‘Ninguém resiste a uma investigação.’ A frase é conhecida entre os repórteres de polícia faz tempo — apesar da tentadora metáfora na perspectiva do campo psicanalítico de Freud ou Lacan, pois é consenso que todo ser humano tem algo a esconder. Seja um crime ou um segredo soterrado no passado.
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Jornalista investigativo é um termo que, para alguns colegas, soa como pleonasmo, pois essa seria a essência genuína de um profissional de imprensa. Mas é aquele que lapida sua curiosidade inata ao longo dos anos de prática e vivência, os métodos de apuração, a feitura de fontes — e o traquejo para mantê-las sempre no radar. Talvez seja o que mais se identifica com a data de hoje: Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.
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É pena que, no Brasil, o jornalista apareça mais que a notícia. Essa frase também não é novidade no meio.
São tempos em que repórteres (ou “apresentadores de opinião”) usam seus espaços para faturar um “furo” jornalístico (jargão para notícia em primeira mão), com frases como “eu apurei”, “falei há pouco com uma fonte”, a informação é exclusiva de fulano ou beltrano. As pessoas em casa, na padaria ou no trabalho certamente querem mais é assistir a reportagens do que dar ouvidos a pitacos de comadres e compadres que se chamam por apelidos curtos ou seus diminutivos semelhantes, em tom infantil num ambiente ou contexto pretensamente sério. Quanto vale um tiktoker?
Liberdade de imprensa não é o jornalista falar o que pensa. Ou fazer da informação entretenimento. Mas sim ter a garantia de que possa exercer sua profissão fora de sua mesa ou sala — de preferência na rua, mas não sentado a esperar cair do céu ou (ring the bells) aguardar a notícia dobrar a esquina — e ser protegido tanto pelo Estado quanto pela lei do sigilo da fonte. Aquela com que todo repórter deveria ter uma relação menos íntima do que intimista.
Escrevo em memória de tantos jornalistas torturados e assassinados mundo afora, como Daniel Pearl, no Paquistão (morto pela Al-Qaeda), e meu pai, Tim Lopes, aqui no Rio de Janeiro (morto pelo Comando Vermelho), ambos em 2002. E também de Jamal Khashoggi, na Turquia (morto no consulado saudita), em 2018, assim como Dom Phillips (morto por garimpeiros), em 2022. A mensagem para o futuro é clara: a verdadeira liberdade de um jornalista é ter o direito de cumprir seu ofício, seu dever, fora de sua zona de conforto. E fazer da rua (ou favela, ou deserto, ou floresta, ou sua pátria-mãe) sua redação, seu estúdio, sua cadeira, sua mesa.
*Bruno Quintella é jornalista e documentarista

