O primeiro dia oficial de campanha deu o tom dos temas que devem pautar a corrida presidencial. Líderes das pesquisas, o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) apostaram em menções diretas à soberania e sobretudo à violência, em atos que tiveram ainda um quê de retorno às origens. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) também voltaram aos estados que governaram e trataram diretamente da segurança pública, assim como Renan Santos (Missão). Três dos cinco principais postulantes estrearam nas ruas usando coletes à prova de bala — as exceções foram Lula e Zema.
Lula escolheu o ABC paulista, onde foi líder sindical, para dar a largada na corrida pelo quarto mandato. O evento contou com bandeiras do Brasil, após sucessivos embates com o presidente dos EUA, Donald Trump. Com a defesa da soberania como um dos motes da campanha, o petista usou o exemplo dos minerais críticos para dizer que o Brasil não opta “pela China”, nem “pelos Estados Unidos”.
— O que queremos é colocar nossas meninas e os nossos meninos para estudar como a gente vai explorar as terras raras, como a gente vai transformá-las, como a gente vai produzir os celulares, os chips, as baterias elétricas, tudo que for produzido pelos minerais críticos. Não queremos exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro — pontuou Lula, com entonação nacionalista, em parte dos quase 40 minutos no palco.
O ato resgatou imagens de greves comandadas pelo então metalúrgico na região, exibidas em preto e branco no telão. O próprio presidente também investiu no passado ao se dirigir aos apoiadores no Estádio 1° de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), palco de grandes manifestações trabalhistas convocadas por ele durante a ditadura — “é inesquecível o que vivi aqui”, resumiu. A cantora Fafá de Belém entoou o hino nacional e foi saudada como “a voz das Diretas Já”.
Após as críticas pela falta de discursos femininos na convenção do PT, o evento foi aberto por Benedita da Silva, candidata ao Senado no Rio, e pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, que homenageou Marisa Letícia, mulher do petista morta em 2017. O ex-ministro Fernando Haddad, que tenta o governo paulista, e o vice Geraldo Alckmin (PSB) também ganharam destaque.
Lula também ensaiou o discurso que deve adotar sobre segurança pública, flanco histórico para a esquerda e principal preocupação atual do brasileiro, como atestam diferentes pesquisas recentes. O presidente frisou ser “fácil matar um bandido numa favela”.
— Agora, o cara que manda está no apartamento de cobertura. O cara que manda está morando no condomínio, e precisamos acabar com eles para poder acabar com o debaixo. Nós vamos trabalhar duro — afirmou Lula, que voltou a condicionar a criação de um Ministério da Segurança Pública à aprovação da PEC que tramita no Congresso. — É para dividir responsabilidades com os estados e libertar o povo, prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre.
Organizações terroristas
Pressionado pela vinculação do bolsonarismo a medidas norte-americanas como o tarifaço, Flávio argumentou ser “o único que pode sentar com os Estados Unidos” para negociar e chancelou a classificação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, adotada pelos EUA sob protestos do governo brasileiro. Ele também repetiu a tática de tentar usar a violência urbana como antídoto no tema, sustentando que “o atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros”, mas “não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador, assaltante e assassino”.
— Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, sua bolsa, nossa casa.
Se Lula, no ABC, fez referências à gestão de Jair Bolsonaro (PL) durante a pandemia da Covid-19 para atacar o grupo adversário, Flávio acusou o petista de deixar um “legado de incompetência e corrupção”, sinalizando outro dos principais eixos de seu discurso de aproximadamente meia hora. Ao introduzir a participação do vice, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL), destacou a participação do aliado à frente da CPMI do INSS e disse que ele tornou-se alvo de denúncias porque “pediu a prisão de Lulinha”. O filho do presidente é investigado pela Polícia Federal (PF) em inquéritos decorrentes da atuação do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, enquanto Gaspar foi envolvido em um caso de suposto estupro de vulnerável. Ambos negam ilegalidades.
— Cinquenta milhões de brasileiros estão sob o domínio territorial do crime organizado. Esse é o produto do Lula e do PT há 20 anos no poder — discursou o vice de Flávio, que teve o passado como promotor em Alagoas ressaltado.
Na Praia de Copacabana, palco de manifestações da direita nos últimos anos, Flávio enfileirou menções ao pai. Nomes de peso do bolsonarismo, porém, não marcaram presença, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a despeito das pazes recentes, além do pastor Silas Malafaia — que enviou um áudio curto tocado para o público. Douglas Ruas (PL), candidato ao governo do Rio, discursou no palco, mas recebeu pouco destaque.
O senador repetiu o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e chegou a puxar um coro de “Volta, Bolsonaro” junto aos presentes. Ao contrário do que ocorreu na convenção do PL, quando o uso de um vídeo de Jair gerado por inteligência artificial ocasionou questionamentos na Justiça Eleitoral, dessa vez foram reproduzidos trechos de discursos antigos de Jair.
— Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Pelo contrário. Nós somos o último obstáculo para que esse país não virasse uma ditadura — afirmou Flávio, que disse ter “aceitado a missão” de assumir o posto do pai, que cumpre prisão domiciliar humanitária pela condenação na trama golpista. — É difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé, mas estou aqui com toda a humildade — completou o senador.
Volta ao próprio estado
Enquanto Lula resgatou o sindicalismo e Flávio recorreu ao pai, Caiado e Zema apostaram na trajetória recente como gestores. Após deixarem os Executivos locais com alta aprovação para concorrer ao Planalto, os dois escolheram os próprios estados — Goiás e Minas Gerais, respectivamente — para iniciar a campanha.
Durante uma das paradas da carreata pelo entorno de Brasília, na traseira de um caminhão pau de arara acompanhado do governador Daniel Vilela (MDB) e da mulher, a candidata ao Senado Gracinha Caiado (União), o pessedista ouviu um apresentador relatar que ele “botou a bandidagem para mudar de cidade”.
— Aqui era a região mais violenta do Brasil. Era impossível de fazer. O Brasil tem jeito. Chegando lá devolverei o país aos brasileiros de bem — discursou o ex-governador, que também buscou se contrapor tanto a Lula quanto a Flávio. — Sou o único mãos limpas.
Já Zema compareceu a uma missa em Montes Claros, no Norte mineiro, e protagonizou uma caminhada pela cidade, onde também deu a largada nas duas eleições estaduais que venceu. Em mais um indicativo do tema que deve permear toda a campanha, ele falou na redução da maioridade penal e prometeu construir “superpresídios”:
— Nós temos três pilares. Vamos dar três choques no Brasil. Um choque ético e moral, para acabar com a corrupção. Um choque contra a gastança do Lula e do PT, para o juros cair e o dinheiro do brasileiro voltar a valer. E também um choque contra as facções e organizações criminosas, para acabar com esse país em que o crime está dominando.
Já Renan Santos emulou o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e prometeu “tingir o chão” de vermelho com operações policiais e “devastar” inimigos. Ele também atacou Lula — chamado de “maldito bêbado” — e Flávio, descrito como “parte do grupo político mais corrupto do Brasil”. O ativista do Movimento Brasil Livre (MBL) ironizou ainda a ausência de militantes de esquerda no Largo São Francisco, na capital paulista, onde realizou o ato:
— Não vejo a resistência. Vamos passar o trator em vocês.

