Entre o mar da Restinga da Marambaia e o manguezal de Guaratiba, a música tem servido, há 24 anos, como instrumento de transformação social e de conscientização ambiental. Criado em 2002, o projeto Flautistas da Marambaia une educação musical, arte e preservação da natureza para aproximar crianças e adolescentes do território onde vivem, mostrando que o mangue, muitas vezes associado apenas à pobreza e à sujeira, também é patrimônio natural, cultural e motivo de orgulho para a comunidade.
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Atualmente, cerca de 50 alunos participam das aulas de flauta doce, flauta transversal, canto, teatro, dança e expressão corporal. Mais do que ensinar música, a iniciativa utiliza a arte como ferramenta para fortalecer a autoestima, despertar o sentimento de pertencimento e incentivar a preservação ambiental. A partir deste ano o projeto começou a funcionar como residente no Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, ampliando ainda mais o contato dos estudantes com a natureza.
Criado pela professora e musicista Claudia Ernest Dias, o Flautistas da Marambaia nasceu na Escola Municipal Professor Vieira Fazenda, onde as aulas de flauta eram oferecidas voluntariamente no contraturno escolar. A proximidade da escola com o mar e o manguezal fez com que o projeto incorporasse, naturalmente, a educação ambiental à formação dos alunos.
— Acredito profundamente no alcance e no valor da música na infância e na juventude. O contato com a Música Popular Brasileira oferece uma bagagem de conhecimentos musicais e poéticos de grande relevância — diz Claudia.
Foi justamente a realidade das crianças que definiu os rumos do projeto.
— Os alunos vêm dessa realidade. Eles respiram todo aquele meio ambiente. Eram filhos e netos de catadores de caranguejo, pescadores e surfistas. Quis associar essa vivência às expressões artísticas, principalmente à música. Pela arte, essas crianças passam a ocupar um lugar de protagonismo — afirma.
Ao longo dos anos, músicos, pesquisadores e educadores ambientais passaram a integrar o projeto. O repertório, baseado na Música Popular Brasileira e em canções regionais e folclóricas, aproxima os estudantes da cultura oceânica e da biodiversidade local.
O projeto iniciado na Escola Professor Vieira Fazenda, em Barra de Guaratiba, já atendeu mais de 1.200 crianças e jovens da região e recebeu reconhecimentos como o Prêmio Light nas Escolas e o título de Decade Project, concedido pela Unesco no âmbito da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável.
Alunos do projeto Flautistas da Marambaia, durante ação “Meninos do Mangue”
Divulgação/Andrea Nestrea
Desde o ano passado, a iniciativa passou a ser gerida pelo Instituto Timbre, ampliando sua estrutura e a captação de recursos por meio de leis de incentivo.
— O projeto nasceu da dedicação voluntária da professora Claudia, cresceu graças a muitas parcerias e hoje consegue caminhar de forma mais estruturada. Esse processo nos permite pensar em sustentabilidade e expansão, sem perder a essência do trabalho desenvolvido desde o início — afirma a presidente do Instituto Timbre e gestora do projeto, Luiza Sales.
Quando o Flautistas da Marambaia passou a funcionar como residente do Burle Marx, foi possível ampliar o atendimento para crianças de outras escolas públicas da região e estreitar a relação da comunidade com um patrimônio muitas vezes pouco frequentado pelos próprios moradores.
— Estamos em um grande museu natural a céu aberto. Muitos pais contaram que nunca tinham entrado no sítio. Queremos que a comunidade reconheça esse espaço como um equipamento cultural que também pertence a ela — destaca Luiza.
Essa conexão entre arte e natureza se tornou a principal marca do Flautistas da Marambaia. No projeto, a educação ambiental está presente em todas as atividades. Enquanto aprendem uma música, os alunos discutem o significado das letras e conhecem espécies presentes no manguezal. E no teatro, por exemplo, reproduzem em atividades cênicas movimentos e sons encontrados na natureza. Mais do que ensinar sobre preservação, o projeto busca fortalecer um sentimento que, segundo Luiza, faz diferença na formação dos estudantes: o pertencimento.
A proposta ganha ainda mais relevância diante do cenário ambiental atual. Segundo a Unesco, os manguezais do planeta perderam cerca de metade de sua cobertura nas últimas décadas, comprometendo um ecossistema fundamental para a biodiversidade marinha, a proteção da costa e o enfrentamento das mudanças climáticas. Ao aproximar as crianças desse ambiente desde cedo, o Flautistas da Marambaia busca formar multiplicadores da preservação dentro da própria comunidade
— Queremos que essas crianças sintam orgulho do lugar de onde vieram. Elas conhecem o mangue, conhecem os ciclos da natureza, mas muitas vezes existe um estigma em relação a esse modo de vida. Quando entendem a importância desse território para o meio ambiente e para a cultura brasileira, passam a enxergar tudo isso com outros olhos — diz Luiza.
Os reflexos aparecem também no desenvolvimento pessoal dos participantes. De acordo com a presidente do projeto, pais e responsáveis relatam mudanças na autoestima, na concentração, na comunicação e na confiança das crianças. Alguns ex-alunos seguiram carreira artística, como a atriz Niara e o flautista Tiago Lima.
— As crianças aprendem a se expressar melhor, desenvolvem habilidades corporais e descobrem talentos que muitas vezes nem imaginavam ter. Não queremos formar apenas músicos. Queremos oferecer ferramentas para que elas se coloquem no mundo de forma mais criativa e sensível e sejam capazes de transformar a própria realidade — afirma Luiza.
Agora, o Flautistas busca ampliar seu alcance. Em agosto, o Instituto Timbre realizará, em Macaé, no Norte Fluminense, a primeira formação voltada a professores da rede pública, com a expectativa de levar a metodologia desenvolvida em Barra de Guaratiba para outros municípios.
Para Claudia Ernest Dias, a idealizadora do projeto, o maior sonho é ampliar esse alcance.
— Meu maior sonho é que a música e todas as artes possam chegar a crianças de diferentes classes sociais e que aquelas em situação de maior vulnerabilidade tenham as mesmas oportunidades que uma criança de classe média. Que a Música Popular Brasileira e a educação musical de qualidade alcancem um grande número de jovens, principalmente os oriundos do nosso Brasil profundo — diz.
É essa missão que Luiza resume em uma metáfora inspirada no próprio manguezal:
— O mangue é um berçário da vida marinha. O nosso projeto também é um berçário. Estamos cultivando quem serão os próximos adultos. Ao transformar a vida dessas crianças, também ajudamos a transformar o território ao redor delas.
No momento, há vagas abertas somente para o turno da manhã, e as inscrições podem ser realizadas via WhatsApp, no telefone (21) 96718-5725, ou a partir de um formulário disponível no Instagram @flautistasdamarambaia.
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