“Até quando vamos ver rachas de cavalos nas faixas de areia?” O comentário raivoso da moradora de Itanhaém nas redes sociais, além de vídeos e relatos obtidos pelo GLOBO, revela que a prática das corridas de charrete não é nova no município do litoral sul de São Paulo. Na terça-feira, a turista Thalita Hoshino, de 37 anos, morreu após ser atropelada em um desses “rachas”, aponta a investigação inicial. Thalita andava de bicicleta na praia no domingo (23) quando foi atingida por uma charrete conduzida por Rudney Gomes.
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Gomes afirmou à polícia que se tratava de um “passeio familiar” na faixa de areia. A defesa nega que ele disputasse corrida e afirma que o condutor prestou assistência à vítima após o atropelamento. Testemunhas ouvidas pela polícia, no entanto, afirmaram que ele trafegava em alta velocidade, e a investigação aponta para uma disputa de racha.
— Ele (Gomes) deu a versão dele, mas estamos vendo que a versão pode não coincidir com os fatos. Até o momento, sabemos que a vítima estava na praia quando vinham dois veículos. Atrás desses veículos estavam duas charretes supostamente apostando corrida. A amiga que estava com ela avisou para que elas saíssem do local. A amiga acabou indo para o lado da restinga, e a vítima foi para o outro lado, por onde passou a charrete — diz o delegado responsável pelo caso, Arilson Veras Brandão.
O GLOBO ouviu moradores da região, que afirmaram que não é a primeira vez que um acidente acontece na praia em que Thalita foi atingida. A faixa de areia é composta por duas praias, a de Gaivota, em Itanhaém, e a de Taninguá, no lado de Peruíbe. A região do Taninguá é a mais remota por ser colada a uma terra indígena, sendo vizinha a uma área de mata preservada. O local é usado há pelo menos dez anos para a realização de exibições e disputas de cavalos.
Mulher morre após ser atropelada por charrete em praia de Itanhaém – SP
Segundo a secretária-executiva do conselho de defesa do meio ambiente de Peruíbe, Mari Polachini, as disputas têm sido organizadas na área quinzenalmente e atraem um grande volume de público, chegando a 300 pessoas.
— E eles não usam as charretes, as disputas são feitas com uma espécie de trole, que parece uma biga romana, em que o condutor vai de pé. Pessoas do interior vem assistir, sou formada em agronomia e já vi cavalos de raça — diz Mari.
Os frequentadores costumam estacionar os carros, ônibus e caminhões que transportam os cavalos na Avenida Santa Cruz, em Itanhaém, e descem para a faixa de areia. São realizadas apostas em torno das disputas, que são acompanhadas por carros e motos também em alta velocidade, segundo os relatos.
— Em dezembro de 2021 houve outro atropelamento que acabou matando um cachorro e ferindo uma senhora — afirma a protetora de animais Lana Constantino, também da região.
Vídeos nas redes sociais mostram o momento em que uma moto que acompanhava uma corrida de cavalos atinge o animal e uma mulher. Segundo os moradores, a fiscalização das prefeituras de Itanhaém e Peruíbe enfrenta dificuldades para coibir a prática.
— Quando chega a GCM em Peruíbe, eles correm para o lado de Itanhaém. Fica um jogo de empurra-empurra, era uma tragédia anunciada. Em toda a região você vê pessoas levando os cavalos para andar na praia, inclusive dentro do mar — conta Lana.
A aposentada Cris Souza narra que a presença constante dos animais na faixa de areia tem desanimado a família dela, que é da Zona Norte de São Paulo, a passar os finais de semana em Itanhaém.
— Estamos até vendendo a casa que temos ali desde 1994. Passam os cavalos na praia, fazendo sujeira, circulam carros. A gente foi perdendo o gosto — lamenta.
A prefeitura de Itanhaém afirma em nota que acompanha as investigações da morte de Thalita e que, sobre a presença de charretes na praia, diz que o município possui leis que “proíbem o ingresso e a permanência de animais na faixa de areais, bem como a circulação de veículos de tração animal em toda a cidade”.
A gestão diz que instalou obstáculos na Avenida Santa Cruz, na divisa de Itanhaém com Peruíbe, onde fica o acesso ao local que ocorreu o acidente, mas “estes bloqueios foram retirados em atos de vandalismo”. A Guarda Civil Municipal realiza diversas operações de força-tarefa, inclusive, realizou ações compartilhadas com o município de Peruíbe para fiscalizar essa prática irregular”, prossegue o texto.
Já a Secretaria Municipal de Segurança de Peruíbe afirmou, em nota, que sempre que toma conhecimento de realização de tais “práticas ilegais no trecho de Peruíbe monta uma força-tarefa com a Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, agentes de fiscalização de trânsito e de posturas e segue para o local”.
O poder municipal informa também que “está em tratativas com a Secretaria de Segurança Pública de Itanhaém para a realização de operações conjuntas a fim de coibir com ainda mais eficácia a fiscalização deste ato ilegal na divisa. Por fim, o setor acrescenta que nunca houve apreensão de charretes, mas já instalou obstáculos com o objetivo de coibir o trânsito delas e tubos de concreto na Avenida Santa Cruz com a faixa de areia. Entretanto a pasta destaca que há aldeias na região que utilizam a praia como acesso”.
Thalita foi levada para um hospital em Praia Grande após ser atingida pela charrete e sofrer um grave traumatismo craniano. Ela ficou internada até morrer na tarde da última terça. O caso inicialmente foi registrado como lesão corporal mas, com a morte da vítima, virou uma investigação de homicídio. O corpo passa por perícia no Instituto Médico Legal, que vai detalhar as lesões sofridas por Thalita. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a polícia ainda analisa imagens e ouve testemunhas para tentar esclarecer todas as circunstâncias do caso.
Em nota, os advogados de Rudney Gomes afirmam que o cliente não praticava ‘racha’ e que estava na praia em um passeio familiar. Eles afirmam que Gomes circulava pelas ruas da região de charrete e optou por seguir pela faixa de areia devido a inexistência de uma “orla apropriada para o tráfego” naquela área.
Segundo os advogados o local é “tradicionalmente utilizado para passeios a cavalo há mais de 20 anos, em razão de ser uma área pouco habitada […] Infelizmente, durante esse trajeto, ocorreu a colisão com a ciclista. O autor e sua esposa prestaram assistência à vítima, encaminhando-a à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Município de Itanhaém”, diz o texto.
A defesa afirma que Gomes e a esposa permaneceram na UPA até que a vítima fosse transferida para outra unidade de saúde. “Além disso, por iniciativa própria e de forma espontânea, o autor dirigiu-se à delegacia mais próxima para registrar o boletim de ocorrência, demonstrando plena disposição em colaborar com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos. Apesar dos esforços médicos, lamentavelmente, a vítima não resistiu aos ferimentos e veio a falecer. O autor manifesta seu profundo pesar pela perda irreparável e solidariza-se com a dor da família e amigos”, afirma a nota.

