A Copa do Mundo de 2026 vem mexendo com a família real britânica como nenhuma outra. Neste ano, cinco das 48 seleções participantes têm súditos do rei Charles: além da Inglaterra, o grupo de países que tratam o monarca inglês como chefe de Estado — a chamada “Commonwealth” — inclui Escócia, Nova Zelândia, Austrália e Canadá neste Mundial. E a primeira vaga no mata-mata pode vir justamente com os canadenses, que só precisam empatar com a Suíça, nesta quarta-feira, às 16h (de Brasília), em Vancouver, para garantir a liderança do Grupo B.
- Quem pega quem na Copa? Infográfico do GLOBO atualiza em tempo real o chaveamento da segunda fase, incluindo os terceiros colocados
O número de representantes neste ano superou o recorde anterior, atingido em 2022, quando Inglaterra, Austrália, Canadá e País de Gales disputaram o torneio. O mesmo número havia sido alcançado nas Copas de 1958, 1982 e 1986 (veja a lista completa no fim da matéria).
Há quatro anos, o excesso de seleções para torcer gerou saia justa para o recém-coroado rei Charles — sua mãe, a rainha Elizabeth, havia falecido meses antes da Copa. Seu filho, o príncipe William, que também ostenta o título de “príncipe de Gales”, recebeu críticas por declarar torcida para a Inglaterra, responsável por eliminar justamente os galeses na fase de grupos.
Desta vez, o rei Charles distribuiu feriados alusivos à Copa em seus domínios e se declarou “anfitrião” do torneio, referindo-se ao Canadá, um dos três países-sede.
— Só posso dizer, como chefe de Estado de cinco países participantes, que vou assistir às partidas com atenção e muito entusiasmo — disse o monarca, durante visita ao presidente dos EUA, Donald Trump, em abril. — De certa forma, eu e você somos os anfitriões.
Mais do que um afago esportivo, a declaração do rei Charles foi interpretada como tentativa de impor limites a Trump, que vinha falando em anexar o território canadense aos EUA e ameaçava a soberania do país vizinho.
No início de junho, o rei aprovou um feriado extraordinário para a Escócia, no dia 15, a segunda-feira seguinte à estreia da seleção no Mundial contra o Haiti. A justificativa apresentada pelo Parlamento escocês, e acatada por Charles, foi a necessidade de “celebrar o momento” do retorno do país à Copa após 28 anos.
Sem deixar por menos, o Parlamento inglês também pediu um feriado, mas para 20 de julho, um dia depois da final da Copa. A intenção é comemorar um eventual título da Inglaterra, que até hoje só foi campeã em casa, em 1966, sob os olhares da falecida rainha Elizabeth.
O rei Charles vem usando a Copa para tentar melhorar a popularidade com seus súditos, em um momento de abalos à imagem da família real britânica. O príncipe Andrew, seu irmão, foi preso no início do ano por vazamento de informações sigilosas de Estado ao americano Jeffrey Epstein, que se envolveu em um amplo escândalo de exploração sexual.
Austrália e Nova Zelândia, países que já debateram no passado recente a ideia de sair da Commonwealth, se manifestaram pela remoção de Andrew da linha sucessória.
Apesar de torcer oficialmente pelos cinco países da Commonwealth, o fato é que a família real tem ligação mais próxima com a seleção inglesa. O príncipe William, atual “patrono” da Federação Inglesa de futebol, se reuniu com o treinador da seleção, Thomas Tuchel, antes do embarque do elenco para a Copa, e esbanjou confiança.
— Provavelmente será uma das Copas mais duras da era moderna. Mas eu não tenho dúvidas de que você e o time cumprirão as expectativas e apresentarão tudo o que fazem de forma tão brilhante – disse William ao técnico da Inglaterra.
Em 2022, quando Inglaterra e Gales caíram no mesmo grupo do Mundial, William irritou os súditos do lado oeste da fronteira por ter se encontrado com os jogadores ingleses antes do embarque para o Catar – na ocasião, o “príncipe de Gales” já sabia que um dos adversários de Harry Kane e companhia seriam justamente os galeses.
No dia da partida, o príncipe tentou se equilibrar e desejou sorte a ambas as seleções, com direito a mensagens em dois idiomas – uma em inglês, outra em galês. Na ocasião, o rei Charles também evitou declarar torcida a um dos lados. A Inglaterra venceu por 3 a 0 e eliminou Gales da competição.
Para sorte de Charles e William, é possível que o Mundial deste ano poupe a família real de duelos entre seus súditos. Todos os cinco países caíram em grupos diferentes, e há poucos cruzamentos possíveis na segunda fase. Uma das hipóteses, caso o Canadá passe em primeiro hoje, é se a Nova Zelândia avançar entre os terceiros colocados. A outra chance é se neozelandeses e australianos ficarem em segundo em seus grupos.
- 2026: 5 (Inglaterra, Escócia, Austrália, Nova Zelândia, Canadá)
- 2022: 4 (Inglaterra, Austrália, País de Gales, Canadá)
- 2018: 2 (Inglaterra, Austrália)
- 2014: 2 (Inglaterra, Austrália)
- 2010: 3 (Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia)
- 2006: 2 (Inglaterra, Austrália)
- 2002: 1 (Inglaterra)
- 1998: 3 (Inglaterra, Escócia, Jamaica)
- 1994: nenhum
- 1990: 2 (Inglaterra, Escócia)
- 1986: 4 (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte, Canadá)
- 1982: 4 (Inglaterra, Nova Zelândia, Escócia, Irlanda do Norte)
- 1978: 1 (Escócia)
- 1974: 2 (Escócia, Austrália)
- 1970: 1 (Inglaterra)
- 1966: 1 (Inglaterra)
- 1962: 1 (Inglaterra)
- 1958: 4 (Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte)
- 1954: 2 (Inglaterra, Escócia)
- 1950: 3* (Inglaterra, Escócia* e Índia*)
*Escócia e Índia se classificaram, mas desistiram de participar da competição. A Índia deixou de fazer parte da Commonwealth em 1950

