Tony Ramos lembrou a criação matriarcal que o formou em entrevista à jornalista Maria Fortuna no videocast ‘Conversa vai, conversa vem’, no ar no Youtube do Jornal OGLOBO. O ator revelou que foi a sua avó, Maria das Dores, a Dodô, quem falou de sexo com ele pela primeira vez. Também afirmou que as mulheres lhe deram um olhar mais amplo e “não mesquinhamente machista” para o papel de cada um na sociedade. Contou ainda como a ausência do pai biológico marcou a sua existência. Confira abaixo:
É doce, educado. Não se irrita nunca? O que te tira do sério?
A soberba. Fico irritado com o ser humano que se acha dono da verdade absoluta. Quando você chama de fofura… é o mínimo. Fui criado pela minha mãe, minha saudosa avó e sempre conversando sobre vida. Havia ausência do pai. Foi minha avó que falou primeiro de sexo comigo.
Me chamou e disse: ‘Filhinho, você anda pensando, assim, não sei, vontade de mulher?”. Arregalei o olho. Essas coisas marcam. Tinha 13, 14 anos. Ela continuou: “Isso é normal, se você sentir vontade, quando um dos seus tios chegarem, conversam com você”. Talvez, só quisesse dizer alguma coisa sobre, enfim, um lugar onde houvesse profissionais, sei lá… Depois um dos tios disse: “Sua avó andou falando comigo, mas não tá na hora, relaxa, quando for, eu te aviso”.
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Mas você já estava pensando nisso? Teve uma educação sexual depois?
Só a vida mesmo. Era uma época de tabus. Estamos falando aí dos anos 1950/ 60.
Acha que essa sua criação matriarcal te fez olhar com outros olhos o machismo ou se policiar?
Nunca me policiei porque nunca fui machista. Sei o que sou: macho, do gênero masculino. Macho, mas “chista” não. Nunca tive essa coisa da posse. Olhando nos seus olhos, te digo: nunca me corrigiram nesse sentido. Minha filha, minha companheira de mais de 50 anos (Lidiane Barbosa)… Se não, não teria durado tanto. Até pelo espírito libertário dela. Muita coisa devo, sim, a um olhar maior e não mesquinhamente machista sobre o papel de cada um de nós na sociedade. Vi minha mãe trabalhar em três lugares como professora, tinha uma avô viúva, que cuidava da casa. A vida foi essa e nunca tive problemas por causa disso. Mesmo sem ter o pai, até minha mãe casar de novo.
Com um professor, que se tornou importante figura paterna para você. Mas quem não teve pai presente, sabe que o mundo não acaba, mas que isso marca. Como esse abandono parental te marcou?
Não diria abandono, é um pouco forte. Vivemos épocas melhores. Hoje, um casal se separa e faz questão, pelo bom senso, de preservar os filhos, manter a amizade. Para as crianças saberem que não há inimigos, apenas essa vida em comum que não deu certo. Imagina lá no final dos anos 1950. As pessoas se afastavam naturalmente, havia um bloqueio raro. Casais que se separavam não mantinham essa essa convivência. Me marcou a partir do momento em que fui descobrindo a vida. Algumas perguntas, até sobre sexo mesmo, a gente fica mais mais confortável ao fazer para um homem, no caso, o pai, na hora do jantar… Perguntas que fiz depois para tios, amigos, colegas. Mas tive o olhar dessas duas mulheres com muito vigor e amor.
Não ter tido a pai biológico perto te fez querer ser um pai mais presente para os seus filhos, Andrea e e Rodrigo?
Sem dúvida. Mesmo não podendo ser tão presente como gostaria, ir nas reuniões de escola. Sempre estava no estúdio ou em externa, chegava à noite e pergunta à Lidiane: “Como foi a reunião?”. Andrea já falava: “Papai, sabemos que alguém tem que trabalhar nessa casa…”. Não sou totalmente em paz com isso, mas minha presença se fazia no leito de cada um. Esse presencial sempre existiu com afeto. Eu sou pai e não herói, apesar de ter feito a novela “Pai Herói”.