A força-tarefa criada para investigar o assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, já identificou sete suspeitos de envolvimento no crime, seja na execução ou no planejamento, e prendeu três até a manhã de sábado, 20, de acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública.
O “Dr. Ruy”, como era conhecido, sofreu uma emboscada de dois veículos na noite de segunda-feira, 15, enquanto deixava o expediente na prefeitura de Praia Grande, no litoral paulista. Ao menos seis criminosos participaram diretamente da ação usando coletes à prova de balas, toucas e luvas e armados com fuzis.
O delegado foi morto a tiros ainda dentro do carro, que colidiu com um ônibus e capotou numa movimentada avenida da cidade.
Foi a partir das impressões digitais localizadas em um dos veículos abandonados na cena do crime que a polícia identificou os dois primeiros suspeitos do ataque: Felipe Avelino da Silva, de 33 anos, conhecido como “Mascherano“, e Flávio Henrique Ferreira de Souza, de 24 anos. Ambos continuam foragidos.
“Mascherano”, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública, seria ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e já foi condenado e preso por tráfico de drogas, roubo qualificado e corrupção de menores. Flávio não tem antecedentes criminais.
Ainda que não reste dúvida sobre o envolvimento de faccionados no crime, a polícia ainda apura se o crime teria sido motivado pelo histórico de atuação do delegado contra o PCC ou por seu trabalho mais recente na prefeitura da cidade.
Na quinta-feira, 18, a Justiça paulista autorizou a prisão temporária de Dahesly Oliveira Pires, 25 anos, moradora de Diadema e sem profissão declarada. Ela primeiro foi ouvida como testemunha, mas acabou detida diante da suspeita de que teria transportado fuzis usados na execução do ex-delegado após o crime. Ela já cumpriu pena por tráfico de entorpecentes.
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Ela confirmou em depoimento que é namorada de um dos suspeitos do crime e viajou à Praia Grande para buscar o “pacote” após o atentado contra Ruy, mas alegou não saber o que tinha dentro. A versão é contestada pela polícia, que encontrou fotos de um dos fuzis no celular dela.
Além de Dahesly, testemunhas e familiares dos dois primeiros suspeitos identificados foram ouvidos no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em São Paulo. A investigação também cumpriu oito mandados de busca e apreensão na capital e na região metropolitana e chegou a uma casa supostamente ligada à quadrilha.
Ontem, um segundo suspeito foi preso: Luiz Henrique Santos Batista, conhecido como “Fofão“, que tem antecedente por porte de drogas. Ele teria ajudado na fuga dos executores, segundo a polícia.
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Durante a madrugada, Rafael Marcell Dias Simões, conhecido como “Jaguar“, entregou-se em uma delegacia de São Vicente acompanhado do advogado. Não foi divulgada a sua suposta implicação no caso, mas ele também faria parte do PCC.
Permanece foragido ainda Luiz Antônio Rodrigues de Miranda, conhecido como “Grão“. Ele é suspeito de ordenar que uma mulher buscasse um dos fuzis utilizados no assassinato do delegado.
Neste sábado, a Justiça decretou a prisão temporária do dono do imóvel de onde saiu um dos fuzis e que teria sido usado pela quadrilha antes do ataque ao delegado. Trata-se de Willian Silva Marques, 36 anos. Ele é irmão de um policial militar que, contudo, teve participação no crime descartada.
O diretor-geral da Polícia Civil, Artur José Dian, disse ainda que a polícia trabalha com a hipótese de envolvimento de Fernando Gonçalves dos Santos, que seria uma dos chefes do PCC na Baixada Santista. Ele já cumpriu pena por roubo, tráfico de drogas, receptação e associação criminosa. “Azul”, como é conhecido, deixou a penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, em agosto.
Portanto, os sete suspeitos apontados até o momento são:
- Felipe Avelino da Silva, 33 anos, o “Mascherano” — digitais encontradas na cena do crime
- Flávio Henrique Ferreira de Souza, 24 anos — digitais encontradas na cena do crime
- Dahesly Oliveira Pires, 25 anos — teria transportado um dos fuzis
- Luiz Henrique Santos Batista, o “Fofão” — teria auxiliado na fuga
- Luiz Antônio Rodrigues de Miranda, o “Grão” — teria ordenado uma mulher a buscar um fuzil
- Rafael Marcell Dias Simões, o “Jaguar” — entregou-se à polícia em São Vicente
- Willian Silva Marques, 36 anos — dono do imóvel que teria sido usado pela quadrilha
O ex-delegado Ruy foi executado depois de sair do trabalho na prefeitura de Praia Grande. Ele foi perseguido enquanto dirigia, perdeu o controle do veículo, bateu em um ônibus e capotou. Na sequência, homens desceram de outro carro e atiraram contra o automóvel.
O ataque ocorreu na Avenida Doutor Roberto de Almeida Vinhas, na Vila Caiçara, por volta das 18h20, segundo a Polícia Militar. Ao menos seis criminosos participaram diretamente da ação, conforme imagens de câmeras de segurança.
Delegado de polícia por mais de 40 anos, ele iniciou a carreira como titular da Delegacia de Polícia do Município de Taguaí. Depois, trabalhou no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), no Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), onde atuou em investigações contra o crime organizado e se tornou um desafeto de Marcola, líder do PCC.
Fontes assumiu a função de delegado-geral da Polícia Civil entre 2019 e 2022, nomeado pelo ex-governador João Doria. Após deixar o cargo, passou a trabalhar na prefeitura de Praia Grande, no litoral de São Paulo, como secretário de Administração. Ele não tinha escolta desde que deixou o posto na Polícia Civil. Em entrevista exclusiva ao GLOBO e à rádio CBN três semanas antes da morte, o delegado reclamou dessa condição.
— Eu tenho proteção de quem? Eu moro sozinho, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é no meio deles. Pra mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu tava pouco me importando, teria estrutura para me defender, hoje não tenho estrutura nenhuma — disse.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), lamentou a morte e instaurou uma força-tarefa para elucidar o crime e prender os envolvidos. Segundo ele, o delegado não havia feito pedido de escolta “nem formal, nem informalmente” ao estado. A execução pressiona o político na área da segurança pública, uma das mais caras à atual gestão, e levantou o debate sobre como proteger autoridades que combateram o crime organizado quando estas deixam a vida pública.
O corpo de Ruy foi velado em uma cerimônia na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), e o sepultamento ocorreu no Cemitério da Paz, na capital paulista.
(Colaboraram Aline Ribeiro e Matheus de Souza)