‘Oi, meu lindo”, diz Renato Borghi, “oi, Renatinho”, responde Amir Haddad. O cumprimento afetuoso que culmina com um selinho diz muito sobre a amizade de 70 anos entre dois mestres do teatro brasileiro, que completam 88 anos em 2025 e vão celebrar, onde mais?, no palco. Hoje, eles fazem ensaio aberto da peça “Haddad e Borghi: Cantam o teatro, livres em cena”, no Teatro Adolpho Bloch, na Glória, Rio de Janeiro, às 20h, com distribuição gratuita de senha. Amanhã, estreiam para valer a temporada do espetáculo, escrito e dirigido pelo produtor Eduardo Barata, que vai até 1° de junho.
- Amir Haddad. ‘Nunca mais vou dirigir uma peça
- Renato Borghi. Ator conta como o teatro o ajudou a se recuperar de cirurgia no coração e do casamento com José Celso Martinez Correa fala da perda do ex-companheiro Zé Celso
Mas vamos começar do começo… Imagina a cena: Borghi, Haddad e José Celso Martinez Correa de paletó e gravata, comportadíssimos, assistindo às aulas na faculdade de Direito, em São Paulo. Pois foi assim que o trio fundador do icônico Teatro Oficina, se conheceu. Faziam parte da “turma do fundão”, onde Borghi lembra se aboletar “morto de sono”, após passar a noite anterior ensaiando.
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— Sentava na última fila, colocava meus óculos escuros e dormia até não poder mais. Se me perguntar algo de advogado, não tenho noção (risos). Na hora do exame, decorava a apostila toda — diz ele que, já naquela época, manifestava o dom de gravar com facilidade textos na cabeça. — Para mim, essa parte é sopa.
Os dois estão na sala da casa de Haddad, no bairro carioca de Santa Teresa. Em volta de uma mesa sustentada por correntes presas ao teto, somam-se quase 200 anos de idade e mais de 100 de teatro. Mas eles seguem recordando os tempos de faculdade. Borghi e Zé Celso se formaram; Haddad, não.
— Não aguentei. No terceiro ano, caí fora. Fico achando que se tivesse me formado, minha aposentadoria seria melhor — analisa o criador grupo Tá na Rua.
Ao ouvir do amigo que está enganado (“é micha, Amir, são R$ 2 mil e pouco”, revela Borghi), solta:
— Que alívio! Carrego essa coisa a vida inteira.
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As lembranças da juventude estão guardadas do lado esquerdo do peito e continuam brotando:
— Amir frequentava a minha casa. Minha mãe o adorava. Como morava numa pensão, ela achava que ele comia mal e preparava uma mesa de lanche com catupiry, queijo, chocolate e café.
Eles se reuniam para estudar Direito, mas o teatro já cochichava ideias em seus ouvidos. Apaixonado por Cacilda Becker e com uma “fixação” em ser ator que não sabe de onde tirou, Borghi, inspirado pelas peças que assistia no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), propôs que montassem “Candida”, de Bernard Shaw, no teatro do Colégio de São Bento, onde havia estudado.
— Não podia entrar mulher, mas o padre era tão apaixonado por teatro que deixou a gente fazer a peça com duas atrizes. Foi um sucesso — lembra.
Em seguida, em 1959 e com direção de Haddad, encenaram “A incubadeira”, de Zé Celso. Na ocasião, Borghi aprendeu o que era “rigor”.
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— Não entendia nada de disciplina. Era temperamental, exagerado, neurótico. Amir me trabalhou. Falava: “Menos, Renato”. E a bengala dele batendo no tornozelo da (atriz) Etty Fraser, quando ela jogava o pé para frente. Amir botou a gente na linha.
— Não tínhamos a menor ideia de como o teatro exigia disciplina. Lembro de ter assumindo o papel de mostrar como é importante essa atitude para fazer teatro bom como queríamos. Na peça, tinha papel para dois atores, e nós éramos três. Então, acabei dirigindo. E me encontrei — conta ele, destacando a vocação de Borghi. — Sempre foi naturalmente um ator, uma pessoa vocacionada para fazer teatro. Eu não tinha isso tão forte. Podia ser outra coisa, como fui ser diretor.
O espetáculo era para ficar duas semanas em cartaz. Ficou seis meses. Surgia assim, naturalmente e sem planejar, os primórdios do Teatro Oficina, entre quatro paredes onde antes havia uma carvoaria “preta, imunda”, define Borghi. A turma entrou com brochas em punho e pintou de branco o espaço, emprestado pelo poeta e escritor Jorge da Cunha Lima. Todo mundo se virou também para equipar o lugar.
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— Fazíamos teatro a domicílio. Íamos na casa dos granfinos do Pacaembu e apresentávamos três espetáculos pequeninos. Eles pagavam um cachê legal, e fomos ganhando dinheiro para criar a arquibancada. As poltronas foram arranjadas pelo Paschoal Carlos Magno. Assim era o primeiro Oficina, com duas plateias e uma arena central — lembra Borghi.
Em meio ao desenrolar do ofício, Borghi e Zé, que foram casados por 14 anos, profissionalizaram o Oficina. Amir, preferiu seguir com teatro amador. Se mandou para o Pará, onde ficou quatro anos, fundou o curso de Artes Cênicas da Universidade Federal, até fincar raízes no Rio.
Corta para 2024, os dois se reencontram na Lagoa, na casa de Eduardo Barata, num jantar oferecido pelo produtor após a peça “A alegria é a prova dos nove”, que Borghi havia acabado de apresentar na cidade. Aí, já viu… aconteceu a mesma coisa que rolou nesta reportagem: eles desataram a contar casos que não acabavam mais. Saboreando as histórias, Barata teve a ideia de reuni-los no palco novamente.
— Os dois começaram a falar, e fui ficando encantado. Borghi, de família classe média alta, nasceu na Tijuca numa época em que o bairro tinha cinco cinemas. Era apaixonado por Dalva de Oliveira, Rádio Nacional. Amir, classe média baixa, com um pai que vendia rapadura, fez história no Pará e depois no Rio. Não tinha me dado conta que fundaram o Oficina com o Zé. — conta Barata, que escolheu a liberdade, caminho que norteou a trajetória da dupla, como espinha dorsal do espetáculo, costurado com Elaine Moreira, com contribuições de Débora Duboc e Élcio Nogueira.
O roteiro de “Haddad e Borghi: Cantam o teatro, livres em cena” se desenrolou a partir de dez encontros com os homenageados, como conta o diretor, Eduardo Barata, que estreia como dramaturgo. No palco, referências que encharcaram a formação dos mestres como Arthur Miller, Gianfrancesco Guarnieri; Oswald de Andrade, Bertolt Brech, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jean Paul Sartre, Lygia Clark, além de músicas do cancioneiro nacional.
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— A ideia é apresentar ao público um panorama, com recortes da cena nacional pelos olhos de operários trabalhadores contemporâneos, pensadores das artes que não separam teatro e vida —, explica.
O esqueleto da peça, que contará com outros quatro atores (Débora Duboc, Duda Barata, Élcio Nogueira e Máximo Cutrim) está amarrado. Mas a forma com que os protagonistas discorrerão sobre a existência, os diversos “Brasis” que lhes habitam, visões de mundo e suas trajetórias pessoais e profissionais será na base do improviso. Ou seja, vai ser um espetáculo diferente por dia, estrelado por artistas que não conhecem a palavra acomodação:
— Se fosse tudo arrumadinho não daria certo. Repetir a mesma coisa pronta todo dia seria impossível — diz Haddad.— Teatro é vivo, em movimento. Não tenho paciência para sentar na plateia e ficar olhando um espetáculo que não tem uma dinâmica, interaja comigo, com o que está em volta. Teatro lida com a vida.
A vida. Esse é significado do teatro para a dupla, como resume Borghi.
— Somos gente de teatro, é ele que me mantém vivo, interessado, produzindo e ganhando a vida. Tenho que trabalhar, não tenho economias para dizer que agora não preciso mais. Se não fizer teatro, eu morro.
Foi o palco que o ajudou a se recuperar de quatro operações na coluna e uma cirurgia no coração. Deu forças para entrar e sair do hospital pronto para a luta. Haddad também vê o teatro como propósito.
— Nunca fiz outra coisa. Costumo dizer, meio de verdade, meio brincando, que só teve dois meses da minha vida em que não fiz teatro, mas aí vendi maconha.
A revelação faz os dois caírem na gargalhada antes de Borghi complementar:
— Você vendeu, e eu fumei (risos). Nossa, como fumei maconha nos anos 1970! Se fumasse o charro inteiro, não fazia mais nada. Mas se desse dois tapas bem dados, ficava de uma criatividade enorme. Livre, sem censura. Usei pouco para trabalhar, mas como recreação… Foi uma época da droga mesmo. Tomei muito LSD. Meu amigo, abre uma porta que você não sabe o que vem… É doideira
Haddad nunca tomou um ácido, garante.
— Tinha medo de não voltar. Agora, maconha… Eram duas fumadinhas antes de trabalhar e já abria.
Se dos “tapinhas” eles se aposentaram, do palco, jamais. Nem a limitação de locomoção imposta pela idade é capaz de pará-los. E no lugar de qualquer lamentação, a dupla está é feliz da vida com as cadeiras de roda (transformadas em trono pela produção) que os permite se deslocar pelo palco.
— Se está motivado, sabe o que fazer e tem prazer, a cadeira de roda não é empecilho. Se tiver uma pessoa boa te empurrando, vai tudo bem — observa Borghi.
— Me sinto muito bem na cadeira de rodas, ela resolve tudo. Estamos ótimos, felizes demais. Nem dá para dizer o quanto. Não há nenhuma estranheza entre nós. Parece que não nos afastamos nunca. Que felicidade!

