BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result
No Result
View All Result
BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result

Propaganda ganha nova roupagem com avanços da IA e restrições ao jornalismo

BRCOM by BRCOM
julho 31, 2025
in News
0
A primeira imagem mostra um propaganda americana da Segunda Guerra Mundial, após o ataque de Pearl Harbor, que ilustra japoneses como "inimigos"; na segunda imagem, um cartaz anti-espionagem mostra um militar pedindo silêncio pois "o inimigo está sempre ouvindo" — Foto: Reprodução/Arquivo

Dos cartazes patrióticos da Primeira Guerra às deepfakes geradas por inteligência artificial, poucos campos mudaram tanto em um século quanto a comunicação, especialmente quando usada como arma de guerra. Se nos anos 1990 o mundo testemunhou, pela primeira vez, bombardeios transmitidos ao vivo durante a Guerra do Golfo, hoje não é preciso nem ligar a TV: as imagens chegam direto à palma da mão, sem passar por jornalistas. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, apesar da revolução nas ferramentas, a propaganda ainda repete fórmulas antigas.

  • Direito da guerra: Crimes de guerra compartilhados em tempo real desafiam instituições e evidenciam limites da Justiça global
  • Novas tecnologias: ‘Azarões’ criam inovações táticas e forçam potências militares a repensarem estratégias

Segundo Vinicius Mariano de Carvalho, professor de Comunicação Estratégica no Departamento de Guerra do King’s College, embora a primeira grande referência sobre propaganda seja Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, as suas estratégias são anteriores à Segunda Guerra e são recicladas ao longo da História. De acordo com o professor, “da mesma maneira que as tecnologias bélicas, as comunicacionais também avançam”.

— Em toda situação de guerra, um ator vai dizer que “não quer a guerra, é o inimigo que está nos fazendo ir para a guerra”. Isso de certa forma define a maneira de se narrar conflitos até hoje — explica Carvalho, elencando algumas táticas comuns: — A propaganda também diz que o inimigo que é inerentemente mau e argumenta que defende uma causa nobre. Também é preciso mostrar que o inimigo está sofrendo baixas, buscar artistas que apoiem a causa e tachar aqueles que duvidam dela de traidores.

A primeira imagem mostra um propaganda americana da Segunda Guerra Mundial, após o ataque de Pearl Harbor, que ilustra japoneses como “inimigos”; na segunda imagem, um cartaz anti-espionagem mostra um militar pedindo silêncio pois “o inimigo está sempre ouvindo” — Foto: Reprodução/Arquivo

  • Duelo: Falta de experiência em combate põe em xeque crescente poder militar da China na disputa com EUA

Conteúdo:

Toggle
  • Influenciadores no front russo-ucraniano
  • Desinformação na África
  • Jogo de narrativas sobre Gaza
  • Guerra digital entre Irã e Israel
  • Retórica bélica dos EUA
      • Propaganda ganha nova roupagem com avanços da IA e restrições ao jornalismo

Influenciadores no front russo-ucraniano

Enquanto alguns símbolos se repetem, a grande novidade na guerra informacional hoje é a multiplicação de atores envolvidos no processo. Para Carvalho, não há mais um público-alvo, mas interlocutores que também influenciam a narrativa:

— Qualquer um que recebe uma mensagem hoje, a mensagem não termina nele. Com isso, a gente cria um mecanismo muito complexo de comunicação. Não se controlam mais narrativas, se moldam direcionamento de fluxo de mensagens. No passado, quando havia aquela ideia de uma mídia de massa, se poderia pensar num público-alvo e em direcioná-lo ideologicamente. Hoje isso é uma decisão algorítmica.

Entre o cardápio de opções disponíveis, uma das apostas têm sido investir em influenciadores. Na guerra entre Rússia e Ucrânia, blogueiros russos se tornaram um canal alternativo de informação em redes como o Telegram. No entanto, algumas organizações apontam que há uma ação orquestrada para isso.

Blogueiro russo Alexander Kots, defensor da guerra, cobra até R$ 5 mil por post no seu canal no Telegram, com milhares de seguidores — Foto: Reprodução/Redes sociais
Blogueiro russo Alexander Kots, defensor da guerra, cobra até R$ 5 mil por post no seu canal no Telegram, com milhares de seguidores — Foto: Reprodução/Redes sociais

De acordo com uma denúncia da ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF), o Kremlin financia uma escola online de “correspondentes de guerra” que serviria, na verdade, como centro de ensino de propaganda pró-Moscou. Em 2023, a instituição teria recebido uma bolsa de quase 100 mil euros do fundo presidencial russo para iniciativas culturais, segundo a RSF. Em dezembro daquele ano, o curso divulgou ter mais de mil alunos matriculados.

  • Entenda: Com drones e robôs autônomos, evolução no campo de batalha desafia direito internacional

Desinformação na África

Longe dali, o poder dos influencers também já foi testado. Em maio, influenciadores autodenominados pan-africanistas ajudaram a promover conteúdos falsos sobre um golpe de Estado que estaria em curso na Costa do Marfim. Imagens manipuladas de soldados nas ruas tomaram as redes sociais, e reportagens geradas por inteligência artificial chegaram a acumular milhões de visualizações no YouTube, conta uma reportagem da BBC.

Print de um dos conteúdos de desinformação mais populares sobre o assunto no YouTube — Foto: Reprodução/YouTube
Print de um dos conteúdos de desinformação mais populares sobre o assunto no YouTube — Foto: Reprodução/YouTube

Os rumores surgiram num momento de ebulição social. Após diversos países da região do Sahel sofrerem golpes militares nos últimos anos, a Costa do Marfim rompeu laços com um dos seus principais vizinhos, Burkina Faso, cujo líder, o capitão Ibrahim Traoré, é um ícone dos pan-africanistas. Como pano de fundo da sua popularidade está uma crescente rejeição ao Ocidente na África, que analistas apontam ter sido impulsionada por Moscou. Em 2023, redes de desinformação ligadas ao Grupo Wagner — milícia financiada pelo Kremlin — teriam tentado espalhar rumores de um golpe no Níger, segundo o Centro Africano de Estudos Estratégicos do Pentágono.

  • Leia também: Influenciadores estimulam ‘caçadas’ a pessoas LGBTQIA+ na Costa do Marfim, país considerado ‘refúgio’ para comunidade

Na avaliação do coronel Rafael Almeida, especialista em Defesa e Estratégia e ex-oficial da ONU no Sudão do Sul, há muito tempo a África é palco de disputas geopolíticas em que a propaganda é central:

— Na Guerra Fria, havia uma disputa muito grande entre União Soviética e Estados Unidos por influência na África. Havia diversos interesses externos em estar alinhado com aqueles países, que já estavam começando o processo de independência. Ao mesmo tempo, a China influenciava com uma comunicação voltada para a libertação em si, independente do que fosse vir a ser daqueles países depois — contextualiza Almeida. — Isso tem reflexos até hoje: muitos países mantêm alianças com Pequim por gratidão.

  • Entrevista: ‘Dados digitais são o novo ouro de conflitos como o da Ucrânia’, afirma especialista norueguês

Jogo de narrativas sobre Gaza

Na Faixa de Gaza, onde jornalistas internacionais não têm acesso por proibição israelense, civis palestinos conquistaram milhões de seguidores compartilhando nas redes a realidade no enclave. Israel, por sua vez, dobrou o tamanho da equipe de comunicação das Forças Armadas (IDF) para mais de 200 pessoas, segundo a revista Time. A estratégia inclui um social media dedicado a documentar o cotidiano dos soldados, tours por túneis do Hamas com a imprensa e anúncios em plataformas como YouTube e até o jogo Angry Birds.

Apesar da abundância de vídeos, a restrição aos veículos de imprensa no enclave dificulta a compreensão dos fatos. Hoje, apenas meios de comunicação que já tinham jornalistas palestinos no seu quadro cobrem o conflito in loco, com todos os riscos envolvidos para eles. Neste mês, as agências de notícia AFP, Reuters e Associated Press, além da rede britânica BBC, publicaram uma declaração conjunta exigindo o livre acesso de jornalistas a Gaza, afirmando temer que seus colaboradores não sobrevivam à fome.

  • Início da guerra: Em um mês, número de jornalistas mortos no conflito Israel-Hamas é mais que o dobro da guerra na Ucrânia

Ao menos 180 profissionais da imprensa foram mortos desde o início da guerra em Gaza, segundo o Centro de Proteção a Jornalistas (CPJ). Quase 70% de todos os jornalistas mortos em 2024 eram palestinos, aponta o CPJ. O ano também foi o mais letal para jornalistas da série histórica, superando o recorde de 2007, quando 113 profissionais morreram, quase metade cobrindo a invasão americana ao Iraque.

Do lado israelense, por sua vez, à exceção do jornal Haaretz, a maioria dos veículos ignora a emergência humanitária dos palestinos no conflito, aponta Monique Sochaczewski, pesquisadora no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e especialista em Oriente Médio. Segundo ela, ainda há outros atores importantes na balança, como a rede al-Jazeera e a mídia turca, que mantêm equipes em Gaza:

— Quando se fala do conflito Israel-Gaza, há um jogo de narrativa que inclusive faz parte das estratégias de guerra. Se você olha para a mídia israelense, eles são uma estrutura militar. Quando falam de Gaza, só mostram os reféns, os soldados e um pouco das questões internacionais. Apenas recentemente começaram a falar um pouco mais do drama dos palestinos. Nessa batalha de narrativas no Oriente Médio, ainda existe a al-Jazeera, que pertence à família real do Catar, aliada do Hamas. E há também a mídia turca, que acaba sendo uma fonte muito importante no resto do mundo.

Além da disputa na mídia tradicional, o conflito entre Israel e Hamas foi o primeiro que eclodiu no momento em que a inteligência artificial já estava inserida no dia a dia das pessoas. Um dos conteúdos de IA mais marcantes da guerra foi publicado pelo presidente americano, Donald Trump. O vídeo, postado após o republicano sugerir transformar o enclave na “Riviera do Oriente Médio”, mostrava a sua visão de futuro, com hotéis luxuosos, turismo à beira-mar e odaliscas.

Imagens do vídeo gerado por IA em que Trump apresenta sua "versão" de Gaza — Foto: Reprodução/Truth Social
Imagens do vídeo gerado por IA em que Trump apresenta sua “versão” de Gaza — Foto: Reprodução/Truth Social

Guerra digital entre Irã e Israel

Impulsionada pela inteligência artificial, a guerra entre Israel e Irã, em junho, atingiu um novo patamar de sofisticação em nível de propaganda. Às vésperas do bombardeio israelense à prisão de Evin, em Teerã, conhecida por abrigar presos políticos, posts em persa começaram a viralizar nas redes sociais iranianas pedindo para que civis libertassem os detidos. Na mesma época, uma rede de contas no X, atribuída a Israel, teria difundindo mensagens em persa minando a confiança no regime iraniano, inclusive por meio conteúdos narrados por uma mulher jovem gerada por IA, revelou uma reportagem do New York Times.

  • Contexto: Ataque mortal de Israel à prisão iraniana de Evin, símbolo de opressão, transforma-a em grito de resistência

Do lado iraniano, mensagens em hebraico foram disparadas para celulares israelenses com alertas falsos sobre ataques atingindo abrigos antiaéreos. Teerã também teria divulgado boatos, como a captura de uma pilota israelense, que depois foram desmentidos, segundo o jornal americano. Dados da NewsGuard, empresa que monitora desinformação online, apontam que o regime iraniano veiculou ao menos 28 alegações falsas em diferentes plataformas, do YouTube ao Telegram, usando a imprensa estatal, influenciadores ou contas anônimas.

Mesmo após o cessar-fogo, os esforços de propaganda persistiram. O Irã iniciou uma caça aos espiões após vir a público que alguns ataques foram fruto de sabotagem interna. A paranoia levou a uma escalada da repressão, mirando tanto a dissidência política quanto refugiados afegãos, acusados de colaborarem com Israel. Em 15 dias, mais de 500 mil afegãos foram expulsos do território iraniano, segundo a ONU.

Ônibus de deportação do Irã deixam afegãos na fronteira em meio a rumores não comprovados de espionagem — Foto: Mohsen KARIMI / AFP
Ônibus de deportação do Irã deixam afegãos na fronteira em meio a rumores não comprovados de espionagem — Foto: Mohsen KARIMI / AFP

Internamente, a comunicação tem tido um papel fundamental para alimentar sentimentos de desconfiança. Segundo o relator especial da ONU para o Afeganistão, Richard Bennett, “há relatos de incitação à discriminação e à violência na mídia [iraniana], que rotula afegãos e comunidades minoritárias como traidores e usa linguagem desumanizante”, escreveu em um post no X. Um dos conteúdos de maior alcance foi uma reportagem exibida na imprensa estatal em que um suposto espião afegão confessa ter recebido US$ 2 mil para fornecer informações sobre locais estratégicos.

— O regime está se aproveitando disso para expulsar afegãos do Irã — afirma Sochaczewski. — De maneira geral, é muito comum se aproveitar de um contexto de guerra para perseguir outros grupos.

Retórica bélica dos EUA

Mesmo sem estar envolvido em um conflito aberto, os Estados Unidos mantêm a retórica bélica no centro da sua estratégia de comunicação. Sob o governo Trump, a figura do inimigo tem sido encarnada sobretudo pelos imigrantes, a quem acusa de invadir o país. Um dos atos mais simbólicos foi a invocação da Lei do Inimigo Estrangeiro, de 1798, que só havia sido adotada antes em contextos de guerra, e permite a deportação sumária de estrangeiros de nações “inimigas”. Segundo Lucas Martins, professor de História dos EUA na Universidade Temple, a tática não é nova:

— Existe na cultura americana a leitura de que há sempre um inimigo dentro dos Estados Unidos. Na Guerra Fria, eram os comunistas e espiões da União Soviética; no 11 de Setembro, a população árabe. Agora, passa-se a associar a população imigrante às mazelas econômicas. Neste momento, é a dificuldade de conquistar hoje o chamado de sonho americano.

  • Política do espetáculo: Com entraves para cumprir promessa de deportação, Trump adota ações midiáticas

Para Martins, uma peça-chave da propaganda americana é defesa da democracia, que tem origem no conceito de “destino manifesto”:

— O destino manifesto é responsável por essa ideia de que está no coração dos americanos expandir a civilização e a democracia pelo mundo, não somente por um ideário ideológico e político, mas também comercial. Quando pensamos na política externa americana, a defesa da democracia é fundamental no discurso para justificar intervenções desde a Guerra Hispano-americana.

Quadra de um dos livros da série "Destino Manifesto", baseada nas expedições promovidas por Thomas Jefferson para ampliar o território americano sentido oeste — Foto: Divulgação
Quadra de um dos livros da série “Destino Manifesto”, baseada nas expedições promovidas por Thomas Jefferson para ampliar o território americano sentido oeste — Foto: Divulgação

Propaganda ganha nova roupagem com avanços da IA e restrições ao jornalismo

Previous Post

Após ondas gigantes, cinco pinguins aparecem mortos na orla do Rio

Next Post

Frio e ar seco permanecem, e litoral sul da Bahia tem risco de temporais; veja previsão desta quinta-feira

Next Post
Temperaturas mínima (à esquerda) e máxima (à direita) previstas para as capitais do país — Foto: Divulgação / Inpe

Frio e ar seco permanecem, e litoral sul da Bahia tem risco de temporais; veja previsão desta quinta-feira

  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.

No Result
View All Result
  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.