A cozinha francesa, que chegou ao Brasil pelo Rio, andou meio minguada por aqui. Foi numa das edições do Prêmio Rio Show de Gastronomia que nos demos conta: onde estão as casas francesas? Eram poucas, boa parte havia saído de cena. Mas, nem faz muito tempo, elas começam a voltar. O mais recente da leva é o Glória, com menos de um mês, bistrô com clássicos, releituras e mescla de sabores de imigrantes (árabes, basicamente). Cozinha e salão na mão de profissionais escolados e, melhor dos melhores: preços pagáveis, coisa rara e louvável nesse perfil de casa. Diria “a glória”, mas, como o assunto é sério, fico só no registro.
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Ando assustada com os preços dos restaurantes, daqui e pelo mundo também, pelo menos nos países que visitei este ano — e já baixei em seis. Um jantar no premiado Central, em Lima, custa 500 dólares, sem vinho. Paris vai nessa viagem. Por isso, depois de conferir o climão francês de bom gosto, com espelhos, luminárias, mobiliário, fotos P&B de Billie Holiday a Marvin Gaye (nada de chanteur francês), fui nos preços, e aí festejei. Predominam os dois dígitos.
Cozinha boa, segura, do chef veterano Ignacio Peixoto, jovem, mas que conheci no Pipo, de Felipe Bronze. Sua cozinha é artesanal e detalhista, dos molhos ao pastrami que requer oito horas de preparo, o prato mais caro da casa: R$ 112, peça de 500g, com acompanhamento. Mas pode vir fatiado no pão pretzel com aioli de mostarda e picles de cebola roxa (R$ 56).
Ouefs mayo para começar: simples ovos cozidos cortados ao meio com maionese do chef e croutons (R$ 28). E três versões de tartare: o clássico steak com fritas; atum com abacate e wasabi (ambos a R$ 58) e salmão com creme azedo e um toque de maple syrup (R$ 62). Ah, e saladas como de chèvre chaud (queijo de cabra quente), amêndoas, tomate, uvas e mostarda (R$ 58).
Os palitos de abobrinha empanados com toque de limão-siciliano são de comer sem parar (R$ 32). O nuggets da “maison” chegam com três molhos (R$ 48) — gostei da mostarda com pimenta gochujang. No lugar do filé au poivre, tem atum no mesmo molho, um achado (ou copiado, sei lá), com poró frito e brócolis (R$ 88). E o linguine aux crevettes (camarões grelhados), no beurre blanc, estava irretocável (R$ 98). São poucos doces, quatro precisamente, mas o mil-folhas de banana caramelizada e mascarpone (R$ 36) valeu por muitos.
A aposta dos donos é que o Glória chegue aos dez anos como o vizinho Pici, do mesmo grupo. Se o padrão de cozinha e salão e patamar de preços forem mantidos, pode ser. Mas isso só o tempo dirá.
Rua Barão da Torre 340, Ipanema. Seg a qui, das 12h à meia-noite. Sex e sáb, das 12h à 1h.

