Ao pensar no tempo que tem pela frente, Rita Lobo projeta um desejo: ter mais equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. “Ainda não aprendi como se faz”, reconhece, vestida com a roupa da ginástica praticada na manhã daquela quarta-feira. “Voltei e já entrei em reunião”, justifica. Aos 51 anos de idade e 30 de carreira, a cozinheira e apresentadora estica, como pode, os ponteiros do relógio, mas a lista de compromissos é extensa. Se acorda cedo, lá pelas 6h, usa os minutos iniciais para brincar com os três gatos (“meus filhos bichológicos”) e meditar. Segue, então, para a aula presencial de aeróbica “estilo Jane Fonda”, toma café da manhã com as colegas de turma e vai para a sede da Panelinha, plataforma gastronômica que a tornou famosa pelas receitas práticas e saudáveis.
A chef passa até 10 horas do dia no endereço, uma casa no Bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde produz, ao lado de 20 profissionais, os conteúdos que abastecem a audiência mensal de 10 milhões de pessoas, entre redes sociais, site e canal no YouTube. É de lá que saem receitas, livros, cursos e coleções de louça. Até mesmo as últimas temporadas do programa “Cozinha prática”, parceria com o canal GNT cujo contrato se encerrou há cerca de dois anos, foram gravadas lá. A mais nova empreitada é o videocast “Mesa da Rita”, exibido em plataformas como Spotify e YouTube, no qual explora temas além da alimentação. “É para ampliar horizontes”, afirma ela, que já recebeu a ministra do STF Cármen Lúcia e a atriz Isabel Teixeira entre os entrevistados. “Gravei 20 episódios e 10 foram ao ar. Daqui para frente, vão ser pessoas menos conhecidas, como cientistas, com saberes capazes de transformar as nossas vidas.”
São tópicos que rondam a apresentadora a esta altura da vida. “Uma mulher com a minha idade e dois filhos adultos olha para trás e diz: ‘Putz! Venci, né?’”, diz ela, mãe de Dora, de 21 anos, e Gabriel, de 24, ambos do primeiro casamento, e hoje casada com o jornalista e sócio Ilan Kow. “Mas isso traz a liberdade de experimentar. Se você vai morrer com 100 anos — e essa é uma possibilidade —, quer mergulhar em assuntos transformadores.” É o que faz na entrevista a seguir, ao mostrar elaborações em torno de ultraprocessados, menopausa, libido e pressões estéticas. “Claro que ser uma mulher bonita me ajudou a espalhar a palavra da comida de verdade”, comenta. “Mas não baseei minha carreira no look.”
O GLOBO – Você vai lançar dois livros este ano. Quais são os assuntos abordados?
RITA LOBO – Um é sobre como trazer as crianças para a cozinha porque, quando isso acontece, melhoramos a relação delas e da casa com a alimentação. O outro nasceu de um desentendimento das pessoas com as hortaliças. É bem-humorado e diferente de tudo o que já fiz, porque o verde está “putaço” com a maneira como as pessoas o tratam. São mais de cem receitas mostrando que ele está na pizza de escarola e no risoto de espinafre, com ideias para deixar as refeições turbinadas.
Estamos nos alimentando mal?
Se há 1 bilhão de pessoas com sobrepeso ou obesidade no mundo hoje, não é por culpa dos indivíduos ou preguiça. Há um sistema alimentar feito para nos induzir a escolhas ruins, sem diferenciar comida de verdade dos ultraprocessados. E, quando se fala sobre isso, pensam naquele salgadinho de pacote. Mas as pessoas estão comendo coisas “fit” sem se dar conta de que o iogurte proteico sabor ameixa com aveia é ultraprocessado, assim como o pão “100%” e o refrigerante zero. E nós, brasileiros, já temos uma dieta supersaudável, simbolizada por arroz, feijão, legumes, verduras e carnes. O nosso PF está perdendo espaço para dietas desbalanceadas em que tiram, por exemplo, o arroz e enchem o prato de ovos e proteínas.
E como as redes sociais endossam isso?
É uma ferramenta poderosíssima para essa indústria da magia que diz: “o segredo é tomar um shot de cúrcuma e limão pela manhã”. E aí você estraga os dentes, e a sua microbiota vai embora. Por outro lado, quem busca, encontra boas informações.
Ao dizer essas coisas, você enfrenta uma indústria poderosa. Sofre retaliações?
Na verdade, sou procurada, toda semana, para fazer campanhas de marcas de comida, temperos prontos e até fast-food. As pessoas ficam loucas quando falo de whey protein porque quem usa quer acreditar nessa solução. Começam a dizer que não tenho embasamento para falar sobre isso. E aí, o meu público mesmo responde: “Ela foi a única não-cientista convidada pela (revista científica) Lancet para falar em Londres sobre ultraprocessados”.
Você cita muito a ciência. Sempre se interessou?
É um mundo que me fascina. O meu livro “Panelinha: Receitas que funcionam” (2010) foi recomendado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira (do Ministério da Saúde), feito com a consultoria do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP. Mergulhei nesta publicação, e estes pesquisadores entraram no meu radar. Fizemos um convênio formal para trabalharmos juntos para que o Panelinha fosse também uma fonte de divulgação científica. Comecei a ser convidada para falar em congressos e a trabalhar como embaixadora do Programa Mundial de Alimentos da ONU.
Agora, com o videocast, explora outras temáticas. O que a motivou?
É um lugar para discutir ideias, ampliar os horizontes e a audiência. Acho que tem a ver com a chegada dos 50 anos. Ter os filhos adultos e formados dá uma liberdade para experimentar. Estudo muito para cada episódio. É aquela coisa: quanto mais aprendemos, descobrimos o quanto ainda falta.
Por falar em idade, mulheres da sua faixa etária têm pautado debates sobre menopausa.
Fomos muito negligenciadas pela medicina. Se mamografia fosse um exame no saco dos homens, não doeria tanto (risos). A emancipação feminina está mudando isso, como os tratamentos da menopausa, que eram cercados por desinformação em relação às soluções hormonais. Estou na “peri” e já comecei a reposição. Sem isso, não sei como faria o videocast. Não sinto todos os sintomas, como a coisa dos fogachos, mas sentia um cansaço horroroso. Isso se resolveu com a reposição.
Já mencionou a perda de libido também…
Isso mudou com a reposição. Agora, não é para achar que vai ter aquela coisa dos 20 anos. Sexo é como atividade física. É para marcar hora mesmo. Tem que ser pragmático: qual é o melhor dia para transar? E o cuidado vale para os dois lados. Se há um interesse em continuar a relação, é importante mantê-lo.
Além de marido, o Ilan é seu sócio. Como manter uma parceria longeva de modo saudável?
São 18 anos de união e temos uma vida individual muito rica. Fazemos muitas coisas juntos, mas também separados. Viajo só com o meu filho, a minha filha ou as amigas. Ele faz o mesmo (Ilan é pai de um casal de jovens do casamento anterior).
Ver os filhos se tornarem adultos e independentes foi angustiante?
Sei que as pessoas falam muito em ninho vazio. Mas, quando meu filho foi morar fora para estudar, senti mais orgulho do que saudade. É um baita aprendizado deixar que eles andem com as próprias pernas. Não é exatamente o buraco que dizem.
Em um dos episódios do videocast, abordou o envelhecimento, especialmente o dos pais. É um assunto sensível para você?
Minha mãe tem 82 anos e meu pai, 84. Eles são 100% independentes, mas precisamos prestar mais atenção. Uma coisa que aprendi é que, se eles têm autonomia, jamais devemos tirá-la e nunca infantilizá-los.
E quanto a você? Como enxerga a passagem do tempo? Sofre pressão estética?
Não baseei minha carreira no look. Trabalhei como modelo na adolescência e sei a diferença entre uma coisa e outra. Gosto da minha aparência e não quero mudá-la. Porém, não me incomodo em fazer pequenos ajustes para retardar o envelhecimento. Mancha é uma coisa que me incomoda. Então, não tomo sol e faço laser desde os 35 anos. Também não tenho problema em preencher uma olheira que afundou. Já fiz Botox, mas achei que mudou a minha expressão. Quando passou o efeito, não fiz mais.
Dito isso, como espera viver os próximos anos?
Com músculos, comida boa e café de qualidade.

