A filiação de Ciro Gomes, hoje no PDT, é tida como avançada no PSDB, apesar de o martelo ainda não ter sido batido. No momento em que o ex-ministro reforça ataques ao PT, os tucanos afirmam que o projeto é a candidatura ao governo do Ceará, comandado por ele entre 1991 e 1994 quando integrava as fileiras do partido, desta vez como opção de voto para a base do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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— O público bolsonarista do Ceará quer votar nele, digo com convicção. Conversei com sete bolsonaristas de cidades diferentes, estão doidos para votar no Ciro porque sabem que ele é referência de gestão — afirmou o presidente do PSDB no Ceará, Ozires Pontes, em entrevista ao Uol.
Segundo Ozires, Ciro e o PSDB já estão conversando sobre a disputa do governo do estado e que, após se mostrar resistente, “hoje ele vê os números e não nega”. De acordo com o dirigente tucano, Ciro só não voltaria ao comando do estado se “ele ficar verborrágico”.
O acordo para a candidatura, dizem dirigentes ouvidos pelo GLOBO, passa também por impulsionar a eleição de deputados federais. Em 2022, o PSDB ficou sem nenhum parlamentar eleito pelo Ceará, unidade federativa governada por tucanos entre 1991 e 2007. Ciro Gomes, nas conversas recentes, ficou incumbido de turbinar até três nomes ao legislativo federal. A sigla evita falar, por ora, em voo presidencial, depois de o ex-ministro ter amargado o terceiro lugar no Ceará no primeiro turno na última corrida. Conversas com outros partidos para uma composição nacional ainda não foram colocadas à mesa.
Para o ano que vem, uma das metas tucanas a nível nacional é ter um bom desempenho na eleição para a Câmara, que é o que faz um partido sobreviver. A cláusula de barreira que começou a vigorar em 2018 e cresce a cada disputa exige resultados mínimos para que as siglas tenham acesso ao fundo partidário e a tempo de propaganda na TV e no rádio, entre outros direitos. Também é o montante de votos para deputado federal que determina a fatia de dinheiro público que cada legenda receberá nos quatro anos seguintes.
O provável embarque de Ciro marca uma rara adesão de um nome de peso ao PSDB nos últimos tempos. A tendência tem sido o oposto: outrora detentor de ampla capilaridade pelo país e de quadros de expressão da política nacional, o ninho tucano ficou ainda mais desguarnecido este ano com a saída dos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e de Pernambuco, Raquel Lyra, ambos para o PSD. ALém de Eduardo Riedel, do Mato Grosso do Sul, que vai se filiar hoje ao PP.
Na sexta-feira passada, Ciro protagonizou novo episódio de ataques ao PT do Ceará, com direito a mais acusações contra a mesma ex-senadora, Janaína Farias, que o levou a virar réu no ano passado por violência política de gênero após chamá-la de “assessora de assuntos de cama” do ministro da Educação, Camilo Santana, ex-governador do estado.
Agora, em discurso no aniversário do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, o quatro vezes presidenciável voltou a atacar a atual prefeita de Crateús.
— A pessoa que recrutava moças pobres, de boa aparência, para fazer o serviço sexual sujo do seu Camilo Santana virou senadora do Ceará. Agora é prefeita num município do Ceará. E isso é um desafio para o qual os meus queridos amigos estão me chamando para encarar. É para eu encarar? Eu vou encarar — disse.
Em nota, a equipe de Camilo Santana afirmou que Ciro Gomes “terá que prestar contas na Justiça, em mais um processo, como tantos outros que responde, inclusive com condenação, por tentar macular a honra das pessoas”. Já a prefeita e ex-senadora classificou Ciro como “um misógino que, cada vez mais, diante de seu fracasso político, busca atingir a honra das pessoas, de forma irresponsável e inconsequente”.
Foi em 2022 que a aliança entre PT e PDT desandou no Ceará. Naquele momento, Camilo se desincompatibilizou do governo para disputar o Senado, deixando na cadeira Izolda Cela — que era do PDT, mas não do grupo de Ciro. Os petistas toparam apoiar a reeleição dela, mas o então presidenciável queria que Roberto Cláudio fosse o candidato do partido, o que de fato aconteceu e levou o PT a lançar candidatura própria. Elmano de Freitas, o petista, venceu a eleição no primeiro turno e é o atual governador do Ceará.
Recentemente, na esteira da oposição feita a Elmano e ao também petista Evandro Leitão, prefeito de Fortaleza, Ciro passou a se aproximar de bolsonaristas. Derrotado na eleição municipal no ano passado, André Fernandes (PL) disse em maio que “Ciro mostrou ser uma pessoa preparada e inteligente, com coragem também para enfrentar o governador Elmano”, antes de reforçar o desejo de unificar a oposição contra o PT na próxima eleição estadual.
Outro ex-adversário que passou a elogiar Ciro foi Capitão Wagner (União), derrotado na eleição estadual de 2022 e na municipal do ano passado.
Assim que encerrou a primeira passagem pelo PSDB, em 1997, Ciro começou a criticar a legenda. Ao anunciar a candidatura presidencial na eleição do ano seguinte — concorreria pelo antigo PPS e ficaria em terceiro —, afirmou que se recusava a conversar com o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Até o ex-governador e ex-senador Tasso Jereissati, de quem se reaproximou nos últimos anos, foi alvo. Em 2016, ao analisar o cenário para as eleições de 2018, Ciro classificou um grupo da política cearense, incluindo Tasso, como “indústria de picaretas”.
No ano seguinte, outro cacique tucano entrou na mira: o ex-governador mineiro Aécio Neves, classificado por ele como “cadáver político”. Aécio é, ainda hoje, um dos principais quadros tucanos, com ativa atuação nas negociações partidárias.