Josela Pacheco, de 45 anos, se define como uma “ex-evangélica”. A relação dela com Deus está intacta. O problema é com os homens. A partir do momento em que a igreja se aproximou do bolsonarismo, a médica de Inhumas (GO) decidiu se afastar dos templos. Fenômeno importante na última década, a forte ligação do protestantismo brasileiro com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a ganhar novas análises com a divulgação do Censo 2022 no começo deste mês. Os dados mostram que diminuiu o ritmo de crescimento do número de crentes no Brasil — o que não era esperado pelas denominações nem por uma ala de pesquisadores. Uma das hipóteses que se tem debatido é se o movimento político pode ter prejudicado o campo religioso.
— A imensa maioria das igrejas fala demais em política. E não era assim algumas décadas atrás. Me considero cristã, mas não me declaro evangélica hoje — explica Josela. — Fui batizada, estive na igreja Universal por muitos anos e minha família tem toda essa tradição. Mas esse se tornou um lugar de politicagem, de destruição de minorias, de exclusão da pluralidade das pessoas. Por isso, eu saí.
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O Censo 2022 apontou que 26% da população brasileira com mais de 10 anos são formados por evangélicos, um importante contingente de 47 milhões de pessoas. Em 2010, o segmento correspondia a 21,6%. Apesar do crescimento expressivo, analistas projetavam um patamar de 30%. Além disso, o crescimento foi percentualmente maior nas duas edições anteriores do levantamento realizado a cada dez anos pelo IBGE.
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Ao mesmo tempo, o país viu uma forte associação entre o segmento em franca expansão com o bolsonarismo. Na véspera do segundo turno das eleições de 2022, o Datafolha indicou que 69% dos votos válidos dos evangélicos iriam para a reeleição do então presidente Bolsonaro. As últimas pesquisas de opinião a respeito do governo Lula confirmam a distância desse eleitorado com a esquerda: em nenhum momento nesses dois anos e meio de mandato a reprovação do petista neste grupo caiu abaixo de 52%. E o último levantamento, de maio, mostra que o patamar chegou a 66%.
Entre os fiéis, é comum encontrar quem se incomode com a politização dos cultos. Eleitora de Bolsonaro, Lourdes Moura, de 63 anos, frequenta há 30 a Assembleia de Deus Ministério do Belém, na Zona Leste de São Paulo. A denominação pentecostal recebeu nomes como Jair Bolsonaro e a esposa, Michelle, nas eleições presidenciais de 2022, e o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, no pleito municipal do ano passado. Lourdes esteve em alguns desses momentos em que foram abertos espaços para políticos, mas não gostou do que viu e sentiu. Quando um candidato sobe no púlpito, ela afirma, o culto esfria.
— O correto é não misturar política com religião. Um dia teve um político aqui. A igreja estava um fervor, quando o político começou a falar, parece que caiu um balde de gelo dentro. Nesse momento, o Espírito Santo não se faz presente — diz a aposentada.
O porteiro Luís Carlos da Silva, de 52 anos, tem outra visão. Há cinco anos — ou seja, já depois que o bolsonarismo havia avançado sobre as igrejas, um movimento que se dá com mais intensidade a partir das eleições de 2018 —, ele se converteu à Igreja Mundial do Poder de Deus, uma denominação neopentecostal, porque considera que o mundo tem ficado “cada vez pior”. Para ele, é “fundamental” juntar política com religião.
— A Bíblia fala que desde os tempos passados Davi e outros profetas se envolveram na política, foram até reis. É fundamental se envolver para buscar mais coisas a favor do Evangelho, da palavra. Tem que ter alguém envolvido para poder buscar benefício, senão fica aquela parte faltando — afirma o morador da Zona Norte do Rio. — Todo evangélico apoiou Jair Bolsonaro por causa dos princípios e das coisas a favor da vontade de Deus. A esquerda não dá (para apoiar). Defendem o que não agrada a Deus.
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Pautas do campo da esquerda, como a defesa do aborto em casos previstos em lei, do casamento de pessoas do mesmo sexo e da descriminalização das drogas, são fortemente combatidas por lideranças evangélicas.
Batista desde criança, a auditora Bruna Freitas, de 38 anos, também defende que a política esteja presente nas igrejas. Não no púlpito, mas entre os fiéis. Ela avalia que os temas precisam ser debatidos entre os evangélicos para que aqueles que defendem os valores da Bíblia cheguem aos espaços de poder.
— A Bíblia tem várias lições de como um ser humano deve se comportar. E ali não se fala somente de religião, mas de condutas que podem ser totalmente aplicáveis para gestão de uma empresa, de um país. Um servo de Deus não vai ser corrupto, uma das grandes dores que temos no Brasil — sustenta a carioca que mora em São Paulo.
Já Gabriel Souza, militar de 28 anos, conta que no templo que frequenta não se discute política. Ele é adepto da Igreja Batista Atitude, denominação que faz parte de uma nova fase do neopentecostalismo no Brasil, iniciada nos anos 2000. De acordo com ele, o espaço recebe gente de esquerda e de direita e que não se aborda o assunto “para não espantar” possíveis novos adeptos.
— Por mais que o Bolsonaro use isso para se promover, ele ainda está fazendo o jogo político dele. Mas os pastores não deveriam se pronunciar em relação a isso. Eu não gosto e, pelo propósito da igreja, não deveria se misturar. Quem apoia o Lula vai achar que não é bem-vindo aqui — pontua.
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Para a professora do departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital, que coordena o Laboratório de Estudos em Política, Arte e Religião (LePar) na instituição, os evangélicos já sofrem preconceitos ligados à questão racial e de classe e essa forte associação com o bolsonarismo traz mais um estigma.
— Soma-se a questão do conservadorismo político, de serem identificados como aqueles que são antagônicos a direitos, quando isso não é a verdade da maior parte dos evangélicos. Algumas lideranças capturam os evangélicos e a narrativa evangélica para firmar um lugar de conservadorismo, de fundamentalismo, que às vezes não se sustenta na base social evangélica — diz a pesquisadora.
Agente dos Correios no Rio, Gilberto da Silva sente isso na pele. O frequentador da Igreja Mundial do Poder de Deus conta que fica chateado quando o pastor leva para o templo pessoas ligadas a um grupo político que, segundo o carteiro, prejudicou seu emprego. Para piorar, acabam associando ele e sua fé a essa corrente ideológica:
— Sou muito criticado no meu trabalho por frequentar a igreja em que o pastor leva esses políticos. Não sou desse grupo e meus colegas sabem, mas, poxa, quando esses caras estão lá acham que eu apoio. Eu falo: “Rapaz, eu estou lá pela obra que Deus fez na minha vida”. Não estou pelo pastor, pelo bispo, nem nada
Ao GLOBO, o sociólogo especializado em religião Paul Freston defendeu que essa associação do campo religioso a um lado da política pode ter um “preço a pagar em termos de adesões”. Christina Vital percebe outro risco: o cansaço gerado pela tensão política polarizada tende a causar abandono de fiéis, como aconteceu com Josela, ainda maior do que criar uma barreira de entrada. A discussão também chegou a lideranças religiosas. Enquanto a maior parte delas questionou os dados do Censo ou minimizou as descobertas, a tese de que a politização dos templos atrapalhou a igreja foi defendida em um culto pelo pastor Aluizio Dias, da Igreja Videira.
— O ritmo de crescimento caiu. E a causa disso foi o bolsonarismo. Quando os pastores no púlpito resolveram assumir politicamente algo, fecharam a porta da igreja para um montão de gente. Não as pessoas da esquerda, mas de pessoas que não querem se identificar com um segmento. Isso é distração do maligno — discursou o pastor, que é próximo de Pablo Marçal, o ex-coach que disputou a prefeitura de São Paulo em 2024.
Adepta da Igreja Universal do Reino de Deus, a moradora do Rio Josefa Filha, de 59 anos, chega a esconder que é lulista. Na porta de um templo na capital, ela disse que não vota em mais ninguém por falta de confiança nos políticos. Depois, acabou revelando que apoiará Lula “até morrer”.
— O governo Lula foi o melhor do mundo, principalmente na parte da pobreza. A escolha é nossa e ninguém vai decidir religião e política para ninguém — frisa. — Meu pastor nunca falou sobre isso. Mesmo se falar, acho que cada um tem que escolher o seu (candidato).
Patrícia Arettla, fisioterapeuta de 49 anos que frequenta Primeira Igreja Batista do Rio, também se apresenta como uma fiel evangélica de esquerda com histórico de militância estudantil. Segundo ela, a Igreja Batista tradicional trata pouquíssimo de política.
— Cada um tem sua opinião e não temos direcionamento político. Estamos aqui para servir ao senhor — garante Patrícia, que vê um problema para a igreja na associação do campo evangélico com o bolsonarismo. — É um entrave porque em qualquer igreja, até nas mais ligadas ao Bolsonaro, têm pessoas que não são bolsonarista. Ela cria contenda e discussões.
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(*Estagiária sob supervisão Cibelle Brito)