardíaco, Hospital Antonio Pedro, Hospital Estadual da Criança e Hospital Federal Cardoso Fontes. Além dos hospitais, o Pêlo Próximo realiza visitas em Casas de Longa Permanência.
— A grande lição de 15 anos é que o amor, quando aplicado com método e segurança, transforma vidas em todas as pontas da interação. Se me perguntassem qual a única palavra que define a essência, eu responderia: “Conexão” — resume a coordenadora.
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O impacto do trabalho vai além do emocional, atuando diretamente na reabilitação e no resgate da vontade de viver. Um dos casos mais marcantes na história do Pêlo Próximo é o de Dona Rosa, uma idosa que, apesar de curada de uma infecção, havia desenvolvido um grave quadro de depressão, com apatia e recusa alimentar, impedindo sua alta.
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A equipe acionou a terapia com a cadela Mô. Após a aproximação e, em um passo crucial, a paciente foi levada para uma área externa para interagir com a cadela. O ponto de virada veio com um protocolo alimentar.
— Pedimos seu auxílio pedagógico. Ela deveria “ensinar” a Mô a mastigar e engolir o alimento. Esse simples artifício reativou seu senso de propósito e sua identidade, desviando o foco de sua própria inapetência para a tarefa de cuidar — relata Roberta.
O estímulo foi tão poderoso que reverteu o quadro. Dona Rosa recebeu alta uma semana após a intervenção.
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Michèlle Ávila, psicóloga supervisora do Hospital Estadual da Criança, confirma que a transformação é visível em tempo real nas alas pediátricas.
— Antes das visitas, muitas crianças ficam retraídas e ansiosas. Depois do encontro com os cães, observamos uma melhora imediata no humor, mais disposição para participar das atividades e até redução das queixas de dor. Elas sorriem mais e retomam comportamentos próprios da infância — explica.
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Um desses casos é o de Maria Clara Rodrigues Lourenço, de 11 anos, paciente pós-transplante renal internada por uma intercorrência clínica.
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— Maria Clara demonstrou grande entusiasmo após a visita, sorrindo bastante e fazendo questão de contar como tinha sido a experiência. Naturalmente, ela é mais retraída, com pouca receptividade, e costuma interagir apenas com alguns profissionais específicos da equipe. No entanto, depois do encontro com os cães, mostrou-se mais disponível e tranquila, aceitando com maior facilidade procedimentos e intervenções — relata Michèlle.
Soraya de Azevedo, voluntária do projeto Pêlo Próximo, encontrou na Terapia Assistida por Animais um elo profundo com a própria trajetória. Em 2000, após um grave acidente na Califórnia (EUA) que a deixou quase dez dias em coma, ela passou por um longo período de internação e reabilitação. Nesse processo, a visita de um cão terapeuta marcou sua recuperação: segundo familiares, era o momento em que ela demonstrava mais alegria, reagia melhor e aparecia sorrindo.
Anos depois, já de volta ao Brasil e totalmente reabilitada, decidiu retribuir o carinho que recebeu. Buscou a ONG para oferecer a outros pacientes o conforto que um dia a ajudou a se recuperar, movida, como diz, pelo desejo de devolver “o amor incondicional” dos cães.
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Hoje, Soraya afirma que o voluntariado transforma tanto quanto acolhe:
— Acredito que nós voluntários recebemos mais do que doamos e que cada visita é capaz de renovar a esperança de quem está internado e também a nossa.
O sucesso do Pêlo Próximo depende do rigor dos protocolos de biossegurança e da dedicação dos cães e seus condutores. A rotina de preparo dos bichos é intensa: banho com xampu específico, assepsia com clorexidina antes e depois de cada visita, higiene bucal e acompanhamento veterinário rigoroso. A voluntária Daniele Marques, que é enfermeira e condutora da golden Bella, resume o impacto na ala hospitalar:
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— É difícil falar de apenas um momento, mas acho que as visitas a pacientes em cuidados paliativos são as mais especiais. Aprender com o meu cão é valorizar os pequenos gestos, as pequenas alegrias, a felicidade simples do dia a dia.
Patrícia Calainho, condutora da SRD (sem raça definida) de três patas Penélope, conta que a motivação para se juntar ao projeto veio da experiência de acompanhar a avó em cuidados paliativos. Ela testemunhou o ganho real das intervenções:
— Com um menino de 10 anos, autista e com deficiência visual, que se automutilava, os ganhos eram mensurados. Ele iniciou o tratamento sempre deitado, mas após algum tempo abriu os braços espontaneamente para abraçar Penélope, com um sorriso que nos encantava. Passou a caminhar com apoio, guiando Penélope nos exercícios.
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Ana Borges, professora e condutora do golden Bento, também reforça a troca:
— A maior recompensa emocional desse trabalho é saber que nosso esforço tem impacto real em tantas vidas, o que nos faz sentir mais capazes e úteis. Levamos amor e conforto, mas recebemos também. Nossas ações nos ajudam a reduzir a tensão emocional e mudar o foco dos nossos problemas.
No contexto da saúde, o amor incondicional dos cães transcende o mero sentimento. Eles oferecem aceitação total e plena, sem se importar com o diagnóstico ou as limitações físicas do paciente.
— O cão atua como um poderoso restaurador da dignidade humana. O simples ato de tocar ou ser reconhecido pelo animal devolve ao paciente a sensação de ser importante e amado — diz Roberta.
O toque de pata atua no efeito bioquímico, liberando oxitocina (hormônio do vínculo) e serotonina, enquanto reduz o cortisol (hormônio do estresse), transformando o estado de alerta da internação em calma e conforto.
— A cura que chega de um focinho úmido e um olhar doce é a cura da alma. É a capacidade de transformar a dor e o medo em esperança, conforto e resiliência — conclui Roberta.
A celebração dos 15 anos se completa com o documentário “Projeto Pêlo Próximo”, lançado no canal do YouTube TU VENS.
Tanto o calendário “Corações que amam, patas que transformam” quanto o documentário buscam dar visibilidade a essa missão.
A totalidade do valor gerado pela venda dos calendários é revertida para a sustentabilidade e a expansão do projeto. Após o lançamento hoje, a compra pode ser realizada na Lojinha Oficial: www.lojapeloproximo.com.br.

