A presença de mulheres trans nos palcos do funk carioca ainda era pouco comum no início dos anos 2000, quando Julyana de Souza Pontes começou a construir sua trajetória artística. Conhecida como Mulher Banana e Garota X, a cantora conquistou espaço em um dos movimentos musicais mais populares do país e se tornou uma das pioneiras da representatividade trans no gênero. Ela morreu na sexta-feira (30), aos 49 anos, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Luto: Morre Leonardo Netto, empresário de Marisa Monte e Regina Casé
Anita Harley: Justiça encerra processo por dívida de elevador de mansão
A artista foi encontrada morta em casa, no bairro Engenho Pequeno. A família confirmou o falecimento, descrito como súbito no atestado de óbito. A 52ª DP (Nova Iguaçu) investiga as circunstâncias da morte, e o corpo foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) para perícia.
Antes de alcançar reconhecimento nos bailes, Julyana começou a trabalhar com música em uma rádio carioca, onde fazia paródias de sucessos do funk. As versões tiveram boa repercussão entre os ouvintes, que passaram a ligar para pedir suas interpretações em vez das gravações originais.
Foi nesse período que adotou o nome Garota X, em referência à apresentadora Xuxa, de quem era fã. Em 2003, conseguiu uma oportunidade de se apresentar na Furacão 2000, uma das principais equipes de som e produtoras responsáveis pela expansão do funk carioca.
A cantora relatou que utilizava o microfone e as próprias composições como instrumentos de enfrentamento à discriminação. “A arma é meu microfone e minhas letras são minhas munições”, afirmou à publicação.
De Garota X a Mulher Banana
O nome artístico que a tornou conhecida surgiu durante a popularização das chamadas mulheres-fruta, personagens que ganharam espaço no funk brasileiro na década de 2000.
Julyana escreveu uma música chamada “Mulher Banana”, que acabou se tornando seu maior cartão de visitas. O sucesso da faixa fez com que o apelido ultrapassasse o universo musical e passasse a identificar a própria cantora.
A artista defendia que o gênero poderia oferecer oportunidades profissionais e ampliar a visibilidade de pessoas trans e travestis, frequentemente afastadas dos espaços tradicionais da indústria musical.
A trajetória de Mulher Banana foi construída em um período de pouca presença de artistas trans na música popular brasileira. Sua participação na Furacão 2000 e a circulação de suas composições nos bailes ajudaram a ampliar a visibilidade dessa população em um dos principais movimentos culturais do Rio de Janeiro.
Em 2015, ao falar sobre a presença de outras cantoras trans no funk, Julyana demonstrou satisfação por ter contribuído para que novas artistas ocupassem os palcos. Na ocasião, também citou a falta de união e as dificuldades enfrentadas por mulheres trans para conquistar reconhecimento no mercado musical.
Sua história voltou a ser lembrada após sua morte. A cantora MC Xuxú, que gravou músicas com Julyana, destacou a contribuição da artista para a representatividade trans e afirmou que ela abriu caminhos em um cenário marcado pela marginalização dessa população.
Tati Quebra Barraco também publicou uma homenagem nas redes sociais. “Uma grande perda para o mundo do funk! Nossa querida Mulher Banana nos deixou”, escreveu a funkeira, ao manifestar solidariedade aos familiares, amigos e fãs.
Proteção animal fora dos palcos
Além da música, Julyana dedicava parte de sua rotina ao acolhimento de animais abandonados. A cantora cuidava de diversos gatos e mantinha em casa um espaço que chamava de santuário, atividade que também compartilhava nas redes sociais.
A morte da artista provocou manifestações de pesar entre admiradores e nomes ligados ao funk carioca, que destacaram sua irreverência, sua trajetória e a contribuição para a história da representatividade trans na música brasileira.
Quem foi Mulher Banana, ícone trans do funk carioca que morreu aos 49 anos
