A nova primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, é conhecida por ser uma trabalhadora incansável. Ela frequentemente falta a eventos sociais e rejeitou abertamente a ideia de equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Mas mesmo para os padrões de Takaichi, foi surpreendente vê-la sair de sua residência em Tóquio pouco depois das 3h da manhã no último dia 7 para convocar uma reunião com assessores antes de comparecer perante o Parlamento.
- Ameaça: China e Japão convocam embaixadores após choque diplomático sobre Taiwan
- Veja: Fala de premier japonesa sobre Taiwan retoma animosidade histórica entre China e Japão
Takaichi foi alvo de críticas por realizar a reunião, que ficou conhecida na mídia japonesa como a “sessão de estudos das 3 da manhã”. A questão é especialmente delicada no Japão, onde houve casos notórios nos últimos anos de karoshi, ou “morte por excesso de trabalho”.
Alguns argumentam que a reunião, que envolveu vários assessores e durou cerca de três horas, poderia levar a extremos prejudiciais. Outros disseram que Takaichi estava impondo encargos desnecessários à sua equipe.
Yoshihiko Noda, ex-primeiro-ministro e líder do principal partido da oposição, classificou a decisão de Takaichi de realizar a reunião como “loucura”. Quando liderou o Japão entre 2011 e 2012, ele costumava começar a trabalhar por volta das 6h ou 7h da manhã.
— Não há problema nenhum em ela trabalhar [de madrugada], mas ela não deveria envolver outras pessoas — disse Noda. — Todo mundo está dormindo a essa hora do dia. É uma atitude muito lamentável para a chefe do Estado.
Takaichi, que assumiu o cargo de primeira-ministra do Japão no mês passado — a primeira mulher a ocupar essa posição —, procurou esclarecer as circunstâncias da reunião. Ela afirmou que seu fax, que ainda é um meio de comunicação essencial no país, em casa estava com defeito. A premier, por isso, decidiu ir à residência oficial — onde ainda não se mudou — para revisar o material informativo antes da reunião sobre o orçamento, marcada para as 9h na Dieta, o Parlamento japonês.
No dia 7, Takaichi fez um discurso no Parlamento, reconhecendo que sua preparação matinal havia “causado inconvenientes” à sua equipe. Mas afirmou que era necessário se reunir tão cedo para reescrever as versões preliminares das respostas aos parlamentares sobre uma variedade de assuntos.
Os apoiadores de Takaichi a defenderam. Alguns membros de seu partido, o Partido Liberal Democrático (PLD), culparam os parlamentares da oposição por apresentarem as perguntas com atraso.
“Nem mesmo um viciado em trabalho gostaria de estar trabalhando às 3 da manhã”, escreveu Midori Matsushima, parlamentar do PLD, no X.
- Ascensão de Sanae Takaichi: primeira mulher a governar o Japão moderno, confirma guinada ainda mais conservadora do país
Alguns líderes empresariais também se manifestaram em apoio a Takaichi, dizendo que não entendem a polêmica em torno de seus hábitos de trabalho.
Kenji Koshio, diretor executivo da Shindenki, uma pequena empresa de eletrônicos na cidade de Kobe, escreveu em seu blog que se esperava que tropas, policiais, bombeiros e profissionais da saúde trabalhassem 24 horas por dia. “Por que não a primeira-ministra do Japão?”, questionou ele.
Em resposta à polêmica sobre a reunião, Koshio acrescentou: “Por que vocês simplesmente não param de ser tão patéticos e demonstram gratidão às pessoas que estão trabalhando arduamente pelo povo do Japão?”
A controvérsia surge em um momento em que o Japão considera flexibilizar os limites máximos para horas extras, uma ideia que Takaichi apoiou recentemente. O limite atual de 45 horas extras por mês foi implementado em 2019 após a morte de Matsuri Takahashi, funcionária da Dentsu, gigante da publicidade, que cometeu suicídio em 2016 depois de acumular mais de 100 horas extras por mês.
Takaichi defendeu a permissão para que as pessoas trabalhem mais horas extras, afirmando que essa é uma importante fonte de renda. No entanto, ela também ressaltou que isso não deve ocorrer às custas do bem-estar dos trabalhadores japoneses.
— Não aprovo horas extras que levam à morte por excesso de trabalho — disse Takaichi em outra aparição no Parlamento neste mês. — Preocupa-me que uma redução no pagamento de horas extras leve as pessoas a prejudicarem a sua saúde ao aceitarem trabalhos paralelos desconhecidos para ganhar a vida.
- ‘Nova era dourada’: Premier japonesa aposta em ofensiva de charme para selar aliança durante visita de Trump
Desde que entrou para a política na década de 1990, Takaichi fez da ética de trabalho parte de sua identidade. Durante sua recente campanha, ela prometeu abandonar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional ao assumir o cargo, afirmando que iria “trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar”.
Seus comentários foram criticados por familiares de pessoas que morreram de excesso de trabalho no Japão, que afirmaram que ela deu um mau exemplo.
Desde que foi nomeada primeira-ministra há apenas cerca de três semanas, Takaichi tem tido uma agenda excepcionalmente cheia. Recentemente, ela recebeu a visita do presidente americano, Donald Trump, e participou de reuniões na Malásia e na Coreia do Sul.
Shigeaki Koga, ex-funcionário da área econômica, disse que compreendia a agitação das primeiras semanas de Takaichi no cargo. Mas afirmou que ela deveria manter a prática de seus antecessores de realizar reuniões somente após as 7h ou 8h da manhã.
— Três horas da manhã é muito cedo — afirmou. — Não importa o quê.
Koga observou que provavelmente é impossível para qualquer líder moderno obter descanso adequado, mas disse que é importante não sobrecarregar a equipe.
— O primeiro-ministro não pode relaxar. Mas o melhor a fazer é trabalhar arduamente em segredo — concluiu.

