Desde que se lançou em carreira solo após o fim da banda Alice, no fim dos anos 2000, o carioca Cícero sempre fez um melancolindie com cheiro de chuva e café da tarde, estética que advém da sua voz baixinha e das canções introspectivas que versam quase sempre sobre o amor e as coisas da cidade. Foi assim desde o aclamado “Canções de apartamento” (2011), sua estreia, repleto de faixas que dão vontade de ligar para a ex, passando pelo não menos fleumático “A praia” (2015), culminando em “Cosmo” (2020). “Cícero correu pra que um Rubel pudesse andar”, disse alguém um dia desses. Após um hiato de cinco anos sem um disco de inéditas, ele lançou este mês “Uma onda em pedaços”. Talvez seja seu álbum menos Cícero, e isso é bom.
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Não que nunca o tivesse feito antes, mas, ao longo das dez faixas do novo trabalho, parece disposto a experimentar. Deitado num elegante arranjo de cordas, se reapresenta na primeira faixa, “Pássaro nave”, como um “suburbano arredio que não conta com a sorte”. Canta com sintetizadores no mantra “Mente voa”, que inclui um soft rap libertário: “Foda-se tudo, se foder tudo, irmão”, diz o compositor. É Cícero em pleno relaxamento muscular.
Em “Ela disse”, dos versos “Ela disse/ Simples, onde você não puder amar, não fique”, ele remonta à célebre frase da atriz italiana Eleonora Duse (1858-1924), frequentemente creditada à pintora mexicana Frida Khalo — “Onde não puderes amar, não te demores”. “Meu amigo Harvey”, por sua vez, poderia servir de base para um gangsta rap de quebrada.
“Uma onda em pedaços” tem boas participações, como a da pernambucana Duda Beat em “Sem dormir”, um semiforró que evolui pra música eletrônica. Com a sergipana Tori, divide a doce “Dia vai”, quinta faixa do disco, envelopada num bonito acordeon. Está ali um Cícero em seu mais alto estilo, artesão de boas — e simples — canções de amor. Vovô Bebê, nome artístico do produtor e instrumentista carioca Pedro Dias Carneiro, soma em “Tranquilo”, que soa como uma surf music, sim, tranquila.
O clima tenro, suave, mas que propõe curvas inventivas, não óbvias, amarra todo o disco, valendo citar, ainda, “Lucille”, cantada em inglês, ao piano, e a faixa-título, que encerra o álbum, um elogio à simplicidade da trinca piano-baixo-bateria.
Cícero sai em turnê com o novo disco a partir de outubro, com várias cidades confirmadas. No Rio, faz show no Circo Voador no dia 7 de novembro.