
Levar Péricles, o astro do pagode, para cantar os hits de Stevie Wonder, Michael Jackson e Lionel Richie tiveram na gravadora Motown? Mais uma missão para Zé Ricardo, o homem por trás do Sunset, palco do Rock in Rio que comemora 15 anos em 2026, realizando esta e outras façanhas.
— Para mim, isso representa o Rock in Rio mais uma vez mostrando que pode provocar, ir além, inventar coisas. Meu trabalho aqui é esse. Era mais no Sunset, agora é em todos os palcos — diz Zé, de 56 anos, hoje vice-presidente da Rock World, empresa que promove o festival, e curador dos seus muitos shows. — A única coisa que não consigo fazer é dirigir mais shows como estou dirigindo esse. Mas ainda acompanho a montagem de todos.
Consagrado como o palco dos encontros e dos projetos inusitados do Rock in Rio, o Sunset traz, a partir de sexta-feira, espetáculos como Roupa Nova convida Guilherme Arantes, João Gomes & Orquestra Brasileira, Marina Sena convida Céu, Capital Inicial e Dado Villa-Lobos, Vanessa da Mata convida Rubel, Os Garotin e Duquesa… isso, para não falar de Péricles canta Motown, Jota Quest toca Tim Maia e o do show do disco de Criolo, Amaro Freitas e o português de ascendência cabo-verdiana Dino D’Santiago.
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Hoje em dia, o Sunset não divide apenas com o Palco Mundo, o principal do Rock in Rio, as grandes atrações internacionais (este ano, estarão lá Mumford & Sons, Jamiroquai, Zara Larsson, Ne-Yo, Laufey, Bad Omens e Poppy), mas também a mentalidade dos encontros — uma das novidades no domingo é a participação do bossa-novista Roberto Menescal no show que Luísa Sonza, estrela pop brasileira, faz no Palco Mundo.
— A cabeça de Sunset ainda está lá. Luísa Sonza e Menescal no Mundo! Olha da onde a gente a gente veio e para onde a gente está indo! — anima-se Zé Ricardo, orgulhoso ainda de levar sua filosofia para o Espaço Favela, que no sábado terá um dos maiores nomes novos do rap nacional, o carioca Major RD, estreando o show com sua banda de heavy metal.
O caminho de José Ricardo Santana de Farias até o Sunset começou em 2003, quando ele era apenas um cantor, músico e compositor buscando viabilizar uma carreira e sugeriu ao Vivo Open Air, festival carioca onde filmes eram exibidos ao ar livre, a realização, após as sessões, de shows que fossem festas e encontros musicais. A coisa deu certo, e, quando cantava no Rock in Rio Lisboa, surgiu o convite para organizar em Portugal um evento nos mesmos moldes, o Optimus Open Air, entre 2005 e 2006.
— Mandei meu DVD para vários artistas em Portugal, e só o Rui Veloso (lenda roqueira do país), logo o mais importante, respondeu. Ele me convidou para ir a sua casa, fez um jantar, tocamos violão e cantamos a noite inteira. Saí dali e montei o Open Air — recorda-se Zé, que rapidamente fez sucesso com o evento.
Sucesso esse que levou em 2008 a produtora Roberta Medina, então à frente do Rock in Rio Lisboa, a convidá-lo para aplicar a ideia dos encontros em um dos palcos do festival, o Rock Stage. Nascia assim o Sunset.
— Eu ficava babando de como o Zé conseguia juntar aquela galera de uma forma tão espontânea e aí perguntei: “Como é que a gente leva isso pro Rock in Rio, que é tão mainstream?” — conta Roberta. — Aí começou a provocação, com dois desafios: eu queria trazer pra dentro do festival aquele lado menos óbvio e, por outro lado, contrariar a ideia de que show bom é só à noite. O palco ficava no alto do Parque da Bela Vista, para pegar aquele pôr do sol lindo de lá.
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Encontros como o grupo português de kuduro Buraka Som Sistema com a funkeira carioca Deise Tigrona, e de Rui Veloso com a brasileira Maria Rita, fizeram com que a média de duas mil pessoas que iam ao Rock Stage passasse a ser de 12 mil no Sunset. Com isso, o palco voltou a ser montado por Zé em 2010, nas edições de Lisboa e Madri. E, em 2011, na do Rio de Janeiro.
Mesmo em sua cidade, as coisas não foram mais fáceis para Zé Ricardo, que mirou alto: só para convencer o americano Mike Patton, cantor do grupo Faith no More, a aceitar se apresentar ao lado de uma orquestra brasileira (a Sinfônica de Heliópolis), foram quatro meses (depois, Patton derreteu-se em elogios ao espetáculo resultante). Além desse, shows como os de Milton Nascimento e a baixista e cantora americana de jazz Esperanza Spalding (início de uma amizade que viraria disco 13 anos depois), e o de Cidade Negra, Martinho da Vila e Emicida, garantiram o êxito do Sunset carioca.
O palco seguiu firme nas edições seguintes, alternando encontros/show inusitados e atrações internacionais (ou os dois, como quando George Benson e Ivan Lins dividiram o palco, ou quando o astro americano do rap CeeLo Green apresentou uma jovem cantora revelação carioca, Iza).
— O Sunset é um palco que homenageou João Donato e Elza Soares em vida, que fez um show do Pará muito antes de se falar de Pará, com uma bandeira de três metros, com Dona Onete linda, com Fafá de Belém, com todo mundo lá — gaba-se Zé Ricardo.
Algumas ideias, é claro, não deram certo, “mas eu não tinha medo de errar, de acertar e errar”, assume Zé. Algumas, porém, renderam espetáculos memoráveis, como a que juntou Sepultura e Zé Ramalho (em 2013), a homenagem a Cássia Eller (2015), e o tributo ao samba (2017, com Monarco, Martinho da Vila, Jorge Aragão, Alcione, Mart’nália, Roberta Sá e Criolo).
Derrck Green (à esq.), do Sepultura, com Zé Ramalho, em show no Palco Sunset do Rock in Rio, em 2013
Pedri Kirilos
Mas nada foi como em 2022, quando o palco recebeu o show de Ludmilla, estrela do funk que começava a alçar o seu maior voo, e que concorreu seriamente em termos de público com os shows do Mundo. Foi, segundo o curador, “o que fez o Roberto (Medina, criador e presidente do Rock in Rio) me dar um Sunset maior”.
— A possibilidade de você improvisar, de você discutir com o artista, que existia em 1985 (ano do primeiro Rock in Rio), hoje não existe mais. O artista tinha um tempo para pensar naquele show que era único, hoje é uma máquina de produção. O Sunset trouxe essa oportunidade de volta. Quando ouvi o Zé falando disso, eu disse: “Isso traz uma coisa que havia lá atrás, no palco principal, e que não tem mais jeito de fazer” — conta Roberto Medina.
O executivo diz que, desde o Sunset, só viu o modelo dos encontros prosperar — além do Rock in Rio, inclusive:
— Você tem um monte de filhotes por aí, muito bem feitos. Tem um até lá na minha área, que é o Rock the Mountain — diz Medina, que tem um sítio na Serra Fluminense.
O produtor Zé Ricardo (à esq.), o empresário Roberto Medina, o cantor Péricles e o pianista Maurício Piassarollo, na casa de Medina
Guito Moreto
E o que resta agora para aquele músico, que um dia estava tentando fazer com que sua carreira fosse em frente, e anos depois foi alçado ao cargo de vice-presidente da Rock World?
— Tenho planos de voltar, estou compondo, tenho músicas, tenho planos de lançar um disco. Outro dia uma pessoa me perguntou: “Você trabalha pra caralho, vai cantar para quê?” Falei: “Eu canto para existir, eu componho porque senão vai transbordar. Essa é a minha essência” — diz. — Aprendi a fazer uma coisa para a qual eu não me preparei. Quando Roberto me convidou para ser vice-presidente, eu tive uma crise de choro no restaurante. Para honrar essa confiança, eu não podia deitar na soberba, não podia achar que era um trabalho fácil. Para honrar essa confiança, tinha que continuar com o mesmo sangue no olho.
Programação do Rock in Rio 2026
