Um bowl escuro de cerâmica artesanal foi colocado na minha frente, mesa iluminada apenas com essas luzinhas que você gradua com um toque a intensidade. Aumentamos. No centro, um rolinho escultura de massa amanteigada envolvendo um caju confit com babaganouch de jiló. Imagina isso? Depois, dois cubos se fundiam e confundiam no prato branco: barriga de atum e melancia caldosa. Um toque de wasabi em um e o estalinho na boca de caviar de chia no outro. Aumentamos mais um pouco a luz para receber o próximo, que nos desarmou de vez: um pote perfumado, apoiado no prato, acompanhado de uma colher: “tente alcançar o fundo”, orientou a nossa atendente de tailleur marinho. Era um pudim de ovo fofo, com ouriço e cogumelos carnudos para trazer na colher como prêmio. Depois, outros tantos.
As descrições acima são dos três pratos que abriram o menu degustação do Madame Olympe, dos chefs Claude Troisgros e Jessica Trindade, restaurante que abriu este mês onde esteve o Mesa do Lado, no Leblon. Mais do que décor (apenas uma luminária cenográfica), o foco dali é a cozinha, aliás, aberta e logo na entrada. Encaramos oito tempos e o padrão se manteve alto. Fui pensando com os meus botões (e garfinhos) que não escreveria nada, que já resenhei demais esse chef que, além de talentoso, é uma pessoa especialíssima. Mas, não deu, não fui capaz de segurar o meu entusiasmo. A noite, comunhamos todos da mesa, foi excepcional. Do começo, com o couvert (que traz croissant roll de devorar) aos docinhos mineiros (e que delicadeza!), que acompanham o café final.
A cavaquinha veio com creme de batata, caldo de gengibre e capim-limão. O sorbet de maçã verde é regado na hora com espumante e abre o palato para o “poisson” encoberto por uma folha de acelga desidratada, translúcida, que estalava. Embaixo, a posta do peixe branco com beurre de shoyu, cebola e kale. No magret de pato, o buquê de couve-flor veio chamuscado e tostado, com toque de tucupi e lâminas de palmito. A sobremesa reproduzindo um favo com missô e azedinha, antecedeu a tal tábua de minidoces mineiros.
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O menu pode ser de oito (R$ 480+ R$ 380 com vinhos) ou quatro (R$ 380 + R$ 280) etapas. Pouco dinheiro não é, mas, para os padrões locais e internacionais de uma casa com o perfil do Madame Olympe, acredite: não é caro. Se for nos vinhos, prepare-se para uma seleção de rótulos inusitados. Nesse novo momento do chef, não tem revival. Ele não olhou para atrás. É tudo novo de novo. Impressiona o fôlego, a disposição e o poder de renovação do chef. Por isso é que, volta e meia, ele volta aqui.
Rua Conde Bernadotte 26, Leblon. Ter a sáb, das 18h30 à meia-noite. Reservas: 99483-0075.