Capacetes com chifres, perucas e barbas louras e a inescapável remada. Os “vikings” da Noruega tomaram conta da Copa do Mundo. Com uma coreografia que se espalhou pelo planeta, os noruegueses aproveitam uma das heranças dos escandinavos para reforçar um dos traços da identidade do país. Mas o que pode ser apenas uma forma de torcer também levantou debates sobre a exaltação da figura do “viking”, assumida pela própria seleção antes do Mundial.
Em um ensaio fotográfico antes da viagem para os Estados Unidos, Haaland e companhia, que enfrentam o Brasil no domingo (5), em Nova Jersey, pelas oitavas de final, se caracterizaram como viking, com direito a espadas, machados, lanças e roupas de couro e que imitavam peles de animais. “Sangue viking”, escreveu o camisa 9 ao compartilhar uma foto.
A “remada viking” e o ensaio da seleção norueguesa, é claro, não são fatos isolados. A exaltação da cultura viking remonta ainda ao século XIX, quando eruditos da época ajudaram a conceber uma identidade nacional. Os noruegueses tomaram para si a herança dos vikings e com ela a imagem dos homens que viveram na região e que fizeram fama pelos mares entre os séculos VIII e XI, com saques, pilhagens e comercialização de escravos, do norte da Europa até o Mar Mediterrâneo.
E é justamente esta imagem que coloca a “remada” em debate, inclusive com os vizinhos escandinavos, como a Suécia. Para o Doutor em História pela UFF e especialista em estudos vikings e escandinavos, Caio Feó, a Noruega, hoje, até tenta ressaltar outros aspectos da sua história, mas ainda ligados a marcas deste passado.
— No século XIX a gente encontra uma série de eruditos que começam a fazer uma tentativa de recuperação desse passado viking para destacar algumas características que, na visão deles, precisavam ser ressaltadas para, digamos, contextualizar e fundamentar as bases da nação que estava nascendo ali. Um artista importante nesse contexto é o Frederik Nicolai Jensen, que acabou mobilizando ideais de liberdade, domínio das armas, valorização da virilidade masculina. Tem um quadro dele que, em tradução livre, seria “Um viking rapta uma mulher do Sul”, e que ajuda a dar um pouco dessa dimensão — diz Caio Feó.
— Hoje destacam muito o papel dos vikings como comerciantes mundo afora, artesãos, construtores de navios. Mas a principal “mercadoria” que eles comercializavam eram pessoas escravizadas. Para a Suécia, por exemplo, talvez não seja interessante se vender com uma imagem que tratam como bárbaros. Já a Noruega tem se agarrado a esse passado, como “guerreiros” — completa.
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O debate sobre a “identidade viking” também não é novo. Desde a Segunda Guerra, quando os nazistas exaltavam a herança germânica dos povos da Europa central e do norte, também pela questão do passado viking, parte da população dos países escandinavos tenta romper com esse estereótipo. A imagem dos jogadores fantasiados chegou a ser criticada na imprensa local.
— Há uma espécie de estética masculina e uma vibração um tanto tóxica e infantil. Eles poderiam ter pensado em algo melhor — disse, em junho, a colunista Janne Stigen Drangsholt, do jornal Aftenposten.
Essa “estética masculina” ligada à virilidade também faz os vikings, muitas vezes, serem usados como exemplos para extremistas. O mais famoso deles ficou conhecido justamente nos Estados Unidos. Em 2021, quando apoiadores do presidente Donald Trump, que havia perdido a eleição do ano anterior, invadiram a Casa Branca, a imagem do “Viking do Capitólio”, apelido que foi dado a Jacob Chansley, que vestia um chapéu com chifres, rodou o mundo. Ele foi preso e condenado no mesmo ano, mas recebeu o perdão presidencial de Trump em 2025.
No Brasil, um influenciador de conteúdo masculinista que usa o apelido “Viking” junto ao seu nome tem quase 500 mil seguidores nas suas redes sociais.
— É uma visão de que a masculinidade está associada à força física, quase à brutalidade. É o que historicamente se entende como uma característica essencial da masculinidade, que é essa a questão da virilidade, exaltar a força, exaltar a raiva, do homem que vai para a guerra — analisa Luciane Belin, pesquisadora do NetLab da UFRJ.
— O próprio surgimento da “machosfera” e desses movimentos tentam resgatar essa essa questão de uma “masculinidade perdida”. E se revoltam ou repudiam um movimento mais contemporâneo de pensar em novas masculinidades que não sejam atreladas a questão da força física, do desbravador, do líder — completou Luciane Belin.
Para Caio Feó, essa ligação feita entre a extrema-direita e os estereótipo vikings ainda é resquício da relação feita por nazistas durante a Segunda Guerra.
— Os usos que o presente tem se feito desse contexto certamente são negativos. Para os teóricos nazistas, haveria uma espécie de continuidade desse vínculo associada à pureza do sangue. Essa “germanicidade” dos povos da Alemanha, Polônia e Escandinávia de fato existiu, mas não tinha qualquer tipo de ligação de sangue, de pureza racial. Mas essa vinculação que os nazistas faziam na Segunda Guerra ainda é muito viva para extremistas — diz Feó.
A Federação Norueguesa de Futebol, após o ensaio feito antes da Copa, que gerou polêmica no país, preferiu ver o lado viking por outra perspectiva.
— Usamos a história como uma imagem de algo que ainda hoje é forte no futebol norueguês: comunidade, voluntariado, coragem e a capacidade de se manter unido — afirmou, na época, Ragnhild Ask Connell, diretora de comunicação da entidade.

