Não sou exatamente um homem de festivais. Tenho alguma dificuldade com qualquer programa em que milhares de pessoas façam a mesma coisa ao mesmo tempo: fila, gente demais, copo de plástico e algum amigo garantindo que “a energia está incrível” ou exaltando a famigerada “experiência”. Por isso, antes da primeira vez que fui ao Rio Gastronomia, há alguns anos, eu olhava para aquilo com certa desconfiança. Dez dias atrás, no Rock in Rio, voltei a pensar nisso e saí de lá lembrando que festival, no fundo e ao contrário do que vislumbra minha chatice, também serve para encurtar distâncias.
E se o Rock in Rio fosse um botequim? Um roteiro carioca para os gringos do festival
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No Rock in Rio, eu me emocionei para além dos shows quando olhei para a plateia. Fiquei observando famílias inteiras, gente de excursão, de Minas, do interior, pessoas para quem aquele fim de semana talvez fosse a chance de ver, de uma vez só, artistas que nunca conseguiriam encaixar na rotina, no bolso ou na geografia. Por algumas horas, festivais concentram num mesmo terreno coisas espalhadas pelo mundo, pelo preço, pela distância e até pelos hábitos de cada um. É uma espécie de parque temático da música, com a vantagem de que ninguém precisa abraçar o Mickey.
O Rio Gastronomia, que começa hoje no Jockey, me provoca desde a primeira visita uma sensação parecida, numa escala mais doméstica e com guardanapo. É o Rock in Rio do rango. Durante três fins de semana, restaurantes, botequins e produtores de diferentes cantos ficam concentrados num mesmo gramado. A pessoa de Bangu não vai toda semana ao Eleninha; quem mora na Zona Sul talvez jamais atravesse a cidade para comer no Bar da Portuguesa, no subúrbio; tem gente do Recreio que conhece Casa 201, Bar do Momo ou Ferro e Farinha só de ouvir falar ou salvar num mapa que nunca consulta.
A 16ª edição do Rio Gastronomia leva ao Jockey Club Brasileiro uma programação que reúne restaurantes, shows e outras ativações
Divulgação / Alex Ferro
Por algumas horas, o Rio encolhe. Distâncias que normalmente são de geografia, bolso, rotina e hábito cabem numa caminhada pelo Jockey. Existe até line-up: dá para montar mentalmente seu Palco Mundo e seu Sunset, alternando um bolinho aqui, um prato de restaurante sofisticado ali e algum show no caminho. No festival de música, o drama está em descobrir duas atrações boas no mesmo horário; no de comida, em perceber que o estômago fechou os portões antes da atração principal.
E a parte mais carioca dessa ideia está nos bares. A prefeitura leva este ano ao evento, no projeto Patrimônios do Rio, um botequim a cada fim de semana: primeiro o Bar Urca, depois o Bar da Portuguesa, de Ramos, e por último o Bode Cheiroso, do Maracanã. Um bolinho de bacalhau, uma sopa de siri ou a famosa “barra de cereal” do Bode, que no caso é um torresmo respeitável, lembram que patrimônio no Rio também pode morar numa estufa de bar, num balcão gasto ou numa mesa na calçada. E ainda vira atração de festival.
Mas, claro, seria um desperdício conhecer o Bar Urca sem a mureta, o Bar da Portuguesa sem a estátua de Pixinguinha ou o Bode Cheiroso longe de seus azulejos azuis e brancos. O melhor que um festival desses pode fazer é oferecer a amostra e provocar a curiosidade. Comer um bolinho de arroz no Jockey e depois resolver conhecer o Momo. Provar o Bar da Portuguesa e, num sábado, pegar o caminho de Ramos. Comer torresmo tijucano num festival na Gávea e depois entender por que aquela estufa perto do Maracanã virou patrimônio.
No Rock in Rio, você vê uma banda no festival e pode sair querendo comprar ingresso para o show completo. Recomendo uma passada no Rio Gastronomia e torço para acontecer o mesmo: provar o Rio em pequenas porções e sair de lá com fome de conhecê-lo inteiro.
Rio Gastronomia, o Rock in Rio do rango
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